24-05-08

O galo além da baía

Santana, 17 de março de 2007

Carlos Augusto Ramos

 

Como é bom acordar na chegada à Belém do Pará. Não em cima da cidade, posto que mais assusta do que desperta outro sentimento de alívio pelo fim da jornada fluvial. Falo de um abrir de olhos ainda de madrugada, de um esfregar de olhos embaçados a direcionar-se para as luzes de Barcarena, servis, industrializados, nada íntimos para os passageiros. Parece um mundo à parte, de monstrengos navios e uma confusão de gente se espremendo por um trabalho muitas vezes efêmero, de acordo com o humor dos mercados, limitados nessa luta pelo farol plantado na pedra, marcando o término da baía do Arrozal, agora serena por esta hora de aurora. É o frescor da manhã se espreguiçando em seus raios pelo horizonte afora, ouvindo-se no imaginário os galos a cantar, pois se sabe que lá na terra estão na troça de surpreender os homens, as mulheres e as crianças, no reflexo nosso de escutá-los na rede, na cama, no sofá e até no chão, no terreno lá firme. É o escuro lençol pintado com estrelas, pontinhos, clareando o azul clareando, com a esperança crescendo a cada minuto rompedor, com rasgos do breu feitos implacavelmente pelo sol que surge. Para os penitentes noturnos, é o descansar das mentes, cujos fantasmas fazem bico de manha pelo fato de serem enxotados diante da luz que aparece, indo, mas ameaçando voltarem na noite seguinte, para atormentar ou testar a fé da humanidade pelos pecados cometidos, pelas omissões estabelecidas, seja a idade que for. É o constatar que a mata existe, com a nitidez sobre o muro vegetal que é, foi ou poderia ser, a demarcar a divisória entre o céu e o rio, como a junta dos azulejos. É o espantar-se com a floresta de pedras de repente, na curva, olhando à direita a casa solitária que talvez sirva de guarita para o novo campo transposto, quem sabe uma Babilônia, que surge a cada torrão desta modernidade, pasmando as pessoas que chegam. É o desatar das redes de sonhos e ora, voltar infelizmente em pensar em trabalho, aportando para realidade.