23-07-08

O VIRA-LATA ENVELHECE

por Ronaldo Duran*

Se nós estamos nessa vida deve haver algum motivo. Acredito que seja o de ser feliz. Mas o que é ser feliz? Questãozinha complicada. As opiniões divergem muito. De minha parte, feliz é você não estar triste. Triste é ter aporrinhações, do tipo uma cadela querendo exclusividade, pessoas te mandando latir assim ou assado, ter que fazer necessidades em minúsculos espaços. Enfim, triste é a idéia de ter dono.

Desde tenra idade, experimentei a necessidade de liberdade. Fui filho de uma ninhada de quatro. Dois morreram, e outro foi dado. Fiquei eu lá, junto de minha mãe. Mas vendo-a puxada por mãos rústicas, com a dura coleira ao pescoço, já me indignei. Não éramos, todos, seres vivos, habitando o mesmo planeta, vivendo a mesma irracional e breve existência, então por que é dado a uma espécie o direito de sobrepujar a outra?

Eram idéias pueris, dessas que não se sustentam com análise mais detida. Contudo, era meu modo de pensar, e eu nele acreditava. A ração que eu comia vinha de animal abatido, os legumes arrancados, o leite que eu bebia vinha de alguma pobre vaca violentada, nada disso me incomodava. Irritava-me tão somente minha raça ser submetida a do ser humano.

A situação se manteve insuportável, e após a terceira surra, jurei a mim mesmo que fugiria da prisão insana que certos amigos chamam de lar. Mergulhei no mundo, nas ruas, nas vielas, sem coleira, sem ordens, sem gritos. Bem, os gritos não cessaram de todo, visto que ainda que não tivesse um dono estava eu numa cidade de homens. Basta nos depararmos com um mal-humorado, para que sejamos humi lhados, até perseguidos com pedras, paus. Os pontapés aleatórios são os mais comuns.

Ainda assim a felicidade é imensa. Se nos primeiros meses de liberdade, diante da nova experiência, eu tremi, chorei, me escondi, sofri, logo fui percebendo o verdadeiro benefício. Estava livre. A comida? Esta é a razão por que muitos permanecem com os donos humanos, temem que, a céu aberto, a fome os aniquile. Mas certas lavagens do lar podem muito bem serem encontradas na rua. Revirando lixo, fazendo pose de pedinte diante de uma estufa de frango assado, encostando-se a um bar no qual esteja rolando um churrasco. As opções são inúmeras. Afinal não nascemos do cordão umbilical humano, podemos nos virar.

O abrigo? Fora os dias de chuva, dormir debaixo dum banco da praça sacando a paisagem é quase um paraíso. Há muita alternativa. O bom é evitar ficar debaixo de veículo, porque já ouvi relatos horríveis sobre companheiros esmagados durante o sono. Cuidado com a molecada ou os drogados de todos os gêneros que perambulam na madrugada. Quantos colegas eu vi mortos no outro dia.

Perigos, privações nada supera a liberdade. Agora mesmo estou seguindo esses quadris. Ela é linda. Tem dono, mas é daquelas que dá uma escapada, me convida para um terreno baldio, me usa, e logo que terminamos, corre para seu dono. Eu não a culpo. Manter seu estilo de vida, a comida, os produtos de beleza, o penteado, custa dinheiro. Estando eu feliz com minha liberdade, acho meu dever propiciar felicidade à c adela aprisionada.

Sinto que estou envelhecendo. Ainda falta tempo para degenerar, mas estou envelhecendo. Meu destino é certo: velho, jogado num canto, a morrer, sem dono. Triste, né? Nada. A morte é inevitável. Espero assistir de meu canto fúnebre a vida esvair-se sem ter tido a necessidade de precisar de mendigar o socorro de um dono.

 

* Escritor, autor do romance ANDO DE ÔNIBUS, LOGO EXISTO!. Disponível no site www.livrariacultura.com.br e www.corifeu.com.br E-mail do autor [email protected]