O EMPRESÁRIO QUE SUMIU NA INTERNET

(Da Série: Para ler na fila)

César Bernardo de Souza

Cipriano Latuf era um comerciante muito conhecido na região por causa do grande volume de negócios que realizava com boi gordo, era popular porque alem de estar sempre bem humorado não se negava ao atendimento a qualquer pessoa que lhe procurasse. Só não tolerava quem lhe ficava devendo indefinidamente.

Muitos outros grandes comerciantes e industriais mineiros consideravam-no dono de grande talento e potencial subaproveitados para o comércio. Parecia-lhes um desperdício ver aquele homem misturado à realidade de uma região tão atrasada, mesmo em um pais parado no tempo como o Brasil. As pessoas dali distanciavam-se muito pouco do primitivismo, usavam animais para o transporte, mantinham nos quintais boa parte do provimento alimentar, recorriam muito mais aos medicamentos caseiros do que ao balcão de farmácia e, quase realizavam todos os seus negócios na base do escambo.

Mesmo vivendo nesse meio Latuf progredia rapidamente, suas transações comerciais eram muito mais calcadas no comércio atacadista embora fosse comum vê-lo atendendo pessoalmente clientes varejistas que buscavam satisfazer suas necessidades mais comezinhas, de ultima hora.

Como de costume Latuf foi a Belo Horizonte realizar novos negócios, foi lá que "conheceu" efetivamente a Internet. É claro que já tinha ouvido falar desse fenômeno multimídia do fim do século mas até então não a tinha acessado. Navegar, não tinha ainda navegado.

Em Belo Horizonte a sua fama de grande comerciante já tinha se espalhado, quiseram convence-lo sobre as conveniências de informatizar os seus negócios e mais: coloca-los na Internet. Depois que ouviu sobre o quanto cresceriam seus lucros e mais de segurança para o seu dinheiro internauta e de quantos negócios ele mesmo poderia realizar " sem sair de casa", Latuf cedeu.

Na oportunidade, lá mesmo em Belo Horizonte fez contatos via Internet com alguns de seus clientes no Canadá, Japão, Estados Unidos, França, Itália e Brasil, ajudado que foi pelo escritório de informática NOVHORIZOMÁTICA, o mesmo que lhe venderia, instalaria, treinaria pessoal e manteria operacionalmente o novo escritório.

Os consultores que o atendiam, gente muito esperta, pediram informações especiais ao Latuf sobre seus clientes, nada muito alem de nomes, telefones, endereços e outros pequenos detalhes de identificação. Instalaram o Latuf em cadeira fofa e deram-se a navegar pela internet mundo afora, em poucos minutos os consultores ajudados de perto pelo Latuf organizaram uma adress list dos clientes indicados:

Olha aí Latuf, todos os seus fornecedores tem um site na Internet. Vamos dar uma olhada em seus e-mails. Falta o seu.
Latuf, naturalmente, não entendia nada mais via a tela do computador ganhar vida à sai frente à medida que o operador digitava dábliodáabliodáblioqualquercoisapontocom , ou pontocompontobeerre ou pontogov ou pontonet.

Pronto, o T.C. Wersteen está acessado, vejamos que produtos estão sendo lançados no mercado, seus preços, condições de pagamento, prazos de entrega, etc.
Imediatamente Cipriano Latuf passos a se chamar [email protected] , desse momento em diante sua vida mudaria para sempre. Ali mesmo, bem acomodado na cadeira fofa, Latuf era um misto de criança e palhaço, dava pulinhos na cadeira alem de a todo instante abraçar efusivamente os três consultores que lhe proporcionavam tamanha felicidade. Quando ele pensou que já se empanturrara de internet, foi indagado:

- Sr. Latuf, gostaria de conversar com Mr. Scott? Ele está em Nova Iork, ficaria alegre com a sua cortesia.

Latuf e Scott conversaram como se fossem velhos amigos, a fisionomia de ambos estava na tela, pareciam joviais apesar de quarentões. O tradutor simultâneo, eletrônico, embasbacou Latuf no inicio da operação, depois serviu para expressar a Scott um velho descontentamento:

- Muita demora no pagamento, ô Scott. Não fosse a inflação brasileira, não poderia continuar com os nossos negócios. Você diminui os meus lucros.

Okay Latuf, by by.
Depois, o embasbacado Latuf falou com o Sr. Nakamura, que estava em Korbe, no Japão. Fechou excelentes negócios com ele, seu talento para negociar lembrou-lhe recomendar a Nakamura o e-mail de Mr. Scott, com a proposição de se ocupar apenas um navio no mesmo contrato de frete, para trazer-lhes as próximas mercadorias do Japão e dos Estados Unidos até o Brasil. Antes que Nakamura o esnobasse, ele próprio sugeriu devolver no mesmo navio e mediante mesmo contrato de frete, carne bovina, mármore azul e soja, respectivamente para as empresa de Mr. Scott e Sr. Nakamura nos Estados Unidos e Japão.

Já à noitinha, quando Latuf deixou as dependências da NOVHORIZOMÁTICA sentia-se aliviado por ter ultimado negócios com os parceiros franceses, canadenses, italianos, e brasileiros "sem sair de casa".

Dali retornou para cidade mineira de Volta Grande, tendo por leitura de bordo um glossário de informática em bela encadernação, presente que o dr.Evandro metera-lhe debaixo do braço como brinde e reconhecimento pelo excelente negócio que fizeram, objetivando a instalação de estações de computadores, treinamento de pessoal e manutenção de todo sistema a ser instalado num prazo máximo de doze dias.

Latuf era um gênio, tinha excelente memória principalmente para números. Dizia-se na cidade que ele podia lembrar seis mil números, entre contas bancarias, placas de carros e telefones. Não esquecia de jeito nenhum as data dos aniversários de seu interesse, quantias que lhe deviam, volumes de mercadorias que movimentava no mês, mas para nomes não tinha tão boa memória assim.

Daí em diante Latuf começou a desaparecer das vistas das pessoas daquela pequena cidade, onde antes era visto por uma mesma pessoa dez q quinze vezes num mesmo dia. Não era mais visto porque não saía de casa,praticamente mudou-se para a saleta onde mandou instalar os computadores recém adquiridos. Quando ia ao banheiro levava o telefone celular e o not-book.

Saudalina, a empregada da casa a tantos anos passou à condição de porta voz do Latuf no período que ele se isolou completamente para se dedicar em tempo integral ao aprendizado necessário ao rápido domínio da maquina multimídia. A bondosa senhora, com mais de sessenta anos, recebia no portão principal de acesso à casa todas as demandas ao Sr. Latuf.

Pronto! Latuf já era um internauta de qualidade, a cidade inteira tinha visto chegar à sua casa aquelas tralhas todas, tantas peças estranhas e tanto isopor para a prevenção aos impactos danosos aos equipamentos durante o transporte rodoviário desde Belo Horizonte.

A garotada sempre criativa em tornar desafios em brincadeiras, imediatamente transformou em "neve" a montanha de isopor que se ia formando no depósito de quinquilharias do Latuf. É certo que a garotada, apesar do sol quente e do calor tropicalíssimo, arranjou uma brincadeira interessante, contagiando crianças de todos as idades que se viam correndo uma de encontro a outras com as mãos cheias de neve. Era bonito ver as crianças dominadas, quase transtornadas pela alegria, umas com os cabelos impregnados de pequenas partículas de neve, outras já muito suadas exibiam os corpos delicados pontilhados de pó de isopor.

Latuf assistia a toda essa algazarra, levado pelo bom coração que possuía deixava-se abstrair mostrando-se estático atrás da vidraça da janela do segundo pavimento da sua casa que dava para a rua onde acontecia a brincadeira das crianças. Parecia que estava no meio da garotada, imperceptivelmente soltava gritinhos junto com as crianças mais exaltadas, dava pulinhos sem tirar os pés do chão, esgava sorrizinhos quando pedaços da brincadeira com "neve" resultava em tombos espetaculares que não machucavam. Um tempo depois Latuf mandou instalar uma persiana naquela e noutras janelas por que não queria mais ser visto da rua, da mesma forma que não desejava mais deixar que a brincadeira das crianças quebrasse a sua concentração na navegação internáutica.

Com uma pequena providência aqui e outra grande ali, Latuf foi se isolando do mundo antigo, basicamente ele só podia ser visto pelos seus três últimos empregados, desde alguns dias atrás transformados em assessores. Sua vida já era quase virtual, dispensara vinte e nove empregados e tinha planos para dispensar os outros dois, o José Rafael e o Pedro Gomes.

A bem da verdade, os empregados não foram despedidos assim sem mais nem menos. Latuf já tinha sido penalizado pela Justiça do Trabalho, sentia pavor só de pensar em comparecer perante juizes e ainda ter que pagar indenizações que para ele era sempre absurdas. Assim, decidiu que seus empregados urbanos poderiam permanecer na folha de pagamentos desde que se transferissem para a lida diária nas fazendas de cria e engorda de gado. Homens e mulheres que quisessem aceitar o desafio dos currais poderiam continuar com ele, em caso contrario o pedido de dispensa restava com alternativa, um caminho pelo qual praticamente todos os seus antigos empregados , entre eles alguns bons amigos, caminharam de costa para o "novo" Latuf.

Para melhorar sempre mais o seu desempenho informático, Latuf se iniciou num linguajar muito estranho, misto de inglês, eletrônica e masoquismo. Até pouco antes se vocabulário era carregado em palavras como arroba, peso vivo, boi em pé, peso vivo, porção eviscerada, lote recém adquirido, lote da pronta entrega, partida refugada, nelore branco, pasto batido, cinco mil "boi"... Agora, apesar de ainda tropeçar um pouco nas palavras, Latuf perdia em palavras como compiler, compress, connect time, bridge, site, afress, planne, bounce, animation, anonymous, daendon, firewall,frame, gigabyte, gigaflops, hacker, host, marphing, quary, postmarste, talmet, Word Wide Web. Obviamente sabia-lhes os significados.

Latuf ficou muito mais rico, porém seu dinheiro era eletrônico e internauta, fazia tempo que não segurava nas mãos uma nota de cem dólares. Via internet ia a supermercados, recebia e pagava contas, movimentava-se nos grandes bancos nacionais e internacionais, ouvia e assistia shous de música nacional caipira e country americana, controlava a movimentação de gente e de bois nas suas varias fazendas e até estava "amando" pela telinha de cristal liquido.

Já bem dentro das noites, Latuf costumava plugar-se a Evelyn Sacs, um seu novo amor, australiana que "conhecera" virtualmente por ocasião da realização de uma operação de venda de uma grande manada de bois gordos a ser entregue a um frigorífico filipino. Evelyn era a fazendeira proprietária dessa manada, achava-se impedida pelo fisco filipino de operar negócios no país.

Certa vez navegando na Internet, encontrou Latuf prontamente disponível para "comprar" seus bois e logo revende-los sem maiores atropelos fiscais no mesmo mercado. A entrega da boiada ao destinatário seria tarefa da terceirização, facilmente encontrariam alguém que fizesse isso por eles já que a Internet estava cheia de e-mails de empresas e pessoas especializadas nessas operações.

A partir daí a bonita e rica Evelyn dedicou-se ao coração do feliz Latuf, tinham se apaixonado, viam-se todos os dias, faziam sexo a cada encontro, tudo pela Internet. O desejo que Latuf tinha em ter filhos com ela ainda não tinha sido motivo de discussão entre eles.

Assim, a vida de Latuf ia num crescendo vertiginoso de sucesso e felicidade, tudo tão grandemente absurdo a ponto de não perceber que o seu mundo real estava parado. Por causa desse enlevo, não viu que junto de sua casa, do outro lado da rua, erguia-se um prédio novo, obra estranha avançando muito mais para as profundezas do chão do que para o céu. No dia da inauguração houve festa, mas Latuf nem percebeu a grande movimentação de maquinas chegando à ultima hora. Ali instalou-se um luxuoso escritório de consultoria ambiental tocado a dezesseis mãos, seis das quais femininas.

O tempo passou até que um dia Latuf "foi" a uma festa na mansão de Evelyn, juntando-se descontraidamente a vários banqueiros importantes do mundo financeiro a que ele passou a pertencer por causa das facilitações que a Internet fez acrescentar à fortuna que ele já possuía. Tantas vezes ouviu a informação de que os índices das bolsas de valores despencariam, atingidas pelo "efeito asiático" , com isso provocando perdas astronômicas a homens ricos como ele que, ao final de minutos estava com dor de cabeça e vertigens. Ouviu ainda que de nada adiantaria deslocar suas fortunas dos bancos sediados nos famosos "paraísos" fiscais espalhados pelo mundo. Ao contrario, seria até perigoso.

Desesperado o Latuf procurava conforto na habilidade extrema de Evelyn em manobrar homens como aqueles ali reunidos em situações exasperantes como as que ainda viriam.

Falando com exclusividade Evelyn conseguia lhe transmitir alguma tranqüilidade ao mencionar a existência de códigos secretíssimos que o "sistema" dispunha para ludibriar crises semelhantes. Latuf, apaixonado, acreditava.

Nos dias seguintes nem sexo virtual conseguiu fazer apesar das ciosas provocações que a amada lhe fazia. Virtualmente, Evelyn quase lhe sugava todo sangue do corpo e mesmo assim nada adiantava. Latuf estava caído, não se excitava de jeito nenhum. Mudou de site.

Num dado momento, navegando no outro site, Latuf se viu diante de um estranhíssimo relatório sobre algumas de suas contas no exterior. Estranhou porque não se lembrava de ter solicitado nada àquele respeito, contudo a leitura que se seguiu foi prazerosa até porque empilhavam-se no rodapé do paper as assinaturas do gerentes dos bancos que guardavam aquelas contas milionárias. As oito assinaturas , que ele conhecia bem, tinham e estavam na configuração internáutica: topick on someons....

Latuf sentiu cheiro de maracutaia, sem mais e nem menos viu-se ameaçado pela tecnologia que o tinha transformado num sujeito novo. De forma inevitável ele foi comandado a seguir instruções, sob pena de ter algumas de suas contas deletadas e ainda causar a morte de uma pessoa de sua maior estima. Naquele dia mesmo Latuf compreendeu que estava irremediavelmente enredado em suas relações internáuticas.

Saudalina, empregada da casa, estranhou muito vê-lo atravessar a sala grande do andar debaixo, sair pela porta principal da casa e desaparecer no horizonte. Mas não se importou tanto assim, compreendia bem as transformações que levaram seu patrão para o mesmo patamar daquelas pessoas estranhas, parecendo cósmicas, que habitualmente estão na televisão. Fechou a porta, foi à cozinha tomar o lanche da noite, passou de volta apagando as luzes e foi dormir.

Não se vendo vigiado, Latuf retornou ao ponto em frente a sua casa porém dirigindo-se ao prédio novo que servia ao escritório de consultoria ambiental. As portas eletromagnéticas abriam-se à sua passagem, cada vez mais ao subsolo. À visão da porta grande, ao fundo do corredor, tirou do bolso um cartão magnético de acesso a uma de suas contas no exterior, introduziu-o na fenda indicada, esperou um tantinho a porta abrir-se e entrou.

Muito surpreso ficou ao se ver diante da réplica perfeita do seu próprio escritório de trabalho, tudo perfeitamente igual, até parecia mais real por causa esplendorosa presença de Evelyn que estava ali bem à sua frente, em carne e osso e lágrimas nos olhos. Muito mais bonita que na virtualidade.

Dois outros homens estavam presentes, apresentaram-se cortesmente como engenheiros eletrônicos, porém anunciaram que aquela era uma operação e seqüestro cujas vitimas eram Evelyn e ele. Recomendaram que Latuf não esboçasse nenhuma reação, qualquer gesto brusco pareceria a eles uma desobediência grave, com voz dura lembraram a Evelyn e a Latuf que não recusassem ao cumprimentos de tarefas, de jeito nenhum.

Passaram, então, a demonstrar ao pobre Latuf que caíra num golpe perfeito, inédito, limpo, civilizado s sem a menor chance de erros. Na tela dos computadores lá existentes, apareciam os mesmos banqueiros que dias antes Latuf vira sorridentes na festa de Evelyn, na Austrália. Depois viu um deles explodir literalmente ao comando de teclas acionadas bem ali, diante de seus olhos, era parte de uma demonstração planejada para convencê-lo do poder que tinham sobre as pessoas participantes daquela trama. E, claro, explicavam tudo ao Latuf com estudada paciência.

Usando gestos, um dos engenheiros seqüestrador mandou que Evelyn se aproximasse para que Latuf a visse por inteiro e com mais detalhe olhasse a manchazinha escura que se destacava bastante logo abaixo da sua pele muito branca.

É um chip, Sr. Latuf. Um outro semelhante acaba de explodir Mr. Laert lá em Londres, como o senhor acabou de ver. Informática também é isso, serve ao cravo e à ferradura.
Sem mais delonga, mas com muito cuidado outro daqueles chips foi aplicado abaixo da orelha esquerda do Latuf. Antes do início da operação, Latuf foi advertido de que se esboçasse qualquer reação Evelyn seria explodida ali mesmo, ao comando de uma tecla que ele, Latuf acionaria. Isso lhe doeu mais, não podia sequer imaginar sua amada desfazer-se em milhares de pedaços por causa de atitudes suas, além disso nem sabia ainda em troca de que deveria concordar com as exigências daqueles homens.

Mas não tardou quase nada, logo que terminaram de demonstrar ao Latuf o que mais se poderia realizar com o auxílio da Internet, fizeram-lhe a proposta:

O preço do eu resgate e o de Mis. Evelyn será dado pelo sorteio que vamos realizar com a sua ajuda. Queremos ver transferidos para as contas que vamos lhe indicar todos os dólares que você tiver em apenas três de suas contas, as três que vamos sortear são contas no exterior, bem entendido. Em caso contrário ninguém sai ganhando, o senhor e ela morrem, todas as suas contas serão deletadas e ainda explodiremos algumas pessoas por aí por conta do nosso prejuízo com os gastos que tivemos para montar tudo isso. Concordando conosco, o senhor fica ainda com muito dinheiro, salva a pele e mais tarde terá sua Evelyn de volta, sã e salva.
Latuf não tinha alternativas, aqueles homens eram poderosos não só porque dominavam largamente o conhecimento eletrônico mas principalmente porque se valiam dele para praticar o crime internáutico. Coisa nova ainda, sem quaisquer cuidados em todo mundo. Nenhum código penal, nenhum de processo civil no mundo inteiro previa o crime internáutico daquela natureza e claro, nem a correspondente penalisação ao "criminauta".

Latuf, então, negociou. Os sequestradores saíram com entram, levando Evelyn. Latuf ficou diante de uma porta para a liberdade programada para ser aberta dali à vinte e quatro horas. Todas as comunicações com o local logo estariam cortadas, principalmente o telefone por causa da internet, que estava bem à sua frente, nos computadores. Feita a operação de "resgate", vários milhões de dólares migraram das contas do Latuf. Ao fim, cinicamente, houve apertos de mãos e tapinhas nas costas pelos bons negócios realizados:

Latuf, foi um prazer negociar com o senhor.... ganhou a vida e nós a experiência.
À malandragem, como sempre, abandonou o local do crime com sorriso no rosto. Quem por ultimo desapareceu no vão da porta foi Evelyn, também com um sorriso matreiro estampado na fisionomia. Latuf, mesmo por trás da visão embaçada daqueles que estão vivendo grandes paixão, não pode deixar de perceber o riso debochado espalhado nos lábios da amada. Só ali, naquele momento mais crucial de sua vida compreendeu que Evelyn era uma quadrilheira.

Quando a porta se fechou definitivamente, Latuf quis ter um tempo para lamentar tamanha brutalidade contra os seus sentimentos, queria explodir a própria cabeça batendo-a contra parede até limpar o corpo e a alma das manchas deixadas pelas lembranças da prática do sexo virtual ilimitado entre ele e aquela mulher espetacular. Queria, em fim, acordar do pesadelo internauta em que se metera... mas já era tarde.

Mal a porta se fechou o chão começou a abrir-se, o piso de mármorite deslizava lento para dentro da parede oposta como se fosse a tampa de um poço abrindo e sumindo. O chão ia engolindo tudo, computadores, cadeiras, mesas, armários, adornos e tudo mais, iam caindo para o nada num mergulho sem fim. Em pouco seria ele, Latuf.

O pobre homem queria ter uma esperança no silêncio, não ouvia o som que produziam os objetos batendo no fundo do abismo, passou a acreditar que o buraco era raso. Mas olhar ele queria, aliás não podia, não suportaria. Estava encurralado entre a parede e o terror, pisando num chão já quase inexistente olhava aterrorizado a parede oposta aproximando-se inexoravelmente. Revelando-lhe um Latuf no mundo dos vivos, dos mortais comuns, pela última vez.

Depois que o buraco abissal o engoliu, o piso de marmorite regurgitou-se da parede, recobriu o vazio sepultado de vez o empresário Latuf que ousou acreditar ser possível viver virtualmente. Atrás da grande porta ficou para sempre o mistério. Nas cinzas do Latuf insepulto perante nos termos dos costume regionais ficou a história do primeiro internauta de Volta Grande.

Quando no dia seguinte Saudalina acordou, sentiu no peito uma certa angustia agravando mais a idade avançada mas não desistiu da lida de todos os dias. No horário habitual rumou para o escritório da patrão tendo às mãos a bandeja com desjejum, contendo apenas café, leite, pão, um ovo frito e uma banana conforme era gosto do Latuf. Saudalina tinha por ele um sentimento de mãe, de onde parecia tirar forças para subir a escadaria com o coração batendo forte por causa da responsabilidade que assumira com a saúde dele, embora não escondesse que sentia um orgulho incontido por tratar-se- o Latuf, de um sujeito caipira determinado o suficiente para movimentar e ganhar fortunas sem sair de casa.

Por causa da necessidade de ter as mãos na bandeja, à soleira da porta do escritório anunciou-se com um leve toque do tamanco na peroba grossa. Quase ao mesmo tempo empurrou a porta e entrou, espantando-se muito com a ausência de Latuf, ainda tão cedo. Quer dizer, meia ausência. Latuf podia ser visto sorridente dentro do monitor, atrás da telinha, navegando na Internet. Algumas outras figuras humanas apareciam também, a varias delas Saudalina em pessoa tinha tido a oportunidade de servir canapés e uísque ali mesmo naquela casa de Latuf.

Até onde pode entender as explicações que o patrão lhe dera tantas vezes sobre o "milagre" da eletrônica e as infinitas possibilidades da informática, Saudalina considerou provável que o Latuf estivesse mesmo em algum lugar do mundo participando de outras reuniões de negócios com aquela turma de endinheirados, invencionistas, que ela via ali na tela.

Veio na lembrança os esclarecimentos de Latuf sobre o monitoramento que através daquelas máquinas era possível fazer sobre o rebanho, vigilância cerrada em cima de cada fazenda e até sobre os empregados. Carretas transportando gado para o abate, ela mesma tinha acompanhado em todo o trajeto com o detalhe de que o cronômetro do monitor ia correndo conforme o tempo real, isso o foi quando Latuf quis demonstrar a ela as razões pelas quais tinha dispensado tantos empregados antigos e reenquadrados outros das empresas LATUF & LATUF LTDA.

Assim, no entender de Saudalina, estavam reunidos Latuf e todos os seus amigos empresários na conformidade do inexorável compasso do reloginho do computador, pareceu-lhe que tudo estava bem. Considerando algum fuso horário, a impressão que teve foi a de que tudo aquilo estava acontecendo ao vivo, apenas não podia saber quando o patrão saíra e menos ainda quando voltaria. Ao sair Saudalina fechou a porta do escritório e desviou toda a sua atenção para o telefone, imaginando que Latuf se lembraria de passar-lhe orientações se tivesse que demorar muito para retornar.

Ao longo dos dois primeiros dias, vozes diferentes chamaram pelo telefone, sempre pedindo e dando informações sobre paradeiro de Latuf:

Cadê Latuf? Ele ainda não chegou? Na certa resolveu dar uma paradinha em Madri, ele andava pensando fazer isso.
Veio então o inesperado, na transição da primavera para o,outono eram comuns as tempestades acompanhadas de ventos fortes, relâmpagos e trovões. Conheciam-se dias tenebrosos, inteiramente toldados por maciços de nuvens de chumbo, densos e baixos seguidamente cortados de alto a baixo por raios perigosamente bonitos. Antes que eles se perdessem no fim do horizonte, o trovão ecoava amedrontador botando no ar uma mensagem de pavor. Em dias como aquele os cuidados das pessoas eram dois: cobrir todas as superfícies espelhadas no interior de quaisquer onde tivessem que permanecer e trazer para o alcance das mãos as velas de cera ou de parafina e fósforos, porque tão certo quanto os trovões depois dos relâmpagos era o corte no fornecimento de energia elétrica para a cidade inteira enquanto durasse a tempestade.

Nesses dias Saudalina Parecia muito mais jovem, percorrendo hábil e rapidamente toda a casa na incansável tarefa de cobrir espelhos e espalhar candelabros por todos os cômodos da enorme casa do Latuf. Fechava todas as janelas da casa, verificava as portas, desligava os muitos aparelhos eletroeletrônicos e só depois recolhia-se ao quarto de dormir, lá permanecendo até a completa normalização da situação.

Nas trevas momentâneas daquelas noites o casarão do Latuf parecia fantasmagórico, as vidraças das janelas eram todas confeccionadas com vidros importados do continente africano e naqueles momentos mostravam excelência ao projetarem a luz do fogo das velas em sentido contrario, criando assim efeitos assustadores para quem se fixasse no vulto da casa, de fora para dentro. A cor de chumbo que baixava sobre a cidade por causa das nuvens pesadas ajudavam a aumentar os efeitos do espetáculo bonito, porém quase sem espectador já que as pessoas todas se recolhiam em seus cantos, fechava as janelas e também acendiam velas sem a menor disposição para contemplar o casarão do Latuf.

Passada essa ultima tempestade da derradeira primavera do Latuf sobre essa terra, ocorreu que Saudalina ao retornar ao escritório do andar superior para verificar o estado dos equipamentos, em lá chegando reencontrou todos eles devidamente plugados, embora em nenhum deles revelasse a projeção de imagens no monitor do computador que se mantinha ligados na Internet. A tela do grande monitor estava completamente apagada, levando Saudalina a compara-la com a aparência cinza daquele dia. Estranhou muito, mas nada lhe competia fazer.

Muito mais tarde voltou lá, a situação era a mesma. Resolveu confabular com um dos funcionários dos escritórios associados da empresa, que mandara chamar. Alertada pelo colega, checou o telefone exclusivo do escritório verificou que não funcionava provavelmente em decorrência da tempestade de raios, sempre drásticos para os serviços telefônicos que naquelas lonjuras consumiam em média três dias para o restabelecimento.

Naquele dia, porém, o sinal do telefone se restabeleceu logo, o mesmo ocorrendo com a imagem na tela do grande monitor do computador central sempre ligado na Internet no escritório do Latuf, mas a dele não aparecia mais. Quando o desespero autorizou Saudalina a passar o caso para a Polícia, a pobre mulher já tinha uma resposta para a clássica pergunta policial:

Quando a senhora o viu pela ultima vez?
Três dias atrás, ele estava aí dentro navegando na Internet.
Então as nossas investigações começam daí – disse um policial com uma convicção insuspeita. Foi na Internet que ele sumiu.

Macapá/agosto de 1999.

 

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