TRUNFOS DO SARNEY

João Silva

No bom e novo amigo Chico Bruno, li “O que é que o Sarney tem que outros políticos não têm”.

Direto então ao que impressionou o Chico: o senador do bigode mais uma vez no centro de uma eleição acirrada para Presidente do Senado e o seu poder de fogo; como manobra, como transforma as chances dos adversários em pó e as suas em boas chances, eis a questão.

Demos o braço a torcer, amigo Chico: o Sarney é calejado jogador da política brasileira e das suas pequenezas, ele sabe como apertar o rabo preso de um governante, sabe como afastar um “companheiro” atravessado no seu caminho de candidato de verdade ou não, para lembrar Garibaldi Alves, que já era.

Na grande mídia do sudeste e aqui em Belém, onde me encontro, colunistas cutucam o peemedebista, sua voracidade, mas acham que ele quer outra coisa: uma conversa franca com Lula sobre os filhos, sobre estatal que toca as obras da Ferrovia Norte-Sul, em mãos de correligionários, no momento sob investigação da Polícia Federal.
Fato é que qualquer cidadão medianamente informado sabe que o Presidente Lula roga lealdade a Sarney e vice-versa; o presidente considera Sarney essencial para estabilidade política do seu governo; e isso se paga com milhares de cargos federais, com garantia de impunidade, com obras importantes que vão para o Maranhão e não para o Amapá.

É isso que o Sarney tem de sobra, astúcia, além da sua costumeira indisponibilidade em servir ao País, a preferência pelas más companhias, pela política exercida para servir a família, os amigos, para pedir nos tribunais cabeças e morte política dos seus adversários, invés de servir o Estado e a sociedade.

A idade avançada, a saúde debilitada, nada faz o ex-presidente menos beligerante e menos ambicioso: o peemedebista está sempre resmungando no meio de disputas regionais e nacionais; no Maranhão e Amapá são pessoais, odientas, disputas que não levam em conta a construção de uma classe política comprometida com todos os cidadãos.

Não mete a mão em combuca; nega-se ao debate por ética e moralidade na política, nada acrescenta ao esforço de companheiros de Senado por uma educação capaz de redimir o País das suas mazelas sociais, das desigualdades; também não quer saber da injustiça a quê estão submetidos aposentados e pensionistas.

Portanto o que o Sarney tem, no momento, é um presidente que come na sua mão, tanto que se mostra insensível ao rompimento de acordo que garantia a eleição de um petista para a Mesa do Senado, no caso Tião Viana (PT/AC), e de um peemedebista para a Mesa da Câmara Federal, no caso Michel Temer (PMDB/SP).
Pra valer ou não a volta de Sarney ao cenário da disputa pela Presidência do Senado, abre uma crise entre os dois partidos, já que o PT não abre mão da candidatura de Viana e passa a ameaçar a eleição de Temer. E agora?
Eis uma pergunta que suscita muitas coisas, em se tratando de Sarney, da sua capacidade de estar em vários lugares, da sua disponibilidade total para a negociação, para avançar e recuar, exigir e proteger aqueles que seguem e precisam deste homem, cuja ambição na vida pública parece não ter limite.

No Amapá, controla os poderes, os evangélicos, a imprensa, os políticos, a OAB, a UNIFAP e o empresariado; apropria-se das eleições, elege um candidato virtualmente derrotado e exerce sobre a oposição o cerco da morte por asfixia, numa terra em que, por sua obra e graça, trocou-se a liberdade de expressão pela ditadura dos meios de comunicação social.

Registre-se um consolo: Cristovam Buarque e o seu protesto diante da possibilidade da eleição para presidente do Senado vir a ser decidida no gabinete do Presidente Lula, depois de uma conversa com José Sarney (PMDB-AP): “Esse processo me dá vergonha. Sinto-me como se estivesse no tempo dos militares em que o presidente do Senado era escolhido pelo Palácio do Planalto. Que democracia é essa?”.

Juro que também gostaria de saber.