Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come
Antonio Corrêa Neto

O governador Waldez Góes vai cometer um dos erros mais graves desses seus cinco primeiros meses de administração, se determinar ou permitir que seja restabelecida no Amapá uma prática sepultada há mais ou menos oito anos, através da qual os governantes estabeleciam "mensalidades" fixas para os meios de comunicação, pagando na verdade pelo controle de cada um, impedindo a sociedade de ter acesso às informações reais sobre os fatos do dia a dia.

Em 1995 foi estabelecido que a relação entre o Estado e os jornais, emissoras de rádio e televisão, se daria dentro dos procedimentos normais do mercado: o Governo precisa do espaço ou do tempo, dependendo do meio, usa esse espaço e esse tempo, paga pelo serviço, sem nenhum compromisso ou obrigação posterior.

Ainda em 1995 o dono de um jornal e sócio de uma emissora de rádio recebia R$ 10 mil mensais para não falar mal do Governo na rádio, e mais R$ 10 mensais para não falar mal no jornal. Esses R$ 20 mil eram limpos, porque além disso, qualquer tipo de veiculação, fosse de avisos, editais, campanhas de saúde, corte de água ou de energia, qualquer coisa além era paga por uma tabela aleatória, definida de acordo com a vontade do cobrador. Era muito fácil ser rico.

Então os privilégios foram cortados e foi um Deus nos acuda porque já estava determinado, não se sabe por quem, que dono de jornal, rádio, televisão, serviço de som, apresentador de programa ou coisa parecida, todos mandavam, faziam o que queriam e eram intocáveis naquilo que consideravam direitos adquiridos.

Por causa da decisão de pagar apenas pelos serviços prestados, o então governador Capiberibe virou o inimigo público dos atingidos pela medida, e nunca foi perdoado por eles, porque não mudou o que decidira, até porque era o que se encaixava na lei.

Hoje, pelo que se sabe, Waldez está correndo o risco de abrir um enorme rombo na defesa de seu Governo, primeiro porque o pagamento de "mensalidades" para os meios de comunicação é algo absolutamente ilegal, imoral e fora dos padrões que parecem afluir no Brasil. Ninguém discute o fato. O Governo precisa dos serviços dos meios de comunicação e deve pagar por eles, como os meios de comunicação pagam impostos, salários de funcionários, equipamentos e por aí, mas daí a definir uma importância mensal para cada um, a distância é muito grande.

Em segundo lugar porque na hora de colocar no papel quanto cada um vai ganhar, o dinheiro vai ser muito pouco para tanta gente. E aí surge a questão mais grave: uma emissora que tenha cerca de oitenta por cento da audiência média não vai ter nenhuma razão para aceitar receber menos que oitenta por cento dos recursos disponíveis. Um jornal que vende duzentos exemplares e distribui mais quinhentos, geralmente usados para embrulhar verdura na feira, não vai poder ter direito ao mesmo percentual de um outro jornal que tenha boa circulação e credibilidade. Mas ainda não acabaram os problemas: com raras exceções os meios de comunicação no Estado ou pagam miséria, sem carteira assinada, sem direitos trabalhistas garantidos, ou não pagam absolutamente nada, estimulando o surgimento de um segundo mercado dentro de cada um deles. Assim, o Governo além de pagar para o dono do veículo, ainda vai ter que pagar para o apresentador ou para o repórter, de cada programa, de cada emissora e de cada jornal.. E se não pagar, toma pau. E o Governo não tem dinheiro para atender toda essa demanda.

Bom. Ontem ficou pronta a primeira lista dos contemplados pela verba de propaganda do Governo do Estado. Os primeiros que tomaram conhecimento dos valores definidos nela, bateram os pés em protesto, porque consideraram um ultraje a quantia que iriam ganhar. A lista foi apagada rapidamente e os responsáveis por ela atônitos, procuram uma saída. Mas essa saída, por esse caminho não existe.
E, Waldez, meu amigo. Essa gente não se contenta com pouco.