O PT acabou?
Eduardo Jorge*
Em outubro de
2003, eu estava me desligando do PT após 23 anos de militância
estilo revolucionário "quase" profissional. É
importante lembrar que o partido estava no seu auge. Presidência
recém-chegada, bancada poderosa no Congresso Nacional, prefeitura
de São Paulo contando com mais quatro anos de governo...
Em certo fim de
semana naquela época, encontrei-me no Ibirapuera com um amigo,
companheiro de fundação do PT. Ex-padre, cristão
e socialista idealista, queria saber as razões da minha saída
silenciosa e discreta. Expliquei que quase 15 anos no Diretório
Nacional me firmaram uma convicção: sob a liderança
stalinista de José Dirceu, o PT não tinha mais espaço
para a disputa democrática de idéias que tinha sido
um dos fatores de seu crescimento.
Ele caminhava
agora celeremente para se tornar um misto de PCB piorado com PTB também
piorado. PTB não de Getúlio e Brizola, e sim de Ivete
Vargas. O casamento do autoritarismo, fisiologismo e financiamento
milionário de campanhas políticas e máquinas
burocráticas mataria a alma do PT. Mas isso era uma realidade
que eu tinha visto na cúpula. Os quadros intermediários,
de base e eleitores não tinham ainda essa vivência, que
só o tempo faria emergir com toda clareza.
O padre não
ignorava de tudo o que eu falava. Era observador arguto do que acontecia
na administração de São Paulo, laboratório-mor
deste novo PT. Argumentava, porém, que não tínhamos
opção. Um insucesso do governo Lula seria verdadeiro
apocalipse para a esquerda. Uma derrota por dez ou 20 anos para as
causas populares no país. Um retorno a perder de vista da direita
ao governo. Quase o fim da democracia...
É essa visão que oprime como uma camisa-de-força
os petistas, obrigando-os a seguir adiante num apoio fanático,
mesmo quando as evidências dos erros do governo Lula se escancaram.
É a falta
de um verdadeiro batismo de democracia que o socialista precisa para
aceitar uma característica elementar neste tipo de regime:
a alternância de partidos nos governos. Se um partido de direita,
de centro ou de esquerda vai mal, o povo o substitui por outro. Isso
é bom, necessário. O mundo não acaba se um partido
de esquerda fracassa no governo e é substituído pelo
voto por outro grupo político. É assim na Espanha, Itália,
Japão, Nova Zelândia, Índia etc.
O PT colaborou
para a implantação da democracia no Brasil por linhas
retas e tortas. Essa é uma dívida que temos com ele.
Eu tenho uma dívida particular. Entrei como um militante leninista
ortodoxo e a experiência que o PT me proporcionou me transformou
em alguém que procura ser democrata, verde e, insisto, socialista.
Mas o PT não
resolveu uma série de dilemas -totalitarismo/democracia, produtivismo/ecologia,
nacionalismo/ internacionalismo, corporativismo/universalismo das
políticas- e perdeu-se, incapaz de formular um programa conseqüente
para o Brasil e de firmar alianças políticas lógicas
e necessárias.
Hoje, quando o
país assiste estarrecido e decepcionado a essa seqüência
de escândalos, com o partido apodrecendo à luz da TV,
o que nos resta esperar? A meu ver, existem três possibilidades:
Primeiro, vamos
torcer para Lula não ser atingido pela lama e para que ele
finalmente tome uma atitude e lidere a exclusão de toda essa
facção autoritário-fisiológica que controla
a direção nacional e está em postos-chave do
governo, inclusive no Planalto. Com isso ele criará condições
para o entendimento programático, sem compra de votos, com
outros partidos de ideologias aparentadas de esquerda e centro-esquerda.
Assim, chegará até o final de seu período presidencial
e deixará que o povo julgue quem deve compor o próximo
governo. É importante recuperar o PT, uma organização
necessária no quadro político nacional pela sua tradição
de lutas populares no passado recente.
Segundo, se Lula
e a maioria do PT se aferrarem em impedir as investigações
e em manter as alianças fisiológicas, o futuro vira
uma loteria. A radicalização tomaria contornos imprevisíveis
e, como além da fumaça há muito fogo nesse lixo,
há chances de uma batalha pelo impeachment. O PT que sobreviver
a esse tormento seguirá como morto vivo, fantasma de um sonho
que acabou.
Terceiro, o processo
se arrasta indefinido até outubro. As tendências que
apóiam Lula se desmoralizam e os grupos marxistas leninistas
e trotskistas capturam um PT cambaleante na eleição
do Diretório Nacional, em outubro de 2005. Também aqui
o PT será outro. Será então inevitável
o que aconteceu no Partido Comunista Italiano, que dividiu-se em dois,
a Esquerda Democrática e a Refundação Comunista.
Em tempo, os dois herdeiros expulsaram os corruptos que havia entre
eles.
O momento é
decisivo. São dias que valem anos. Seria uma pena assistirmos
a um Anakin ainda jovem, embora pretensioso, se tornar um Darth Vader
tropical decadente.(Folha de São Paulo)
Eduardo Jorge
é médico sanitarista, fundador do PT onde foi militante
duirante 23 anos. Deixou o partido em 2003