Política agrícola
XICO GRAZIANO
Os agricultores
de Montelândia, pequeno município do noroeste capixaba,
viraram a política no avesso. Cansados de ouvir promessas,
inverteram o jogo e entraram pra valer na corrida eleitoral. A história
é exemplar.
Montelândia
tem 11 mil habitantes, metade deles na roça. Seus produtores
rurais, mais de mil famílias, estão agrupados em 18
associações, coordenadas por uma entidade central. Liderados
por jovens agricultores, decidiram organizar um processo de consulta
popular. Chamaram-no de "plebiscito".
Cada associação
escolheu 7 delegados para compor uma assembléia geral.
Abertas as inscrições, 3 pretendentes ao cargo de prefeito
se manifestaram.
Após muita discussão, a assembléia escolheu o
candidato. Final do processo?
Não.
Formalizada a
candidatura, iniciaram a elaboração do programa de governo.
Nele incluíram a Secretaria municipal de Agricultura, as estradas
rurais para serem consertadas, contratação de técnicos
para apoiar os agricultores, projetos de agroindústria familiar,
educação rural nas escolas. Botaram tudo no papel e
saíram em campanha.
Gente humilde,
carregada de passividade, deixou de lado as eternas reclamações
e se tornou sujeito ativo de seu próprio destino. Tomara que
logrem a vitória.
A lição
política é simples: na democracia, a participação
é fundamental.
Dizia Franco Montoro que ninguém vive na União nem no
estado, mas sim no município. Surge um paradoxo. Quanto mais
se internacionaliza o mundo, mais se valorizam a cultura e o modo
de vida locais. O raciocínio vale também para a agricultura.
Pensar globalmente, agir localmente.
A agricultura
brasileira esteve esquecida durante as décadas da industrialização.
O Brasil pensava somente na cidade, onde reluzia o progresso. Interior
afora, criou-se uma ilusão coletiva. Forças novas surgiram
na política, escanteando a velha oligarquia. Tudo normal, não
fosse a exasperação do processo. A ideologia urbana,
ao ascender tão rapidamente, massacrou a base rural do país.
Desde a década
de 70, pequenos municípios passaram a ostentar, com orgulho,
suas vistosas placas do "distrito industrial". Candidato
que se preze precisava prometer que traria mais e mais indústrias
para a cidade.
Fábricas representavam o futuro. Agricultura significava o
passado.
Nesse período,
a estrada do agricultor começou a ficar esquecida, esburacada.
As escolas rurais, abandonadas; a assistência técnica-agronômica,
emagrecida. O êxodo rural veio avassalador, esvaziando o campo.
Passou a tormenta.
Percebe-se, agora, uma revalorização do interior. A
crise das metrópoles, de um lado, e a modernização
da agropecuária, por outro, iluminam novos caminhos. Angustiadas,
desiludidas, pessoas deixam suas verdadeiras prisões urbanas
buscando qualidade de vida nas sossegadas cidades interioranas.
Pequenas agroindústrias
encontram mercado para seus saborosos quitutes; turismo rural reforma
sedes coloniais de antigas fazendas; jovens vestem-se de xadrez para
curtir as festas de peão-boiadeiro; produtos orgânicos
e frangos caipiras encontram ricos nichos de mercado; biodiversidade
ganha valor ao lado dos esportes radicais. E por aí vai.
Atenção,
agricultores e trabalhadores rurais: está começando
a corrida eleitoral nos municípios. Engraxem suas botinas e
arregacem as mangas.
Chegou o momento para discutir com os candidatos os problemas que
afetam a Zona Rural. O prefeito, afinal, governa todo o município,
e não apenas a área urbana.
É verdade
que o crédito depende do governo federal. E que os preços
se definem nos mercados distantes. Os dilemas nacionais, entretanto,
não podem servir de desculpa para o abandono dos agricultores.
Cabe a esses,
todavia, a iniciativa. Se continuarem aguardando que do céu
caiam as benesses, ou que de Brasília lhe resolvam os problemas,
pode não acontecer nada.
A grande tarefa
dos agricultores nesse momento reside na política. Política
da boa, mobilização em defesa de uma causa: o fortalecimento
do campo.
Depois, não adianta chorar. Conversa de botequim anima a roda,
mas não soluciona nada. Cantava Vandré: "quem sabe
faz a hora, não espera acontecer..."
XICO GRAZIANO
foi secretário de Agricultura de São Paulo e presidente
do Incra. E-mail:xicograziano@terra.com.br.