POR CIMA DA CARNE SECA!


João Silva


No extinto Território Federal do Amapá tudo fedia ou reluzia com a intensidade dos fatos públicos e notórios. Quando alguém se dava bem todo mundo sabia, quando se dava mal, ou com os burros n’água, todo mundo sabia também. Não sei informar criada por quem, mas vigorava naquela época a figura do individuo que “estava por cima”, geralmente espertalhão, um cabo eleitoral, alguém que tenha decidido entrar na vida pública para se dá bem; esses sabujos lucravam com o puxa-saquismo, com a perseguição aos que não comungavam com as idéias do governador imposto ao povo por decreto.

Pena que isso tenha se constituído numa herança e ficado entre nós, a ponto de migrar para o Amapá transformado em Estado em 1988, numa decisão da Constituição Cidadã, que lembra Ulisses, seu exemplo de ética na política e de amor ao Brasil. A figura detestável do indivíduo por cima da carne seca sobrevive, está aí, perniciosa, como nos velhos tempos em que os áulicos agradavam seus chefes agindo na calada da noite, pichando, marcando com um “x”, uma a uma, as casas franciscanas em que moravam os filiados do PTB de Claudomiro Moraes, Alfredo Távora, Benedito Uchoa e Zeca Serra.

Claro que naquele tempo distante, mas não tão tanto assim, não se presenciava o show das reluzentes cabines duplas ao sol do equador, como hoje, nem o bem bom da partilha dos cargos federais, da ocupação das estatais com seus orçamentos atraentes ao alcance das quadrilhas do colarinho branco. Não havia também o nepotismo cara de pau, a farra das concessões das emissoras de rádio, o rio de jornais que inunda a “Banca do Dorimar”, que não tem a ver com isso, e as emendas ao orçamento da União não eram o grande negócio destes tempos de “mensalão”, que reforçou a roubalheira que vem de longe e arranha a imagem do governo de Lula da Silva e suas más companhias.

Como antigamente, hoje não é tão difícil identificar quem está por cima dessa tal carne seca: basta um olhar mais atento...A cena urbana se incumbe de oferecer de graça, a quem quiser enxergar, todas as mansões, os prédios luxuosos surgidos de repente, os indícios dos negócios que vão bem, “entrega” os parentes, os queridinhos, os amigos do rei; em toda parte aparece o empachamento da riqueza que não se explica pelo trabalho de sol a sol, pela competência, pelo ganho lícito e declarado à Receita Federal. A sociedade enxerga tudo isso. Diabo é que quem deveria enxergar não enxerga e, nós, quatro gatos pingados que insistimos em reclamar do achaque, não possuímos a força das instituições que deveriam agir e não agem, respeitadas as honrosas exceções.


Lembro que durante a Revolução de 64, um governador arbitrário lançou mão de outra figura deplorável, a do “roubou, mas fez”, imoralidade que sustentou Paulo Maluf, em fim de linha, por muitos anos no poder, e que ainda faz escola no Amapá, onde é entendida, e até festejada por setores importantes da nossa sociedade. Foi o mesmo que inventou o “irmão-camarada”, que podia enriquecer com uma só canetada! Dia desses quase morro de vergonha: vi um médico elogiando esse expediente lesivo ao povo do Amapá...Imaginei que se trata de pessoa desorientada, quem sabe, envolvida pela escória da escória dos políticos em extinção, perdida no “arrastão” promovido por homens públicos que desvirtuam a atividade política como instrumento capaz de reduzir as desigualdades e promover o homem melhorando a realidade que o cerca.

Essa turma que mama nas tetas oficiais conheço bem: não quer coisa nenhuma com o batente. Não abre mão dos privilégios, da grana fácil, dos recursos das obras de infra-estrutura, das verbas de publicidade; adoram arrotar prosperidade feita com dinheiro público, “vender” remédio sem entregar ao governo, e abusar da paciência dos idosos, dos aposentados, dos pobres, da grande maioria da população. Reforma política, então, nem pensar, ainda mais se for pra valer!Vão continuar na deles, tramando contra nós, fazendo dos partidos, da política e das nossas esperanças uma titica de galinha.

E, para que não se alegue ignorância informo: graças a relação promíscua dos acordos inconfessáveis com a face sombrio da lei, caba de sair a aposentadoria de Roberto Jefferson - pouco mais de oito mil reais-, a ser paga por nós, sem dúvida um prêmio à truculência institucionalizada num País que tem 16 milhões de analfabetos absolutos, outros tantos milhões de desempregados, de pobres e miseráveis.