A LINDA MULHER
Dom Pedro José Conti
Bispo de Macapá
Dois bons monges estavam de volta ao seu mosteiro. Iam cantando e
rezando. Chegaram à beira de um rio e precisavam atravessá-lo.
Uma linda mulher também queria passar para o outro lado e estava
com medo da correnteza. Um dos monges se ofereceu para carregá-la
nas costas e deixá-la do outro lado. Assim o fez. A mulher
agradeceu, e cada um continuou o seu caminho. Logo que os dois ficaram
a sós, o outro monge começou a repreender o primeiro
porque havia carregado a mulher infringindo todas as regras imagináveis
da vida monástica. Onde estava o seu recolhimento? Com certeza
não nos pensamentos e nem nas ações. Que vergonha!
Não somente tinha olhado aquela mulher como a havia colocado
nos ombros. Onde já se viu um monge respeitável ter
tanta familiaridade com uma desconhecida? Além do mais, fez
isso sem a permissão dos superiores: uma flagrante desobediência.
O outro agüentou calado, por um bom pedaço do caminho;
a certa altura, porém, perdeu a paciência e, na melhor
maneira possível, disse ao amigo que o estava repreendendo:
“Meu irmão, é verdade que eu carreguei aquela
mulher nas costas, mas depois eu a deixei lá na beira do rio,
você ao contrário, há duas horas a está
carregando na sua mente e no seu coração”.
Um exemplo de correção fraterna que não deu
certo. Aquele que queria corrigir acabou sendo o corrigido.
Devemos admitir a enorme dificuldade de vivermos a prática
da correção fraterna, tão claramente proposta
por Jesus. Preferimos deixá-la de lado porque para corrigir
os outros somos obrigados a corrigir a nós mesmos. O que nunca
é uma obra fácil.
Para que a correção consiga o seu resultado são
necessárias algumas condições. A primeira é
que todos, corrigidos e corretores, queiram ser melhores. A nada serve
relevar um defeito se a resposta do outro, ou nossa, é: “Eu
sou assim e não mudo!”. Sem a vontade de crescer, de
aprender e de melhorar, perdemos o nosso tempo.
A segunda condição é que entre as pessoas exista
uma verdadeira amizade; é preciso que haja entre elas uma sincera
abertura e um diálogo honesto. Dúvidas, desconfianças
e rixas antigas, inviabilizam a correção.
A terceira condição é a humildade por parte
dos corrigidos, em admitir os seus erros, e por parte dos corretores
a delicadeza necessária para não ferir ou rebaixar o
irmão. Hoje somos nós os repreendidos; amanhã
podemos, com o mesmo carinho, repreender o outro e vice-versa, claro.
Será que é possível mesmo a correção
fraterna? Temos direito de duvidar, mas não de desistir. Não
há outro caminho se queremos ser melhores. Algumas atitudes
erradas acabam estragando, irremediavelmente, a ajuda ao irmão.
É comum, por exemplo, primeiro bisbilhotar com os outros colegas
sobre a falha, ou o defeito, daquele que gostaríamos corrigir.
Depois que todo o mundo sabe do acontecido, finalmente a fofoca chega
ao interessado, que imediatamente se pergunta por que não falaram
logo com ele. Em geral também não conseguimos ajudar
o irmão com suficiente paciência e humildade. Tornando
público o defeito do outro, implicitamente, dizemos também
que nós somos diferentes, que nós não teríamos
nunca feito aquilo. Falta dizer ao outro de seguir o nosso exemplo!
Nós somos os melhores, parece que nunca erramos. Temos que
também admitir a boa intenção daquele que corrige.
Se ele está nos repreendendo deve ter uma razão séria,
e o objetivo a ser alcançado deve ser tão importante,
que exige a nossa mudança: tem mais valor que o nosso orgulho
ferido.
Hoje quem corrige é acusado de se meter na vida dos outros,
é convidado a cuidar de si mesmo, ou questionado se não
tem pecado para poder atirar a primeira pedra. Desse jeito acabamos
nos conformando com a mediocridade. Fechamos os olhos sobre os defeitos
dos outros para que assim ninguém aponte os nossos. E se isso
acontece, denunciamos a perseguição. Em lugar de agradecer
pela correção, passamo-nos por vítimas.
Assim fica difícil. Que o digam os educadores, os pais e os
mestres. Para agradar desistimos de corrigir. Dessa forma nos tornamos
responsáveis pelos erros. Bendita correção fraterna!
Reconhecemos as dificuldades, mas não podemos desistir. Peçamos
juntos esse dom.