O Zé Pequeno
Sebastião Nery (TI)
Zé Pequeno era o líder dos carroceiros de João
Pessoa. Comandava desfiles de carroças em homenagem ao interventor
Argemiro Figueiredo e ao prefeito Fernando Nóbrega, na ditadura
de Getulio Vargas.
De repente, Argemiro caiu, Nóbrega também. Zé
Pequeno guardou sua carroça, plantou-se dentro de casa. Um
dia, dois, ninguém o viu mais. No terceiro dia, engraxou os
sapatos, vestiu a roupa de domingo, pôs a gravata e passou pela
casa de Fernando Nóbrega:
- Chefe, vou ao palácio apoiar o novo interventor, Rui Carneiro.
- Por que tanta pressa, Zé Pequeno?
- Ah, doutor, três dias longe do governo é demais. Se
eu ainda fosse um Zé Grande, mas sou apenas o Zé Pequeno.
Sarney
A "Folha de S. Paulo" fez mais uma de suas "sabatinas",
nessa terça-feira. Desta vez, com o senador José Sarney.
E contou, na primeira página: "O primeiro presidente civil
após a ditadura repassou a sua experiência política
nos últimos 50 anos. Sarney declarou desconhecer (sic) a prática
de tortura no regime militar".
Lá dentro, a "Folha" repete: "Dizendo desconhecer
(sic) a prática de tortura durante o regime militar brasileiro,
o ex-presidente José Sarney, que foi governador do Maranhão
entre 1966 e 71 (e senador, líder e presidente da Arena e do
PDS, os partidos oficiais da ditadura, de 1971 a 85), afirmou que
é contra a revisão da Lei da Anistia".
Torturas
Até "O Globo" se escandalizou. "Sarney garantiu
que não tinha conhecimento (sic) das torturas praticadas pelos
militares: `Não tinha conhecimento nenhum (sic), era governador
do Maranhão'".
Como diriam os pregadores sacros de antigamente, isso clama aos céus!
É preciso muita cara de pau para dizer isso diante da Nação.
Primeiro, ele tenta esconder-se atrás do Maranhão, quando
era governador. Ora, foi governador nos primeiros anos dos militares,
quando a tortura ainda não era generalizada, como se tornou
depois, sobretudo a partir de 69, após o AI-5.
Médici
Mas em 70 ele se elege senador da Arena e chega ao Senado como obsequioso
bedel da ditadura, topando qualquer serviço para agradar aos
militares. O governo Médici, de 70 a 74, foi o auge das torturas.
Sarney já era um dos líderes da Arena, sabia de tudo,
dos fatos e das denúncias.
Por que ele não pergunta à ministra Dilma Rousseff,
que nessa época foi barbaramente torturada durante meses? Ela
só serve para lhe garantir o uso e o abuso da Eletrobrás,
nomeando do presidente aos contínuos?
Devia perguntar também ao ministro Vanucchi, ao Haroldo Lima
da ANP, ao Aldo Arantes e tantos outros, no governo ou próximos
a Lula.
"Folha"
A "sabatina" foi comandada pelos veteranos e respeitados
jornalistas Clovis Rossi, Fernando Barros e Silva, Mônica Bergamo
e Renata Lo Prete. Será que ouviram isso calados? A "Folha",
nas duas páginas da matéria, não registrou nada.
Depois de parceira da Globo, está cada dia mais "A Bolha".
Ser contra a revisão da Lei da Anistia é uma posição
política discutível mas defensável. Tem todo
o direito e o dever de opinar. Negar as torturas é um desacato,
um desrespeito público aos torturados e ao País inteiro.
Será que ele não leu nenhum dos já clássicos
livros do Elio Gaspari, ou o "Brasil: Nunca mais", coordenado
por dom Evaristo Arns?
Vitorino
A "sabatina" está cheia de inverdades, o que em
Sarney não é novidade. Para agradar qualquer governo,
todos os governos, ele faz tudo que seu rei quiser. Apoiou todos os
governos, desde Tomé de Souza. Diz que "foi oposição
ao Getulio e ao Juscelino". Nem isso é verdade.
Na ditadura Vargas, estava de calças curtas lá em Pinheiro.
No segundo governo, de 50 a 54, era fiel escudeiro de Vitorino Freire,
governista do PSD. Em 54, pelo PSD, disputou o mandato de deputado
federal. Teve 3.271 votos, perdeu, ficou como quarto suplente.
Vitorino fez de alguns deputados secretários de estado só
para Sarney assumir o mandato, na bancada governista do PSD, em agosto
e setembro de 56 e de maio a agosto de 57, como fervoroso apoiador
de JK.
Figueiredo
Em 58, levado por José Aparecido e Magalhães Pinto,
Sarney entrou na UDN do Maranhão e se elegeu deputado. Em 60,
apóia Janio, da UDN, que renuncia e assume João Goulart,
logo apoiado pela Bossa Nova da UDN, da qual Sarney fazia parte. Jango
chegou a convidá-lo para ministro, ele aceitou, mas Vitorino
vetou, ameaçando levar o PSD para a oposição.
Jango é derrubado e Sarney vira "revolucionário"
desde criancinha. Elegeu-se governador, apoiado pela ditadura militar.
Castelo mandou para São Luís o coronel João Batista
Figueiredo, do SNI, que fez todo tipo de pressão, impedindo
o PSD de dar legenda a Renato Archer, contra ele.
Zé Grande
Quando os militares começaram a fazer água, Sarney
pulou do barco, foi para o PFL, virou vice de Tancredo e presidente.
Tem razão o professor e sociólogo Reinaldo Barros: "Deus
gosta muito de Zé Sarney".
Mais uma razão para não ser Zé Pequeno. Podia
ao menos ser Zé Grande.