A arma secreta
Dom Pedro José Conti
Bispo de Macapá
Histórias sobre Satanás tem de sobra. Cada
vez mais atuais e modernas.
Uma delas conta que um belo dia o chefe dos capetas organizou uma
grande exposição. Seriam apresentadas ao público
as armas mais sofisticadas e os instrumentos mais avançados
na tecnologia, para tentar os seres humanos. A feira foi um sucesso.
Tinha mercadoria e comprador para tudo e para todos os gostos. Cada
produto vinha com uma breve explicação da finalidade,
do uso, e, obviamente, o preço. No meio do salão, porém,
chamava a atenção dos visitadores, uma vitrine na qual
estava uma pequena chave dourada, sobre uma almofada de veludo vermelho.
Era a arma secreta de Satanás. E estava escrito: "Não
está à venda". Um dos clientes mostrou muito interesse
a respeito dela e conseguiu encontrar o chefão para tentar
convencê-lo a vender a dita arma secreta. O cliente agitava
o seu cartão de crédito oferecendo somas fantásticas
e cada vez maiores por aquele produto. Sobretudo insistia para saber
por que uma chave tão simples, pequena, era tão poderosa
e não se podia comprar. Satanás ficou na dele. Começou
a explicar que aquela chave lhe permitia entrar no coração
de qualquer ser humano, do maior ao menor, até de padre, freira,
bispo, etc. Abria mesmo qualquer coração, por isso era
tão valiosa. O cliente não desistia e queria saber o
nome daquela bendita - ou maldita - chave que abria o coração
de todos. O que era afinal? Satanás resistiu mais um pouco,
por fim, repetindo que de qualquer maneira ela não seria vendida,
disse, a meia voz, ao cliente: "Esta chave, que abre qualquer
coração humano, chama-se desânimo!"
Isso mesmo. Atrás do desânimo vem todo o resto: cansaço,
desistência, acomodação, omissão. E, olha
lá, se para defender a nossa decisão de cair fora não
começamos a falar mal daquilo que, um pouco antes, parecia
tão empolgante para nós.
Até os apóstolos, em certo momento, desanimaram. O
próprio Pedro, quando ouviu Jesus falar da cruz, quis voltar
atrás. Bem sabemos que, na hora do sucesso, quem não
quer ficar do lado do vencedor e do poderoso? Mas na hora do fracasso,
da derrota, quem agüenta?
Não podemos dizer que Jesus enganou, ou engana, os seus amigos.
Falou claro e muitas vezes sobre a cruz que eles também deviam
carregar. Quis prepará-los para a provação mais
difícil. Contudo, em determinada hora, a maioria deles ficou
só olhando de longe a morte de Jesus e ainda viveram, por um
bom tempo, trancados em casa com medo dos Judeus.
O desânimo pega a todos, quando as coisas não andam
como gostaríamos, quando somos criticados, quando nos parece
que a provação está acima das nossas forças.
A cruz pode ser tudo isso. Podem ser os sofrimentos e as provações
da vida, e também os fracassos dos nossos sonhos e a derrocada
das nossas ambições. Nesses momentos, muitos vão
atrás de recuperar a própria auto-estima. Procuram olhar-se
de dentro e de fora para voltar a ter confiança neles mesmos
e dar a volta por cima.
Para carregar a nossa cruz, porém, é necessário
fazer um caminho bem diferente. Precisamos saber o porquê das
dificuldades. De maneira especial quando a causa pela qual lutamos
e trabalhamos é grande e justa. Se estamos sendo perseguidos,
ou sofremos, pelos nossos erros, precisamos corrigi-los. De certa
forma, a culpa é nossa. Se mudarmos, as coisas melhoram.
No entanto se os nossos sofrimentos são a conseqüência
da defesa de uma causa que está incomodando os grandes e os
poderosos, aqueles que não aceitam críticas, ou aqueles
que querem comprar até a consciência das pessoas, nesses
casos não podemos desanimar. Aliás devíamos prever
tudo isso. Porque a perseguição e a cruz são
o efeito lógico do nosso compromisso com a verdade, a justiça
e o bem de todos.
Dificilmente vão ser perseguidos os que não incomodam.
Carregar a nossa cruz é, portanto, não somente aceitar
as provações de toda existência humana, que antes
ou depois, de uma forma ou de outra, encontraremos ao longo dos anos,
mas sobretudo é saber que a luta entre o bem e o mal está
somente no começo e vai ser uma disputa difícil.
Sinais de não agrado, críticas e perseguições,
podem nos fazer sofrer, no entanto podem ser a prova de que a causa
é justa, que não podemos desistir, nem por medo e nem
por covardia.
Ao demônio, que nos tenta com o desânimo, respondemos
com as palavras de Jesus: "Que adianta ao homem ganhar o mundo
inteiro, mas perder a sua vida?". Nós também temos
a nossa arma secreta.