Sobre algemas e covardes - Milton Pomar
Fonte: www.pt.org.br
Assistimos a manifestações significativas nos últimos
dias, em defesa de quem torturou e matou durante a Ditadura Militar
(1964-85), e dos ricos e famosos algemados.
Chamam a atenção, no caso dos torturadores e assassinos
da Ditadura, quatro aspectos decisivos: a sua condição,
na época dos acontecimentos, de servidores públicos,
civis ou militares; o fato de que os torturados e assassinados estavam
detidos; as torturas em si, ou seja, no que consistiam; e como foram
mortas essas pessoas detidas (portanto, sob a guarda legal do Estado).
Lembrar de tudo isso é muito doloroso, ainda que não
se tenha sofrido diretamente os suplícios. Os homens e mulheres
que foram torturados por servidores civis e militares, além
de estarem em situação totalmente indefesa (detidos
em delegacias, quartéis ou casas e sítios alugados para
esse fim), foram torturados algemados – ou manietados de outra
forma, encapuzados na maior parte das vezes, e sempre por várias
pessoas ao mesmo tempo, em equipes que se revezavam.
Esse é um aspecto importante, deixado de lado na discussão
atual: todos os torturadores são pessoas profundamente covardes.
Sempre agiram em grupos, contra pessoas imobilizadas. Chutavam, socavam,
davam pauladas, choques elétricos, estupravam, empalavam, afogavam,
queimavam...pessoas indefesas e imobilizadas.
A tortura é crime contra a Humanidade, por suas características.
Quem se horroriza com o que os militares norte-americanos fazem em
seus campos de concentração, deve lembrar-se que eles
fazem isso há muito tempo, e espalharam a prática “científica”
da tortura pelo mundo.
No Brasil, as pessoas que foram torturadas e assassinadas em decorrência
das torturas, ou após serem capturadas, estavam, do ponto de
vista legal, sob a guarda do Estado. Não é por outro
motivo que o Exército brasileiro recusa-se até hoje
a admitir o que fez durante a Guerrilha do Araguaia: a quase totalidade
das pessoas que foram mortas pelos militares estavam detidas. Foram
assassinadas, muitas após serem torturadas, e não mortas
em combate, como se poderia imaginar. E a maioria teve a cabeça
cortada.
Esses covardes que torturaram e mataram opositores políticos
durante a Ditadura não o fizeram apenas por sadismo, nem cometeram
crime comum. Eram funcionários públicos e receberam
treinamento para isso, pago pelo Estado. Fizeram estágios e
receberam até orientação de especialistas dos
EUA, como Dan Mitrione. Quem assessorava os torturadores (a “inteligência”
da tortura, e o seu suporte médico, para avaliar a condição
do torturado, se agüentava ser mais torturado ou se corria risco
de morrer) eram profissionais de nível universitário.
Essas informações, detalhadas e com nomes, locais e
datas, são públicas. Constam de processos e dos livros
publicados sobre o período. Sabe-se quem foram e o que fizeram
a maior parte dos servidores públicos que assassinaram e torturaram
durante a Ditadura Militar brasileira. Assim como se sabe também
a maior parte dos fatos e responsáveis pelos assassinatos e
torturas na Argentina, Uruguai, Chile, Peru...
Espanta hoje no Brasil que esses covardes tenham coragem de vir à
luz do dia para dizer que não podem ser julgados pelo que fizeram.
E espanta mais ainda, que oficiais de patente superior, que não
tiveram participação direta nesses crimes, tomem sua
defesa, como se fosse uma questão de honra para o conjunto
das Forças Armadas defenderem alguns integrantes seus acusados
de crimes contra a Humanidade.
Cada vez mais se repudia a tortura contra presos comuns. Pois depende
muito do julgamento e punição dos torturadores e assassinos
de opositores políticos, a diminuição da tortura
e do assassinato de presos comuns, prática ainda cotidiana
no Brasil. Da mesma forma, o fim da humilhação de pessoas
pobres, detidas e algemadas pelas polícias, que nunca receberam
a atenção de um juiz do STF, que dirá providências
políticas suas pra não serem mais algemadas.
Aliás, essa coincidência de manifestações
políticas, a favor de ricos e famosos algemados, e em defesa
de servidores públicos civis e militares, que torturaram e
mataram pessoas indefesas, detidas sob a guarda do Estado, dão
bem a dimensão do significado de irmos até o final na
luta pelo julgamento de quem cometeu crime contra a Humanidade durante
a Ditadura Militar no Brasil.