PERGUNTAS E RESPOSTAS
Dom Pedro José Conti
Bispo de Macapá
Eu sou do tempo em que se estudava o catecismo com perguntas e respostas.
Era preciso decorá-las, e quem era mais rápido em responder
corretamente, ganhava, às vezes, algum prêmio. Foi assim
que ganhei o meu primeiro Evangelho. Nada de menino prodígio;
simplesmente tive uma mãe que exercitava a sua paciência
escutando as minhas respostas e mandando repeti-las quando estavam
erradas. Não menos exigentes eram a catequista e o vigário
paroquial. Ai de quem falava besteira, ou tentava responder de outra
forma. A cada pergunta só cabia uma resposta. Ou se sabia,
ou era melhor ficar calado.
Hoje é tudo muito diferente, aliás, até o nome
de catecismo mudou para se chamar de catequese. Mas os catequistas
e as catequistas continuam com o mesmo nome e, na maioria, têm
o mesmo entusiasmo e a mesma alegria em tentar comunicar às
crianças e aos adolescentes algo de bonito sobre a nossa fé
cristã. Muito Obrigado. Mas onde ficaram as perguntas e as
respostas? Somente passaram de moda, mudou a pedagogia, ou tem algo
de novo?
Coloco esses questionamentos porque, por coincidência, o próprio
Jesus, no evangelho deste domingo, pergunta aos discípulos:
- Quem dizem os homens ser o Filho do homem? E em seguida questiona
mais diretamente a todos eles: - E vós quem dizeis que eu sou?
Claro que não era a pergunta de um catecismo decorado. Era
muito mais, quase uma avaliação dele mesmo e de como
estava sendo entendido e seu jeito de viver, de ensinar, de cuidar
dos doentes, de perdoar os pecadores. A essa altura, temos a impressão
de que o apóstolo Pedro estivesse esperando aquela pergunta
para disparar a resposta: “Tu és o Messias o Filho de
Deus vivo”. Acertou. Bom menino!
Entendemos que o que está em jogo cada vez mais, hoje, não
são as respostas em si. Muitos, dos mais adultos, sabem dar
todas as respostas certas. Decoraram. O problema é se entenderam
o que significavam as respostas, ou também de que jeito as
entenderam. Percebemos que conhecer as respostas não é
mais suficiente. Não estamos concorrendo a um show televisivo,
disputando prêmios. Estamos buscando respostas a perguntas decisivas
da nossa vida. Deveríamos querer saber quem somos, por onde
vamos, e em quem podemos acreditar. Deveríamos buscar, em fim,
o sentido da nossa própria vida.
Sobre isso, hoje aparecem tantas respostas possíveis que somos
tentados a não mais responder, ou a deixar que cada um responda
do jeito que ele quer. Tanto faz. Temos a tentação de
pensar que nem as perguntas e nem as respostas sejam mais importantes
para a nossa vida. Já tem quem julga mesmo perda de tempo tantos
questionamentos. Dizem que não levam a nada, porque não
se transformam em dinheiro. Desse jeito, em lugar de confrontar-nos
preferimos fugir; na urgência de uma resposta séria,
optamos por soluções mais fáceis, cômodas
ou interesseiras.
Não estamos sozinhos na confusão. No evangelho do próximo
domingo Jesus dirá ao apóstolo Pedro, o mesmo que antes
tinha acertado na resposta, que não pensava as coisas de Deus,
mas, sim, as coisas dos homens. Quer dizer que não havia entendido
nada. Jesus lhe pede para ficar longe dele, chamando-o de satanás.
Coitado do Pedro! fez uma verdadeira profissão de fé,
porém acertou somente as palavras. Ainda não havia entendido
que tipo de messias seria Jesus. Não um triunfador, mas um
sofredor; não um poderoso para oprimir e mandar, mas um humilde
para servir e amar. Precisava primeiro passar pela cruz para entender
um pouco mais.
Talvez seja por isso que hoje, na Catequese, não usamos mais
as perguntas e as respostas tão prontas que bastariam ser decoradas.
Teríamos a falsa impressão de saber tudo. Aquelas perguntas
e as respostas deviam servir para serem lembradas sempre e para simplificar
as questões. Isso ajudava a ter bem presente a própria
fé e a não se deixar confundir com afirmações
diferentes ou contrárias. Esse método valeu por muito
tempo e ainda vale para aprender, na condição de entender
bem as respostas, atualizando as afirmações e, sobretudo,
com o compromisso honesto de viver aquilo que expressamos nas fórmulas
da fé. É como dizer que é muito mais fácil
decorar uma resposta que vivê-la. Contudo continuemos a colocar
as perguntas, a nos questionar, a nos interrogar. Assim continuaremos
a buscar as melhores respostas. Do contrário perguntas e respostas
ficarão em nossa cabeça e nunca descerão até
o nosso coração. Aí, sim, seria tempo perdido.