Assessor de Imprensa é jornalista
Alex Castro
Acontece muito. A pessoa se apresenta como jornalista e eu, antes
inocentemente e hoje de propósito, pergunto: "Pôxa,
que máximo, pra que jornal você escreve?" Quase
sempre, a pessoa abaixa a cabeça, quase envergonhada, e responde
um acanhado: "Não, trabalho como assessora de Imprensa..."
Então, por que se apresentam como jornalistas, oras? Será
que é tão vergonhoso assim ser assessor de Imprensa?
(Imaginem a cena:
"Oi, meu nome é João, sou professor."
"Que legal, onde você dá aula?"
"Ah, dou aula não, sou carpinteiro.")
Naturalmente, a resposta é simples: quem estuda Jornalismo
quer ser jornalista, cobrir a eleição presidencial da
França, escrever matérias especiais sobre a prostituição
infantil, entrevistar ministros de Estado e estrelas de cinema. O
problema é que as faculdades de Jornalismo formam trocentos
novos "jornalistas" por ano e as vagas em jornais e revistas
só fazem encolher: o menino que sonhou em ser correspondente
de guerra tem que lamber os beiços de conseguir pagar suas
contas em troca de cavar notinhas pra fábrica de cimento. E,
mais humilhante ainda, babando o ovo dos jornalistas de verdade -
logo aquilo que ele mais queria ser!
Outro dia, uma amiga assessora de Imprensa que se apresenta como
jornalista tentou me explicar que assessor de Imprensa É jornalista.
"Claro que é, Alex, até o próprio sindicato
diz que é!". Tinha acabado de escrever uma megamatéria,
com entrevistas e declarações e lides e tudo o que uma
matéria tem que ter, para divulgar um evento no shopping center
para o qual trabalha, e que o maior jornal de região tinha
publicado ipsis litteris.
"Eu sou jornalista", disse ela, "porque o que eu produzo
é exatamente a mesma coisa que um jornalista produz: matérias
informativas e bem apuradas!"
Mais ou menos, né? O produto final ser ocasionalmente o mesmo
não prova que assessor de Imprensa é jornalista, pelo
contrário: comprova apenas a decadência dos jornais.
Um jornal digno desse nome jamais publicaria ipsis litteris uma matéria
enviada por um assessor de Imprensa - e todos fazem isso.
Teoricamente, beeeem teoricamente, quando um jornalista escreve uma
matéria, ele está buscando a verdade dos fatos. Na prática,
bem na prática, quando um assessor escreve uma matéria,
às vezes a mesmíssima matéria, ele está
buscando a máxima exposição na mídia para
a sua fábrica de cimento. Mesmo se a matéria acabar
ficando igual, a diferença é monstruosamente grande.
Aliás, é justamente essa diferença teórica
- um buscando a romântica verdade, outro servindo ao mercado
capitalista - que explica a percepção diferente de ambas
as profissões:
"Claro que eu vou me apresentar como o romântico paladino
da verdade, e não como o lacaio do capitalismo! O que os meus
colegas de movimento estudantil pensariam?!"
Como cada um inventa para si a narrativa de vida que necessita para
poder tolerar sua própria existência, não duvido
que alguns até acreditem que estão tornando o mundo
um lugar melhor à cada menção que cavam da sua
fábrica de cimento.
Eu sou formado em História, mas nunca me apresentei como historiador.
Sabe por que? Porque não exerço a profissão.
Será um critério tão difícil assim para
os assessores de Imprensa seguirem? (Aliás, nunca me apresentei
pelo meu ramo de atividade ou pelo meu curso universitário,
acho isso a coisa mais mesquinha do mundo! Faria mais sentido dizer:
"Oi, meu nome é Alexandre, sou destro!")
Não estou criticando a profissão de assessor de Imprensa.
Se servir ao mercado fosse demérito, não sobraria profissão
nenhuma pra se elogiar - inclusive os próprios jornalistas,
esses (sic) paladinos da (mega sic!) verdade. Não existe problema
algum em ser assessor de Imprensa: quem parece que discorda são
os próprios, que se apresentam como se fossem outra coisa!
O que esse fenômeno nos revela é somente a baixa auto-imagem
da categoria.
Imaginem o que pensaríamos dos neurocirurgiões se todos
se apresentassem como obstetras?
"Oi, meu nome é Paulo, eu sou obstetra!"
"Ah, que mágico!, o milagre da vida!, quantos partos
você já fez?"
"Er... quer dizer... na verdade, eu só opero cérebros...
Mas ser obstetra é tão lindo, né?"