Para além do verde
Míriam Leitão e Alvaro Gribel
Espaço existe. Pode aparecer uma candidatura ou um programa
de governo que vão além da mesmice dos potenciais candidatos
a presidente em 2010. Marina Silva pode ou não ser essa pessoa,
mas, ao surgir, ajuda a vislumbrar como pode ser verde o eixo de uma
campanha. Hoje, a questão ambiental virou climática,
ganhou dramaticidade, urgência e transbordou. Foi além
do verde.
Pode ser outra candidatura, ou uma transformação convincente
de um atual candidato. Mas espaço existe. Hoje, o desafio posto
sobre o planeta e sobre o Brasil é como construir a saída
da crise ficando diferente; como injetar dinamismo na economia por
mudar o modelo. Isso leva a programas transformadores e escolhas novas
em todas as áreas. O desafio climático atingiu o patamar
de dar coerência a um novo programa de desenvolvimento.
O desenvolvimentismo do PAC (Programa de Aceleração
do Crescimento) tem vários problemas. O mais grave dele é
ser velho. Ele ecoa ainda um "governar é abrir estradas",
do mais remoto e arcaico Brasil; recorda a ideologia dos "projetos
de impacto" do governo Médici. Não há, nunca
houve, no programa de obras com o qual a possível candidata
Dilma Rousseff pretende concretar sua subida pela rampa do Planalto,
a menor sombra de atualidade. É impossível conciliar
a esta altura o carro-chefe da ministra Dilma com o crescimento sustentável.
Eles são opostos.
Um exemplo: a BR-319 tem sido defendida com o mesmo autoritarismo
e falta de sentido da Transamazônica do governo militar. Não
se sabe por que fazer a estrada, não se conhece estudo de modal
alternativo, nem de viabilidade econômica. A ideia é
apenas rasgar a floresta, num ponto nevrálgico, para levar
as hordas de sempre de grileiros, especuladores, que abrirão
novas cidades, que viverão dos repasses da União e repetirão
a tragédia de atraso e violência. Está sendo usada
a mesma técnica de pôr o Exército, como se fosse
uma empreiteira, para tocar a obra enquanto a licença não
vem. É a estratégia do fato consumado usada na transposição
do Rio São Francisco. Dilma ainda vê o ambientalismo
como inimigo a ser derrotado.
O dilema hamletiano da oposição tucana se agrava. O
ser-não-sendo-candidato do governador de São Paulo,
José Serra, tem vários defeitos. O pior deles é
deixar espaço vazio, o que em política pode ser fatal.
Se Serra tem uma ideia na cabeça, se ele tem um programa diferente,
não se sabe. Ele vai disputar a mesma embalagem de bom gerente
na qual se enrola a ministra da Casa Civil. Com uma vantagem: Serra
já testou com sucesso o modelo da pessoa que faz acontecer
em vários níveis de governo, em vários cargos.
A Dilma é mais recente nesta vestimenta e tem contra si as
evidências dos erros gerenciais do governo e as estatísticas
de baixo desempenho do PAC. Se o candidato tucano for o governador
de Minas Gerais, Aécio Neves, ele também, até
agora, mostrou que quer disputar o modelo do bom gerente com obras
a apresentar. A grande divergência que Serra tem com o governo
é a política cambial e monetária. A mesma que
tinha quando as bases dessa política foram implantadas no governo
tucano. Isso já era velho em 2002 e apequena qualquer campanha.
Houve um tempo em que o verde era apenas verde e o tema só
fazia sucesso no gueto. Hoje, mudou radicalmente o conceito de progresso.
Hoje, ele se desdobra em várias áreas: uma política
externa que dará ao Brasil liderança na questão
climática; uma política econômica de desenvolvimentismo
moderno que mude a forma de produzir e usar energia; novas escolhas
nos financiamentos públicos; na transformação
da indústria. Significa ainda mudança de comportamentos;
investimentos maciços em ciência e tecnologia; novos
eixos da política de saúde pública; uma educação
voltada para o que será exigido no futuro que começa
agora, um mercado de trabalho que criará empregos ligados a
novas tecnologias de energia e produção.
Uma proposta de governo que trate a questão climática-ambiental
com a seriedade devida terá de enfrentar a falta de respeito
à lei na Amazônia e isso será um avanço
civilizatório. O combate ao atraso de uma parte do agronegócio
abrirá novos mercados ao Brasil. O verde pode ser o veio central
de uma proposta coerente em todas as áreas e atualizada com
o que de mais moderno se conversa no mundo. O conhecimento do assunto
se aprofundou tanto que os candidatos que usarem o nome da "sustentabilidade"
em vão serão desmascarados como impostores. Não
há clima para improvisos e maquiagem.
Se a senadora Marina Silva (PT-AC) for a candidata deste programa
tem muito a fazer. Primeiro, precisa ir além da própria
origem. Os passos que a levaram à militância política
partiram do extrativismo. Isso é pequeno. Não dá
nem para o começo da construção de um programa
robusto. Precisará absorver o que está acontecendo no
mundo e terá sim "enfrentamento". Inevitável.
O Brasil atrasado e arcaico está em plena ofensiva contra o
meio ambiente, como a própria senadora denunciou na aprovação
da MP da grilagem. Não há composição possível
com quem acha natural um programa decenal de energia que prevê
82 termelétricas a combustível fóssil. É
preciso denunciar o que já caducou, contrariar interesses,
enfrentar o velho.
Essa possibilidade pode não ser percebida pelos partidos que
estão muito ocupados com as cenas de pugilato verbal e de degradação
em que se transformou o ambiente político. Se a questão
climática não tiver a atenção que merece,
o Brasil terá uma campanha eleitoral, na segunda década
do século XXI, discutindo ainda o século XX.