Camilo cobra respeito aos direitos humanos nas ações
de fronteira

Brasília, 08/07/2008 – Uma reunião
conjunta das Comissões de Relações Exteriores
e Defesa Nacional (CRE) e de Direitos Humanos e Legislação
Participativa (CDH) do Senado Federal discutiu hoje, 08, as relações
transfronteiriças entre Brasil e França, especificamente
na Guiana Francesa, departamento ultramarino daquela república
européia. O deputado estadual Camilo Capiberibe (PSB/AP), presidente
da Comissão de Direitos Humanos da Assembléia Legislativa
do Amapá, articulou a realização da audiência
no Senado Federal, pedida em requerimento do senador Papaléo
Paes (PSDB/AP).
Direitos humanos – O deputado estadual Camilo
Capiberibe foi elogiado pela iniciativa. Cobrou que as ações
conjuntas entre os dois países devam respeitar os acordos internacionais
e os direitos humanos e garantam a integridade dos brasileiros que
são expulsos e deportados da Guiana, mesmo quando estejam ilegalmente
naquele departamento. Ao final da audiência, considerou o resultado
positivo. “Trouxemos para o cenário nacional um debate
sobre o desenvolvimento da região que estava esquecido. Infelizmente,
o debate só foi retomado depois da morte da brasileira Nerize”.
“Não se trata aqui de questionar as credenciais da República
Francesa de como trata os direitos humanos. Mas estamos tratando de
um incidente que provocou grande inquietação e comoção
e que, depois de muitos anos, provocou a reunião da comissão
transfronteiriça e ampliou o debate entre os dois países
de como tratar as populações e as relações
que devem promover o desenvolvimento da região”, afirmou
o deputado Camilo Capiberibe. Ele lamentou que as negociações
bilaterais tenham ficado paralisadas até a morte da brasileira
Nerize Oliveira.
Suriname – A brasileira morta era comerciante
num garimpo ilegal no Suriname e não na Guiana Francesa, segundo
seu marido e seus familiares. Foi morta, supostamente, pela polícia
francesa da Guiana, dia 19 de abril passado, depois de ter o garimpo
onde morava destruído pelas forças policias e ficar
três dias privada de mantimentos.
Segundo Capiberibe, outros brasileiros deportados contaram que foram
impedidos de prestar socorro à Nerize. Ela teria caído
na água por dois motivos: ou teria pulado na tentativa de fugir,
ou caído após um choque entre duas embarcações.
O corpo foi procurado e encontrado pelo marido da brasileira seis
dias depois do acidente, já que as autoridades se recusaram
a fazer o resgate. Capiberibe denunciou, ainda, que estes brasileiros
foram hostilizados quando tentavam encontrar o corpo de Nerize no
rio Maná. A brasileira sofreu um corte profundo na cabeça,
apontando a suspeita de que teria sido atropelada pela embarcação
que a transportava. O atestado de óbito emitido pelas autoridades
francesas não registra a causa da morte nem o corpo foi liberado
para ser trasladado ao Brasil.
Sem resposta – O deputado socialista lamentou
que a morte da brasileira Nerize precisasse ser trazida ao Senado
Federal por que “a população estava ansiosa e
apreensiva e não conseguíamos resposta em lugar nenhum.
Além disso, a Assembléia Estadual não tem as
ferramentas adequadas para tratar desta questão internacional.
Procuramos o Senado para dar explicações às pessoas
que exigem algum tipo de medida”, enfatizou. Ele afirmou que
a Comissão de Direitos Humanos da Assembléia encaminha
e cobra providências dos órgãos responsáveis,
sejam estaduais sejam federais, sobre todas as denúncias que
recebe.
O parlamentar amapaense pediu que seja respeitada a relação
histórica entre o Brasil e a Guiana “que nem sempre foi
das melhores, mas que estamos construindo de uma forma positiva”.
Recordou que a relação bilateral é resultado
da gestão do governador do Amapá João Alberto
Capiberibe, (PSB), a partir de 1995, quando ocupou o Palácio
Setentrião, e que o acordo quadro foi assinado logo depois,
em 28 de maio de 1996 pelos presidentes Fernando Henrique Cardoso
e Jacques Chirac (França).
A iniciativa do governador João Capiberibe foi elogiada pelo
senador Papaléo Paes que a considerou uma das marcas do governo
Capiberibe”que fez um trabalho positivo para construir um tipo
de relação inédita entre os dois países”.
Segundo ele, a deportação tem ocorrido com uso excessivo
de força, além dos direitos humanos não serem
preservados. “Os brasileiros voltam deportados, sofridos e humanamente
humilhados”, relatou.
“Perda de tempo” - O embaixador da França
no Brasil, Antoine Pouillieute, demonstrou estar incomodado com o
convite “inabitual, em cima do prazo e pelo princípio”
feito pelo Senado Federal – um poder legítimo do Estado
brasileiro. Também considerou a audiência pública
uma “perda de tempo” por que os esforços deveriam
ser para executar as políticas bilaterais para o desenvolvimento
da região. Questionou o governo brasileiro cujo Ministério
do Planejamento ainda não aprovou a licitação
para a construção da ponte entre os dois países
“que queremos ajudar a pagar, diferente de outras pontes construídas
na fronteira”, ironizou.
O embaixador disse que área limítrofe com o Brasil
é a maior fronteira francesa – cerca de 650 quilômetros
– e alegou que a região enfrenta problemas de segurança
pública e de desenvolvimento – pobreza e violência
– que motivam a pesca ilícita, a garimpagem clandestina
e o tráfico, seja de pequenas mercadorias, seja de pessoas.
Pouillieute disse que os governos francês e brasileiro trabalham
conjuntamente no combate às ações ilegais para
proporcionar a integração amistosa e gerar desenvolvimento
aos dois países. Entre as ações estão
ações conjuntas entre as duas polícias para combater
o crime e o ingresso de ilegais e a construção da ponte
que liga o Brasil à Guiana. Ele conclui dizendo que a política
francesa de imigração está mais clara: será
fortalecido o acolhimento de asilados, combatida a imigração
ilegal e devolvidos os ilegais que estejam em território francês.
Ressalvou que não se trata de xenofobia.
Ilegais – O diretor do Departamento Consular
e de Brasileiros no Exterior, do Ministério das Relações
Exteriores – MRE -, Eduardo Gradilone, pediu que “não
pensem que o Itamaraty (MRE) não se importa com os brasileiros
que estão no exterior, mas temos enorme uma enorme dificuldade
de ajudar os brasileiros que estão no exterior na ilegalidade.
é muito mais difícil defender os direitos daqueles que
estão mais ou menos envolvidos em atividades ilegais”.
A audiência foi aberta pelo presidente da CDH, senador Paulo
Paim (PT-RS). O ministro das Relações Exteriores do
Brasil, Celso Amorim, e o secretário especial de Direitos Humanos
da Presidência da República, Paulo de Tarso Vanucchi,
foram convidados, mas não puderam comparecer.
A Guiana Francesa é um departamento ultramarino pertencente
à França. Localiza-se na América do Sul e faz
fronteira com os estados brasileiros do Amapá e do Pará.
Segundo o embaixador francês, 210 mil habitantes vivem no departamento,
40% deles estrangeiros. Destes, cerca de 38 mil vivem ilegalmente
no território francês, 20 mil brasileiros, estimou o
embaixador.
Texto: Sizan Luis Esberci