Juízes pedem veto a blindagem
de advogado
Rosa Costa
O Estado de S. Paulo
24/7/2008
Projeto que torna escritórios espaços invioláveis
está na mesa de Lula
A Associação dos Juízes Federais do Brasil (Ajufe)
e o Ministério Público querem que o presidente Luiz
Inácio Lula da Silva vete o projeto de lei que trata os escritórios
dos advogados como espaços invioláveis, livres de investigações
policiais. Computadores, telefones e documentos em poder dos advogados
também são classificados como objetos invioláveis.
O projeto está na mesa da Presidência, à espera
da sanção, desde terça-feira.
A nota técnica que as entidades representantes da magistratura
e dos procuradores encaminharão a Lula afirma que a "imunidade"
prevista no projeto é inconstitucional. O argumento do presidente
da Ajufe, Fernando Mattos, é que a inviolabilidade dos escritórios
de advogados supera o resguardo previsto pela Constituição
para a moradia do cidadão.
Ele lembrou que a residência ou qualquer repartição
pública pode ser alvo de mandado de busca e apreensão,
enquanto, pelo projeto do deputado Michel Temer (PMDB-SP), que é
professor de direito constitucional, o acesso ao escritório
só será autorizado se o advogado estiver sendo investigado.
"E ainda assim, mediante um mandado especificando os computadores
ou documentos que podem ser examinados", disse Mattos.
A proposta de Temer foi aprovada de madrugada, na última votação
do Senado antes do recesso. O presidente Lula tem 15 dias úteis
- até 12 de agosto - para decidir o encaminhamento que dará
às modificações feitas à lei de 1994 que
trata do Estatuto da Advocacia.
"SEM ABERRAÇÕES"
Para o presidente da Ajufe, a regalia estipulada pelo projeto vai
dificultar muito as investigações - hoje feitas, segundo
ele, sem prejudicar o direito da defesa, graças à observância
de mecanismos do Código de Processo Penal. "Sabemos que
a grande maioria dos advogados é correta, mas não se
pode estabelecer imunidade para nenhuma categoria profissional",
defendeu. "A relação entre cliente e advogado tem
de ser protegida, mas sem aberrações."
Defensor do projeto, o presidente da Ordem dos Advogados do Brasil
(OAB), Cezar Britto, afirmou que o projeto é um "reforço
democrático em face dos arroubos autoritários s últimos
tempos". Disse, ainda, que a nova lei, no caso de ser sancionada,
vai apenas manter o que prevê o regimento da categoria e o artigo
133 da Constituição, segundo o qual o advogado é
"inviolável por seus atos e manifestações
no exercício da profissão, nos limites da lei".
"Não se trata de um habeas corpus preventivo para que
o advogado cometa crime", disse Britto. Ele comparou os direitos
assegurados pela proposta à vitaliciedade da magistratura e
às prerrogativas do Ministério Público. "Querer
revogar o direto de defesa sob a ótica de que alguns advogados
cometem deslizes éticos é o mesmo que querer acabar
com a vitaliciedade da magistratura porque alguns magistrados compactuam
com a corrupção", afirmou.
Cezar Britto informou que a OAB tem atuado contra advogados cujo
comportamento no exercício da função é
questionável. Ele disse ter aumentado de uma para três
as câmaras encarregadas de examinar denúncias contra
os profissionais e que hoje existem cerca de 300 recursos em julgamento.
Se condenados, a punição varia de advertência
até perda da carteira da Ordem, o que implica a proibição
em exercer a profissão.