Justiça Federal descobre grilagem
de terras indígenas no sul do Pará
Com títulos falsos, empresa vendia nos EUA e no Brasil
terra de caiapós a R$ 1,20
Era tudo uma grande mentira. Uma trapaça do tamanho de dois
países europeus juntos: Bélgica e Holanda. Ocupantes
tradicionais do megalatifúndio de 3,8 milhões de hectares,
os índios caiapós sequer desconfiavam que num escritório
de Nova Iorque (EUA) e em outro gabinete, no Brasil, suas terras eram
vendidas a preço de banana, R$ 1,20. As fazendas Santa Margarida
e Carapanã, com suas dimensões adulteradas no cartório
do 1º Ofício de São Félix do Xingu, no sul
do Pará, foram protagonistas de uma novela fundiária
com final feliz. A felicidade, no caso, foi do patrimônio público
paraense, ameaçado por uma quadrilha que não pensou
duas vezes em se valer até mesmo de ‘fantasmas’,
como Jovelino Nunes Batista e Joaquim Conceição de Menezes,
para se apossar de áreas ricas em mogno e minérios.
Por Carlos Mendes, da Redação do O Liberal, PA, Edição
de 22/07/2008.
A Justiça Federal acabou com a farra dos grileiros, impedindo
uma guerra declarada no Xingu pelos índios caiapós.
Eles jamais permitiriam que os autores da fraude tomassem posse das
terras. A venda foi anulada pelo juiz federal Carlos Henrique Hadad
em decisão tomada em junho passado, mas só agora divulgada.
A fraude foi descoberta e denunciada com exclusividade pelo jornal
O LIBERAL em setembro de 1998.
Na aldeia Gorotire, em São Félix do Xingu, os caiapós
souberam pelo repórter que suas terras tinham sido vendidas
à empresa norte-americana Allied Cambridge LLC, por U$$ 1 milhão.
‘Vai ter guerra por aqui. Ninguém vai tomar o que é
nosso’, avisou o guerreiro Akróêtyk. Os índios
chegaram a se pintar para a guerra. O cacique disse que a justiça
teria de anular imediatamente a venda fraudulenta. Akróêtyk
foi incisivo: ‘Branco só entra em terra caiapó
quando índio deixa’.
LEGAL
Alheia à mobilização dos índios, a cartorária
Maria do Socorro de Souza, que registrou as duas fazendas em nome
de Jovelino Nunes Batista, surpreendeu ao demonstrar desconhecimento
sobre a existência de uma aldeia de 2,5 milhões de hectares
na região homologada em 1991 pelo Ministério da Justiça.
‘O que fiz foi legal. Se me acusarem, vou processar os órgãos
do governo que nunca me avisaram sobre a existência dessa reserva
indígena’, trombeteou a cartorária.
A decisão agora tomada pela Justiça Federal de Marabá
afirma que a transação foi fechada com base em títulos
nebulosos, a partir de uma cadeia dominial que teria começado
em 1843. O primeiro dono das terras seria o alferes Joaquim Conceição
de Menezes. A partir daí, a maracutaia ficou mais fácil.
Com a força do cartório, Jovelino apareceu como um dos
maiores latifundiários do planeta. A certidão dizia
que o fazendeiro era morador da cidade de São Félix
do Xingu. Seria o bilionário mais desconhecido do mundo. Ninguém
nunca ouvira falar dele na cidade.
A então presidente do Instituto de Terras do Pará (Iterpa),
Dulce Leoncy, bateu forte, negando a existência de qualquer
propriedade com este tamanho no Estado. Havia uma clara montagem das
fazendas Santa Margarida e Carapanã sobre a reserva caiapó.
O cartório de São Félix, segundo Dulce, era a
‘coqueluche dos títulos falsos’. Um engenheiro
químico, Amir dos Santos Jobim, de Porto Alegre (RS), como
procurador de Jovelino, armou a transação. Na retaguarda
jurídica estava o advogado paulista José Carlos Paes
de Barros Júnior.
PLANOS
A própria identidade da compradora era duvidosa. A empresa
norte-americana Allied Cambridge LLC, de Nova York, através
de sua subsidiária no Brasil, a Worldwide Ecological Handling
Timber Corporation Ltda, passou a tratar as terras como suas. Para
criar a Worldwide, a Allied comprou ações de uma empresa
sediada em São Paulo, a Moeda Empreendimentos Ltda, e imediatamente
alterou seu nome. O contrato foi registrado na Junta Comercial de
São Paulo.
A Allied planejava explorar madeira, ouro e metais preciosos em São
Félix do Xingu. Ela também iria implantar fazendas agroindustriais
e dedicar-se a pesquisas científicas farmacomedicinais, bem
como bancos genéticos da flora e da fauna em geral, por meio
de convênios com instituições, universidades,
órgãos governamentais, tanto brasileiros como estrangeiros.
José Carlos Paes de Barros explicou que a Allied iria investir
US$ 300 milhões na área, captando o dinheiro em bancos
americanos. O advogado nunca viu ou conheceu pessoalmente os chefões
da Allied. Estranho, muito estranho.
Sábia, nessa história toda, foi a conclusão
do então diretor do Departamento Jurídico do Iterpa,
Carlos Lamarão, sobre a fraude perpetrada pela Allied, Jovelino,
Jobim e sua turma de americanos e brasileiros de São Paulo:
‘O poder de imaginação dos grileiros em criar
novas artimanhas para se apossarem de terras públicas parece
não ter limites. Eles agora estão clonando a própria
fraude que já vinham praticando em cartórios’.
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