O cão do Luso
José R. Bessa Freire *
Adital -
O Brasil está ficando cada vez mais parecido com Fuente Ovejuna,
aquele vilarejo da Espanha, que ganhou fama por causa da peça
teatral escrita por Lope de Vega (1562-1635), o pai da comédia
espanhola. Esse autor se baseou em fatos verídicos ocorridos
na época da conquista da América para denunciar as injustiças
do sistema feudal que, felizmente, agonizava.
A peça mostra os abusos do Comendador Fernán Gómez,
governador de Fuente Ovejuna. Com ajuda de seu exército particular,
formado por soldados fortemente armados, o tirano ambicioso cobra
impostos exorbitantes dos camponeses, apropriando-se da colheita de
trigo e cevada, das frutas e legumes, dos gansos e galinhas. Mata
e esfola quem resiste. Por isso é denominado de ‘fera
sangrenta’ e ‘bárbaro homicida’.
Além disso, o bode libidinoso e depravado reivindica o ‘direito
de pernada’ para estuprar as filhas dos camponeses - Pascuala,
Eulália, Inez, Jacinta, algumas delas menores de idade. Tenta
violentar a bela Laurência, quando lavava roupa à beira
do rio. Ela, então, apressa seu casamento, mas o Comendador,
‘demônio cruel’, interrompe a cerimônia, rapta
a noiva, prende o noivo e manda açoitar os pais do casal.
Os moradores de Fuente Ovejuna ficam indignados com esses crimes,
mas, intimidados, não reagem. Afinal, a quem recorrer, se o
próprio Comendador, um nobre, representante do poder constituído,
é justamente o encarregado de aplicar a justiça? Além
disso, a ‘pernada’ era um direito imposto ao conjunto
da sociedade feudal. A violência, portanto, não é
apenas dele, mas de todo o sistema.
Esse filme a gente já viu. O Brasil inteiro assiste com igual
indignação e impotência os acontecimentos envolvendo
nobres banqueiros. O ex-dono do banco Marka, Salvatore Cacciola, bronzeado,
sorridente, sem algemas, diz cinicamente referindo-se a ex-diretores
do Banco Central: "As pessoas que foram condenadas comigo no
processo estão livres, trabalhando, ganhando dinheiro. Eu confio
na Justiça Brasileira".
O banqueiro Cacciola tem razões de sobra pra confiar na Justiça.
Ele deu um golpe, causando um prejuízo de R$1,6 bilhão
ao Brasil. Foi preso pela Polícia Federal (PF) em 2000, e condenado
por fraude e peculato, mas fugiu pra Itália, onde foi gastar
nosso dinheiro, beneficiado por hábeas corpus concedido pelo
Supremo Tribunal Federal (STF). Agora, extraditado, volta lépido
e fagueiro, consciente de que será solto. Injusto não
é apenas o juiz que invoca a lei para libertá-lo, é
todo o sistema judicial.
Outro que confia na Justiça é o também banqueiro
Daniel Dantas, acusado de chefiar uma quadrilha responsável
por crimes financeiros. Para livrar sua cara, tentou subornar um delegado
com 1 milhão de dólares, tudo filmado, comprovado. Preso
duas vezes, foi imediatamente libertado pelo STF. Seu advogado manobrou
para que o pedido fosse feito no plantão do ministro Gilmar
Mendes, conforme e-mail interceptado pela Polícia. Com antecedência,
Dantas já havia anunciado que confiava no STF.
Quem não confia na Justiça é um jovem de 18
anos, Jefferson Monteiro, que tentou (mas não conseguiu) arrancar
um cordão de ouro do presidente do STF, Gilmar Mendes, em Fortaleza
(CE). Sem antecedentes criminais, com residência fixa, ele é
réu primário, mas não conseguiu hábeas
corpus para responder o processo em liberdade. Permanece preso há
21 dias. Sua família está revoltada, achando que os
banqueiros recebem tratamento privilegiado, enquanto Jefferson sequer
pode receber visita do pai. O STF, representado por Gilmar Mendes,
é capaz de se colocar na pele do banqueiro, mas desdenha o
pequeno ladrão.
A gente não agüenta mais ver, impotentes, tanta injustiça
e tanta impunidade. É como se os fatos transcorressem em uma
telenovela, cuja história não pode ser alterada por
nós. Podemos apenas assisti-la. Somos meros espectadores. O
brutamontes do Leo enche de porrada a pobre da Catarina, humilhada
e oprimida, e ela todas as noites apanha calada, com aquela cara de
égua, é tão revoltante que dá até
vontade de invadir a tela da TV Globo e mudar o roteiro de ‘A
Favorita’. Mas nós não somos autores nem atores,
pelo menos dessa história, e acabamos esquecendo que podemos
sê-lo da outra História.
No Amazonas, Fuente Ovejuna é Coari, cujo prefeito Adail Pinheiro
cometeu mil atrocidades e permanece impune, protegido pelo governador,
blindado pela Assembléia Legislativa, com as bênçãos
do Judiciário. Além dele, o juiz Francisco Ataíde,
acusado de receber propina para libertar presos, recebe como punição
a aposentadoria com seus vencimentos garantidos. "É uma
questão de humanidade", diz o relator do processo, Domingos
Chalub. É bebé? Por que Chalub não ajuda o colega
com dinheiro do próprio bolso? Ele quer ser bonzinho e ‘humano’
com dinheiro do contribuinte, não com o seu.
Milhares de candidatos com ficha suja em todo o Brasil tentam ganhar
um hábeas-corpus nas urnas. No Amazonas, o Ministério
Público pediu impugnação das candidaturas a prefeito
de Amazonino Mendes e Omar Aziz, ambos respondendo a várias
ações por improbidade administrativa, com repercussão
nacional. Mas todo mundo sabe que não vai dar em nada. O próprio
Amazonino, que entende do babado, já declarou que "no
Amazonas se compra juízes, desembargadores e procuradores".
Ao leitor que está chegando agora, conto como termina a peça
Fuente Ovejuna. Laurência foge e invade uma casa onde estão
reunidos os homens. Ferida, com os cabelos desgrenhados, faz um discurso
inflamado, chamando-os de galinhas, de maricones e de pastores covardes
que entregam suas ovelhas ao lobo. Convoca, então, as mulheres:
- "Queremos armas. Vamos combater".
Provocados em seus brios, os moradores - mulheres e homens - armados
com espadas e lanças, invadem o palácio e fazem justiça
com as próprias mãos. Matam o Comendador. O juiz, enviado
pelo rei, tortura cada um deles perguntando: - "Quem matou o
Comendador? Cada um deles responde: "Foi Fuente Ovejuna, Senhor".
O juiz insiste: -"Quem matou o Comendador"? Eles respondem:
- Fuente Ovejuna, um por todos, todos por um". Ninguém
delata os autores da ação coletiva.
Fuente Ovejuna, escrita em versos, se tornou um patrimônio
da literatura universal. Conta a rebelião do povo que se une
para fazer justiça com as próprias mãos. Foi
encenada no palco e na vida real, em várias línguas,
talvez pela vigência do tema da indignação popular
contra a impunidade. Os personagens mulheres são decididamente
mais fortes e corajosos que os homens. É Laurência que
com seu discurso mobiliza a todos para lutar contra a tirania. Lope
de Vega, que escreveu 426 peças, era - digamos assim - a TV
Globo da época.
Bom, e o cão do Luso, por que aparece nessa história?
É que há 50 anos os autos de Natal eram encenados no
teatro do Luso Sporting Clube, em Manaus. A figura do diabo, que ficou
conhecida como ‘o cão do Luso’, atormentou as crianças
da minha geração. E foi lá, no palco do antigo
Luso, que Omar Aziz recebeu anteontem o apoio - meu Deus do céu!
- do PCdoB. A deputada Vanessa Graziotin (PCdoB), que merece nosso
respeito, deve ter ficado constrangida de emprestar seu nome e sua
trajetória limpa para apoiar o Comendador Omar Aziz, que é
o próprio cão do Luso. Como em Fuente Ovejuna, esperamos
que no Brasil as mulheres desempenhem o papel histórico que
lhes cabe e possam contagiar toda a sociedade na busca da Justiça.
* Professor da Pós-Graduação em