A LEI ESPEZINHADA
Por Rupsilva
Dia desses tomava meu café da manhã, tranquilamente,
quando fui surpreendido pela propaganda oficial do governo, veiculada
na TV, em que aparece um cidadão, periférico como sempre,
enaltecendo a obra batizada de “lugar bonito dois”, inaugurada
com a pompa costumeira no bairro das pedrinhas.
Elogiar e agradecer o governo, em acontecimentos dessa natureza,
tem sido uma prática recorrente no Amapá desde os tempos
de Pizon. O marqueteiro, que se aproveita da ignorância do proleta
para fazê-lo porta-voz da mensagem governamental, se acha no
papel, procurando nos convencer da importância da obra inaugurada.
Só que são mensagens de conteúdo mentiroso que
não condizem com a realidade na qual vive aquele povo, abandonado
a sua própria sorte, que ingenuamente se deixa usar para fazer
aquele tipo de propaganda que na verdade visa esconder a sua triste
realidade.
Por isso obrigam-nos ouvir declarações como: “essa
obra veio para melhorar a vida de nós, moradores do lugar”,
como disse um deles ao elogiar o tal “lugar bonito dois”.
Que magia terá o referido logradouro para produzir o milagre
de mudar o cotidiano sofrido desse povo, representado pelo infeliz
morador, cabe perguntar?
Quando ouvi aquilo confesso que engasguei, quase vitimado por uma
descarga de adrenalina. Cogitei inclusive na prisão do marqueteiro
por ser um exemplo acabado de ignorância e de menosprezo a nossa
inteligência. Crença que tomou de assalto o governo,
confirmando a desconfiança que carrego algum tempo, segundo
a qual os áulicos do governo acreditam, de verdade, que essas
obras melhoram a vida das pessoas.
Esse tipo de propagando, trágica por sinal, simplesmente nega
a importância do saneamento básico numa cidade em que
apenas 2% de seus habitantes têm o serviço; da educação,
cujos números do ENEM, para citar apenas esse aspecto, envergonham
o Amapá; da saúde, com taxas alarmantes de dengue, malária,
mortalidade infantil e da rede pública caótica; do combate
à criminalidade, em escala crescente , assim como da ausência
de programas de geração de renda e emprego como fatores
de desenvolvimento, só pra resumir as incontáveis tarefas
de um governo responsável.
Não bastasse tanto descalabro, o elogio fácil à
mediocridade é parte do cotidiano dos insensatos governistas,
caso da inauguração de semáforos eletrônicos,
cena que nem a Globo imaginou para sua Sucupira, na presença
de graduadas autoridades, entre elas o governador, com direito a fogos,
banda de musica e ampla cobertura midiatica.
O estado de transe em que vive o Amapá hoje, anuncia a carnificina
de 2010. Com data marcada pra sair do governo – se sair mesmo,
Waldez Góes usa acintosamente a máquina governamental
em campanha eleitoral para proveito pessoal e da mulher, sob o olhar
complacente e ouvido de môco da justiça eleitoral, que
desde já sinaliza o que será aquela eleição.
Não precisaria lembrar que essa inquietação,
esse ataque ensandecido ao eleitor, se interessar o TER saber, tipifica
propaganda eleitoral antecipada, tese que prevaleceu na cassação
do governador Jackson Lago (PDT-MA), descoberto no palanque, fora
do calendário eleitoral distribuindo benesses, segundo a turma
de Sarney, argumento acatado pelo relator e apoiado por Aires Brito,
presidente da corte, que fizera um discurso moralizador que muitos
pensaram sério e verdadeiro.
O governador, cônscio de sua impunidade, segue cooptando e
mimoseando pessoas e entidades, lideranças comunitárias,
evangélicos, empresários, categorias profissionais com
recursos do erário, mediante convênios, contratos, vantagens
salariais usados para captar votos e apoio político, visando
a continuidade do governo, imitando o que faz Lula. É o que
se chama “aparelhamento do Estado” com fins eleitorais.
Mais exemplo? O recente convênio com uma tradicional igreja
evangélica para construir sua catedral na zona norte da cidade,
revestido de enorme gravidade. Mais uma demonstração
do uso eleitoreiro e desvio criminoso do orçamento público
de suas finalidades.
O contribuinte, com certeza, não delegou esse poder ao governador,
nem autorizou que utilizasse recursos do Estado para construir igrejas,
pois essas instituições têm maneiras de se auto-sustentar.
A “bondade” do governador, fácil com o dinheiro
alheio, explica a proliferação desenfreada de outras
igrejas, repetindo o que acontece com entidades carnavalescas, grupos
juninos, times de futebol, instituições de filantropia,
associações comunitárias etc.e tal.
No caso dos evangélicos não custa lembrar que o Brasil
é um estado laico, por isso imune a influencias e dogmas religiosos.
Seu povo padece de carências fundamentais para sua sobrevivência,
que os governos têm obrigação de suprir, como
foi dito anteriormente, daí que cada tostão é
precioso, devendo ser aplicado em favor do povo.
Essas práticas, tão comuns, só acontecem porque
temos governantes espertalhões, incapazes de uma gestão
planificada e honesta e um povo pobre, carente de tudo e ignorante,
sem cultura para refletir questões tão complexas, que
fogem de sua compreensão e reação.
Esse quadro não interessa aos políticos mudar. Ele
estabelece uma confusão na hora de separar o interesse público
do eleitoral, quando nem o TRE, que tem autoridade e competência
para tal, se dá o trabalho de fazer em nome da lisura e do
equilíbrio das eleições (se é que lhe
importa), coibindo as transgressões à lei, desrespeitada
e espezinhada todos os dias por onde se anda, se ouve e se vê.