Exclusivo: 150 parlamentares têm processo no STF
Deputados e senadores respondem a 317 inquéritos ou ações
penais. Em 100 casos, Supremo encontrou elementos para transformar
52 parlamentares em réus. Denúncias incluem malversação
de dinheiro público, corrupção e, até,
estupro
Processos contra parlamentares vão de desvio de dinheiro público
e corrupção a estupro
Daniela Lima e Renata Camargo
O Supremo Tribunal Federal (STF) abriu 36 processos contra deputados
e senadores nos últimos 12 meses. Desde junho do ano passado,
o número de inquéritos e ações penais
envolvendo parlamentares saltou de 281 para 317, um aumento de 11%.
Atualmente 150 congressistas têm pendência na mais alta
corte do país, quase um quarto do Congresso Nacional. No ano
passado, eram 143. Hoje, 52 são réus em 100 ações
penais.
Nesses casos, o Supremo aceitou as denúncias feitas pelo Ministério
Público Federal ou terceiros por entender que há elementos
da participação de deputados e senadores em práticas
criminosas. As ações penais são desdobramentos
dos inquéritos e preocupam mais os parlamentares, pois são
elas que podem levar os réus à condenação.
Os dados são resultado de levantamento exclusivo do Congresso
em Foco. Na lista dos atuais processados estão 130 deputados
e 20 senadores. As acusações atingem indistintamente
partidos da base aliada e da oposição. O leque das denúncias
também é variado: malversação de dinheiro
público, crimes eleitorais e contra a ordem tributária,
corrupção, formação de quadrilha e, até,
estupro.
Inquéritos e ações penais
Na cota da Câmara, aparecem 189 inquéritos e 92 ações
penais. Na do Senado, 28 inquéritos e oito ações
penais. Os parlamentares federais têm direito a foro privilegiado.
Assim como os ministros e o presidente da República, só
podem ser julgados pelo Supremo nas áreas administrativa e
criminal.
Apesar do volume de investigações, o STF nunca condenou
um congressista.
O levantamento foi realizado a partir de informações
divulgadas no site do Supremo até o último dia 22. A
pesquisa é feita pelo nome do parlamentar.
Na consulta, no entanto, nem sempre é possível saber
todos os processos ao qual o denunciado responde, pois os deputados
e senadores podem solicitar que o nome seja retirado da consulta pública
do processo. Além disso, procedimentos que correm em sigilo
só podem ser localizados pelo número.
Os mais processados
Na Câmara, apenas nove parlamentares respondem por 80 procedimentos
dos 281 que pesam sobre todos os deputados que exercem ou exerceram
mandato nesta legislatura. A lista dos que respondem a mais de cinco
procedimentos é encabeçada pelo deputado Neudo Campos
(PP-RR), que acumula 21 acusações - sendo 11 ações
penais e dez inquéritos.
Veja a relação dos mais processados
Neudo Campos já foi apontado no levantamento anterior deste
site, em junho do ano passado, como o parlamentar mais processado
do Congresso e manteve o título em 2009. Até o fechamento
desta edição o parlamentar não havia enviado
esclarecimentos sobre as ações a que responde na Justiça.
Em segundo lugar na lista dos mais processados está o deputado
Abelardo Camarinha, com 13 procedimentos. O deputado disse que as
ações que correm contra ele foram movidas por adversários
políticos no período em que foi prefeito de Marília
(SP). "São coisas normais dentro de 14 anos que fiquei
na prefeitura".
No terceiro lugar estão empatados com oito procedimentos cada
os deputados Jackson Barreto (PMDB-SE) e Jader Barbalho (PMDB-PA).
Das oito ações penais de Jackson, cinco são por
crime de desvio de dinheiro público (peculato).
Jader Barbalho, por sua vez, é réu por crimes como estelionato,
formação de quadrilha, lavagem de dinheiro e contra
o sistema financeiro nacional.
Nenhum dos dois enviou esclarecimentos ao site até o fechamento
desta edição. Assim como todos os parlamentares citados
nessa reportagem, eles foram procurados desde a quarta-feira da semana
passada.
No Senado, Valdir Raup (PMDB-RO) é quem concentra o maior número
de procedimentos entre os parlamentares processados. Ele responde
no STF a duas ações penais e dois inquéritos.
Entre as acusações estão crimes de desvio de
dinheiro público (peculato) e contra o sistema financeiro nacional.
Outros quatro senadores respondem a três procedimentos cada.
São eles: Jayme Campos (DEM- MT), João Ribeiro (PR-TO),
Marconi Perillo (PSDB-GO) e Wellington Salgado (PMDB-MG). Desses,
apenas o senador Jayme Campos enviou esclarecimentos até o
fechamento da reportagem. Segundo ele, seus procedimentos são
fruto de "injustiças, preconceitos e falhas processuais".
"Nos casos em que meu nome se vê inserido em investigações
judiciais, devo esclarecer que não passam de falhas processuais
ou de precipitação política na apreciação
de tais processos", sustentou.
Entra e sai
Na lista de processados também figuram nomes de parlamentares
que, mesmo tendo processos arquivados no último ano, continuam
na lista dos investigados pela Justiça. É o caso do
deputado Gervásio Silva (PSDB-SC), que no último ano
respondia a inquérito que apurava homicídio culposo
em acidente de trânsito e teve o procedimento arquivado.
No entanto, no último dia 15 de maio, o pleno do STF acolheu
denúncia referente a outro inquérito, no qual o parlamentar
é acusado de estupro. A investigação foi reautuada
como ação penal, ainda sem número. "Estou
com a consciência tranquila. Sei que sou inocente. Isso foi
uma tremenda armação.
Quero provar minha inocência o mais rápido possível,
porque essa é a acusação mais grave que um homem
pode sofrer", afirmou o parlamentar ao Congresso em Foco.
Prefeitos
Em comparação com o levantamento feito em junho do ano
passado, 26 parlamentares aparecem na lista de processados pela primeira
vez. Outros 20 tiveram seus procedimentos arquivados ou baixados a
outras instâncias do judiciário pelo STF. Entre esses,
15 deputados e cinco senadores.
O ex-deputado Barbosa Neto renunciou ao mandato após se eleger
prefeito de Londrina (PR) em abril. O inquérito que corre contra
ele no STF, por crime contra a ordem tributária e esteionato,
foi encaminhado à Justiça de primeiro grau.
Com a renúncia à cadeira na Câmara, o deputado
perde o foro privilegiado.
O Ministério Público Federal já deu parecer pelo
desmembramento do processo, para que os autos que dizem respeito ao
ex-parlamentar voltem à Justiça do Paraná.
Outros dois ex-parlamentares tiveram seus processos baixados para
a Justiça de primeiro grau após vencerem as eleições
municipais de outubro. O prefeito de Santa Maria (RS), ex-deputado
Cezar Schirmer (PMDB), teve o inquérito de que era alvo por
boca de urna devolvido à Justiça do estado. O mesmo
ocorreu com o atual prefeito de São José (SC), Djalma
Berger (PSB-SC). Num dos inquéritos ele respondia por denunciação
caluniosa e falso testemunho ou falsa perícia. No segundo,
por crime contra o meio ambiente e o patrimônio genético
e crime contra a flora.
Três parlamentares tiveram os processos arquivados e venceram
as últimas eleições municipais. Entre eles, o
ex-deputado Carlos Souza, atual vice-prefeito de Manaus, que respondia
por crime contra a administração pública, corrupção
ativa e concussão. O inquérito que envolvia o nome dele
foi arquivado em abril.
"Vocês batem, mas a gente se reelege"
A eleição de parlamentares com pendências na Justiça
reforça a declaração do deputado Sérgio
Moraes (PTB-RS), integrante do Conselho de Ética da Câmara
que acumula duas ações penais no Supremo. O deputado
que ficou nacionalmente conhecido por dizer que estava se "lixando
para a opinião pública" completou o discurso com
a seguinte declaração: "Vocês (imprensa)
batem, mas a gente se reelege".
Essa não é a primeira vez que o deputado usa frases
polêmicas para falar da conduta parlamentar. Ano passado, ao
ser empossado como presidente do Conselho de Ética, usou uma
metáfora para minimizar o fato de acumular o comando do colegiado
e processos na Justiça (leia mais). "Lá na minha
terra tem um ditado que diz que cão que não tem pulga
ou teve ou vai ter, mesmo que seja pequena."