Laguinho, o bairro
ébano da cidade.
*Ademir Pedrosa
Numa de minhas viagens ao Rio de Janeiro (conhecida soberbamente
como Cidade Maravilhosa), hospedei-me no apartamento de uma amiga,
no Bairro de Vila Isabel. Quando íamos tomar um chope em uma
cantina chamada Petisco, próximo de seu apartamento, nós
íamos caminhando pela calçada como num passeio. Observei
uns desenhos curiosos no piso da calçada por onde caminhávamos,
e minha amiga revelou que se tratava da partitura musical de Noel
Rosa, o poeta da Vila. Esbocei um gesto de surpresa por estar pisando
a sua pauta de notas musicais, e fui para o meio da rua deserta apreciar,
a distância, aquela composição urbanística
e poética. Considerei magnífica a diligência de
justa homenagem ao ilustre compositor, e me senti um sujeito importante
por residir, ainda que passageiramente, naquele bairro. Minha amiga
me disse que o valor imobiliário de uma propriedade em Copacabana
ou no Leblon é infinitamente superior a qualquer uma de seu
bairro. E completou: “mas só que o orgulho de morar na
Vila... não tem preço.” E espraiou um sorriso
incoercível, do tamanho de sua vaidade por morar ali, naquele
bairro nobre. Então lacei sua cintura com um abraço,
e seguimos orgulhosamente nossa caminhada sobre a calçada de
superfície salpicada de notas musicais. Enquanto caminhávamos,
um verso de uma canção antiga me saltou à memória:
“tu pisavas os astros, distraída...” De fato, morar
em Vila Isabel não é apenas um privilégio, é,
sobretudo, um estado de espírito. O chope foi bom e a noite
foi – permita-me o trocadilho cediço – ma-ra-vi-lho-sa.
Moro no Bairro do Laguinho da cidade de Macapá, e o orgulho
que sinto é semelhante ao sentimento que tem o carioca de morar
em Vila Isabel. Situo-me numa curta distância de onde fica a
sede “Escola de Samba Boêmios do Laguinho”, e a
alguns passos de onde reside a dançarina afro-brasileira Piedade
Videira. Sou quase vizinho do maestro Beto Oscar, e os quintais do
pagode do Tio Duca e da casa da festeira de Marabaixo, Dona Biló,
fazem fronteira com o muro do meu condomínio. Nos fundos de
minha morada há uma academia de capoeira, de onde se ouve o
rufar dos tambores e o afoxé dos berimbaus; e em frente, fica
a casa do mestre Olivar, filho do crioulo louro, benzedor e puxador
de desmentidura. Logo adiante, no segundo quarteirão, fica
sediado o complexo da UNA – União dos Negros do Amapá.
É preciso dizer mais alguma coisa? Por aí o leitor pode
perceber que estou muitíssimo bem localizado. Esse conjunto
de coisas – coisas que exprimem vestígios da África
– é que me envaidece a alma e me enche de pavulagem.
Sou um suburbano metido a besta. Residir entre pessoas simples e simpáticas,
bem no coração do bairro ébano da cidade, não
é pra qualquer um. Sem falar no “avião”
da vizinhança à direita, uma morenaça capaz de
é de encher os olhos de qualquer um... Nossa!
Há outro morador circunvizinho – o escritor Fernando
Canto – que deveria fazer parte desse elenco, mas a Empresa
de Correios se encarregou de declinar a rua onde mora para outro bairro.
Sua morada já não pertence mais ao Bairro do Laguinho.
Ele mora na Rua Jovino Dinoá, quase de esquina com Avenida
Nações Unidas. Se não fosse a panificadora vizinha,
Fernando moraria no canto – o que já seria uma redundância.
A Rua Odilardo Silva é, hoje, divisão limítrofe
de nossos bairros, Jesus de Nazaré e Laguinho. Uma linha tênue
separou Fernando de seu antigo bairro. Bem feito! Pelo que sei, depois
que ele saiu da casa dos pais, no Bairro do Laguinho, deixou-se seduzir
levianamente por atrações fáceis e suspeitas
de outros bairros. Agora, na tentativa vã e contraproducente
de regressar, o destino conspirou contra, e lhe furtou a realeza de
morar no bairro mais nobre da cidade. Fernando, porém, é
um sonhador obstinado, pois ainda se considera morador do Bairro do
Laguinho, e ponto final! – mesmo à revelia da decisão
dos Correios. Mas toda a vez, coitado!, que recebe uma correspondência,
o endereço postal denuncia sua tola fantasia, e o devolve à
crudelíssima realidade. Mas há uma luz no fim do túnel.
Minha amiga de Vila Isabel disse-me que o carioca costuma declarar
que Niterói é o lugar ideal pra morar porque tem a vista
mais bela em sua frente: a cidade maravilhosa do Rio de Janeiro. Ora,
resta ao escritor Fernando Canto pelo menos a honra e o consolo de
morar bem pertinho, quase no Laguinho.
* Escritor e professor de língua portuguesa e literatura.
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*Esta crônica é uma homenagem ao bairro onde morei. O
Fernando Canto também não mora mais lá onde foi
citado, ele compôs uma canção de parceria com
Zé Miguel, e manda avisar do seu novo endereço: diz-que
mora na linha do Equador, esquina com o rio Amazonas. O cara não
sai do salto nem dos cantos. Devo também anunciar meu novo
endereço: Praça da Lagoa (floriano peixoto, minúsculo
como merece o nome), Bairro do Trem. Como o leitor pode notar, moro
na lagoa; e morando nela só perco pra minha filha, Maria, que
mora em Três Lagoas, no Mato Grosso do Sul. Não vou perder
pra sapo barbudo...