Governistas impedem depoimento de empresário do "DVD
da corrupção"
Texto:
Emanoel Reis
Não surpreendeu a manobra pilotada pelo líder do governo
na Assembleia Legislativa do Estado do Amapá, deputado Keka
Cantuária (PDT), para impedir que o empresário Luciano
Marba Silva, proprietário da empresa de vigilância privada
LMS Ltda, prestasse depoimento sobre os bastidores do escândalo
que abalou as já debilitadas pilastras da Secretaria de Estado
da Educação (Seed), leia-se secretário da Educação
Adauto Bittencourt. Marba foi à AL na manhã de terça-feira,
23 de junho, atendendo à convocação feita pelo
deputado Camilo Capiberibe (PSB) por meio da Indicação
0179, de 18 de maio.
Luciano Marba ficou conhecido por gravar em DVD conversas em que pessoas
próximas ao governo Waldez Góes confessam explicitamente
o envolvimento na prática de diversos crimes contra o erário:
malversação, fraude, estelionato, falsificação
de documento público, falsidade ideológica, corrupção
passiva e ativa, chantagem, assédio moral e peculato. No DVD
também constam declarações comprometedoras do
advogado Jean Brazão, ex-assessor jurídico da Seed,
sobre a suposta participação do governador do Amapá
nesses esquemas.
Marba procurou o deputado Camilo Capiberibe (PSB) para informá-lo
da intenção em prestar todos os esclarecimentos necessários
acerca do conteúdo do DVD referente às licitações
na Seed. No entanto, a presença do empresário na AL
causou alvoroço entre os integrantes da bancada governista,
especialmente incomodou Cantuária que, ao ser informado da
presença do empresário nas dependências do legislativo
estadual, rapidamente reuniu-se com os demais componentes da base
aliada ao governo para saber qual medida deveria adotar.
Para impedir o depoimento de Marba, os deputados situacionistas
engendraram um ardil fundamentado no regimento interno. O primeiro
pronunciamento foi de Keka Cantuária que ensejou o seguinte
argumento: Marba não poderia depor naquele momento (manhã
de terça-feira, 23 de junho "porque o regimento impedia
qualquer manifestação nesse sentido".
Em sua catilinária, Keka Cantuária acusou a oposição
de manobrar nos bastidores objetivando surpreender os demais deputados
convocando Luciano Marba para depor numa sessão deliberativa.
Segundo afirmou, a medida contrariava sobremaneira o regimento interno.
Mas o circunlóquio de Cantuária foi um tiro no pé.
Nas entrelinhas, deixou entrever que na verdade os deputados governistas
não estavam preparados para suportar mais um turbilhão
que seria provocado pelas denúncias de corrupção
na Seed gravadas em DVD pelo empresário.
Para evitar maiores estragos, o deputado Edinho Duarte (PMDB) entrou
em cena calçando o argumento do líder governista reafirmando
a tese de que não cabia ouvir Luciano Marba em depoimento no
decorrer de uma sessão deliberativa. Para o peemedebista, aquele
não era o momento adequado para "tratar do assunto".
Aproveitando a deixa, Cantuária passou a trabalhar com o pressuposto
de que Marba poderia ser ouvido em outra ocasião, quem sabe
numa sessão especial, quando todos os parlamentares teriam
a chance de questioná-lo.
Atento às manobras perpetradas pelos governistas, o deputado
Ruy Smith (PSB) disse tratar-se de uma grande pândega a justificativa
de que o depoimento de Marba não poderia ser tomado porque
os deputados realizavam, naquele momento, uma sessão deliberativa.
Para o socialista, parecia contraproducente deixar escapar uma oportunidade
"tão boa" para que todos conhecessem, com mais detalhes,
os esquemas de corrupção montados nos porões
da Seed.
Ao perceber o clima em acelerado estado de ebulição,
Jorge Amanajás apareceu como mediador sugerindo aos contendores
que a proposta de tomada do depoimento de Luciano Marba na sessão
de 23 de junho fosse decidida pelo voto. Contudo, o estratagema não
passou despercebido por Camilo Capiberibe que, em questão de
ordem, criticou veementemente o comportamento da base aliada que,
segundo ele, ficou sempre na defensiva, lançando mão
de argumentos sub-reptícios para impedir o depoimento do proprietário
da LMS Ltda.
O artifício montado pela bancada governista resultou bem-sucedido.
Com maioria no plenário, facilmente suplantou a oposição,
composta por apenas dois parlamentares. Usando da palavra, Camilo
Capiberibe sugeriu ao presidente da AL a escolha de uma data para
que Malba prestasse seu depoimento e propôs a sessão
do dia seguinte, quarta-feira. Amanajás ainda tentou se esquivar,
justificando que seria necessário enviar um ofício ao
empresário. Entretanto, ao perceber que a tentativa de postergar
ficara excessivamente evidenciada, anuiu com Camilo Capiberibe e anunciou
o depoimento de Luciano Marba para 24 de junho.