O sequestro da democracia e o boicote ao debate político
no parlamento amapaense
Publicado originalmente em www.heversoncastro.blogspot.com
Desde o surgimento dos modelos democráticos de governos e
de participação política, que a humanidade debate
o teor e a utilização, e como as forma de governos e
o povo pode ter acesso a informação e a participação
da vida pública. Isso para uns é chamado de democracia,
que é a arte de governar com o povo, ou para o povo e com o
povo.
A origem da palavra democracia nos leva à Grécia Antiga,
onde os gregos debatiam os rumos das pólis, cidades-estado,
que eram as formas de governo adotadas pelos precursores da democracia.
Os EUA surgiram como uma grande novidade, nos possibilitando através
de seu modelo constitucional, aprovado depois da independência
americana, a oportunidade de podermos adotar um modelo republicano,
onde pudéssemos combinar democracia direta e democracia representativa.
Esse modelo pode se configurar no Brasil, logo após a queda
do regime militar e a redemocratização do país,
que através da Carta Magna de 88, inovou a política
brasileira nos dando condições e prerrogativas constitucionais
de termos mais controle social sobre as instituições
democráticas: Legislativo, Executivo e Judiciário. No
entanto, isso é uma “quase realidade” que depende
de muita luta política e ideológica, além muita
mobilização popular para que os direitos constitucionais
sejam garantidos.
Aqui no Amapá, nossa democracia, que é ainda muita
fragilizada pela herança histórica, como foi constituída
no nosso estado, através do despotismo e de uma concessão
de nossas elites que apoiavam o regime militar, que logo após
a sua queda, nos deu de graça o poder vitalício de algumas
oligarquias e grupos políticos e econômicos que são
capitães-hereditários da Ditadura Militar.
Essa herança nós faz termos um povo que é acanhado
e acomodado aos problemas políticos, econômicos e sociais
de nosso estado. É claro que temos que enfatizar a herança
histórica de submissão e a pouca cultura política
participação popular que os amapaenses têm. A
nossa própria história foi fantasiada e mal contada
por nossos próprios intelectuais, que colocam heróis
como Cabralzinho, como os grandes defensores do estado, e deixam o
papel da luta popular em segunda plano e como mero coadjuvantes de
um processo histórico.
Mas onde quero chegar com isso? Vejo que a atual conjuntura política
das lutas de classes e sociais no Amapá nos leva a fazer uma
grande reflexão sobre o atual papel desempenha pelas esquerdas
no Amapá, que tem sua atuação mais visível
dentro do parlamento com personalidades que se tornaram referências
das lutas populares. Isso é vista na personalização
da política, é claro que essa ditadura política
não é obra da esquerda e sim da direita e de nossas
elites. Mas o que a esquerda tem feito para mudar essa realidade e
essa conjuntura histórica? Podemos dizer que muito pouco, pois
os esforços se dão na luta parlamentar, que é
utilizada mais como instrumento de auto-afirmação das
lideranças e de denúncias da oposição
aos governos da direita.
Isso se configura atualmente no papel da oposição ao
governo Waldez. O principal partido de esquerda que faz oposição
é o PSB, que tem uma base social-eleitoral muito forte, mas
que tem uma representação parlamentar fraca frente o
peso eleitoral das últimas eleições, isso se
dá por conta da personalização desse partido
na política local.
Mas mesmo sendo forte eleitoralmente, sendo o principal partido de
oposição, e o único no parlamento as estratégias
políticas adotadas por estes tem rendidos bons frutos, pois
tem colocado em xeque o projeto de poder das elites locais. No entanto,
com o grande peso que se tem tido o debate político feito pela
oposição através da luta parlamentar, as elites
começas a tentar desarticular e tentar calar a voz de única
oposição ativa no parlamento estadual. Como isso vem
se dando? A principal estratégia do governo é tentar
esvaziar o debate no parlamento e não deixa que se façam
o enfrentamento aos dois projetos que polarizam a atual conjuntura:
o modelo do governo do PSB, que tinha como mote de campanha o PDSA;
e o modelo de governo da direita e do PDT, que tem como mote o “Amapá
Produtivo”.
No último período, tem se criado um espectro político
e as forças populares tem tirado o sono da direita. Mas a estratégia
das elites é desqualificar a oposição, não
deixando espaços para que a mesma tenha palanque para o debate
político. Isso é constante na Assembléia Legislativa,
através das manobras de maioria do governo, onde todas as vezes
que oposição uso do expediente para fazer denúncias,
toda a base governista se retira para que seja cessado um dos maiores
instrumentos da democracia: "o debate de idéias".
Essa postura autoritária e antidemocrática, que inclusive,
é defendida por alguns setores da esquerda, não passa
de uma prerrogativa da atual democracia burguesa, que é baseada
mais na representatividade do que na democracia participativa. É
nesse ponto, que a meu ver que parte da esquerda comete erros, pois
deixa que a direita paute o debate político por dentro do parlamento,
fazendo que se torne esvaziado.
Isso é um problema sério para a construção
de um projeto à esquerda em 2010, pois a disputa de hegemonia
tem que se dar em todos os espaços políticos, sem deixar
de reconhecer, que um dois principais deve ser através da participação
direta e da mobilização da sociedade. Isso requer disputa
de hegemonia, a quebra ou pelos menos a tentativa de democratizar
os meios de comunicação e uma ofensiva contra o parlamento
e o modelo anti-republicano criado pelo governo Waldez. Um grande
movimento esta sendo criado no país, que a ofensiva política
que a blogosfera, a internet, a mídia alternativa tem lançado
contra a direita, desmentindo as suas teses propagandistas do governo
criminoso, baseado na harmonia de desequilíbrio de poderes.
O parlamento se apequenou diante da submissão ao executivo
estadual, mantendo uma relação institucional estabelecida
por meio do fisiologismo, de favores, e da acomodação
dos grupos de poder nas estruturas do estado. Isso com certeza deverá
ser alvo de uma grande crise de identidade e descrédito do
parlamento estadual, pois a casa do povo tem se tornado a casa do
autoritarismo, das manobras e um quintal do executivo. É preciso
que em 2010 se faça um grande debate na sociedade sobre o papel
de nossas instituições, a independência do parlamento
e a participação popular, pois as elites ainda não
tiraram um dos grandes instrumentos criados pela democracia: o debate
eleitoral. Em 2008 eles estremeceram, mas não basta só
fazer os seus castelos tremerem, é preciso destruir a blindagem
política criada por eles através do poder econômico,
político e da mídia.
_______________________
Heverson Castro é blogueiro e escreve diariamente no blog
www.heversoncastro.blogspot.com