Vendo com outros olhos
Até antes da crise financeira mundial a sigla BRIC, formada
por Brasil, Rússia, Índia e China, era vista como coadjuvante
no cenário internacional, aqueles que queriam participar das
grandes decisões mas não eram convidados. No máximo
serviam como laboratório para os países desenvolvidos
fazer as suas experiências e analisar os resultados para chegar
a uma conclusão. Ou para fornecer a matéria-prima e
mão-de-obra de baixo custo para movimentar a poderosa economia
dos países que compõem o grupo dos mais industrializados
do mundo, o G-7.
Hoje, com os países ricos sem horizonte para sair da crise,
esses emergentes são vistos como exemplo de quem fez o seu
dever de casa – a ponto de não sofrer tanto as consequências.
Então eles já podem se considerar como parte do grupo
dos que mandam no mundo? De jeito nenhum! Apesar da situação
privilegiada, isso ainda está muito longe de acontecer. Se
em alguns fundamentos a consolidação se confirmou, frente
à crise, ainda há muitos problemas pontuais que devem
ser resolvidos, como a corrupção, a impunidade, a distribuição
de renda e a rede de serviços públicos.
Mas alguns indicadores são animadores sob vários aspectos,
mostrando que o rumo pode estar absolutamente certo. Quem diria que
o Brasil deixaria de ser um devedor para ser credor do FMI? Que enquanto
a General Motors só dá prejuízo nos Estados Unidos,
por aqui a mesma opera no azul? Com uma pequena intervenção
no IPI a indústria automobilística e de produtos da
linha branca se tornaram acessíveis e mantiveram os empregos
na indústria. Seria a demanda reprimida? A inclusão
daqueles que sempre estiveram à margem das oportunidades? Quanto
isso custou ao país?
Não é à toa que o cidadão comum reclama
com muita razão. Vazou para a mídia que o Senado Federal
fazia contratações beneficiando parentes e amigos através
do chamado “Ato Secreto”. Isso repercutiu muito mal, colocando
esta Casa, mais uma vez, em situação vexatória.
Se o alvo não era o presidente Sarney, que ficou numa saia
justa danada, nem adiantou o presidente Lula dizer que este não
é um cidadão comum porque tem uma história política
que o credencia a ser tratado de forma especial. Pode até não
parecer, mas isso agravou mais ainda a situação. A Justiça
está chegando?
À parte esses problemas internos, que só dependem
de decisões justas para cada caso, o desempenho do país
perante a crise é muito satisfatório. Mesmo com secas
e enchentes decorrentes das mudanças climáticas –
talvez por causa do aquecimento – e o comportamento pouco transparente
de algumas instituições, a saúde econômica
e financeira está longe da UTI. Mas isso é o suficiente
para ser aceito no grupo que decide o rumo do planeta? Longe disso!
Nossa infraestrutura física e intelectual ainda deixa a desejar,
mas a distância já é mais alcançável
do que há alguns anos.
Torcemos para que as políticas públicas, a transparência
na gestão dos recursos e a atuação dos órgãos
fiscalizadores, cumpram com os seus objetivos. Quando isso acontecer
o mundo vai nos olhar de modo diferente, com mais respeito e confiança.
Quem sabe não sejamos então convidados para fazer parte
do grupo que influencia nos destinos da humanidade? Com certeza não
seremos mais considerados cidadãos de segunda categoria, ou
habitantes do Terceiro Mundo. Precisamos fazer a lição
de casa para merecer um tratamento melhor... Evidenciar isso! Queremos
o impossível?
Fala-se que o bonde da oportunidade só passa uma vez na vida.
Com isso, quem embarcou seguirá a viagem e poderá desfrutar
das maravilhas que a jornada pode oferecer. Mas quem não consegue...
amargará isso para o resto da vida como um sentimento de derrota
e só tomará conhecimento dos efeitos benéficos
da viagem através de terceiros. Sim, porque para isso, o pretenso
viajante deverá estar preparado, saber aonde quer ir, como
chegar aos lugares e, principalmente, como se preparou e o que fez
para merecer a sua vaga nesta viagem. Resumindo: é bom, mas
custa caro!
Sabemos, então, que o nosso passaporte para uma viagem tão
especial só é expedido mediante o cumprimento de exigências
muito rigorosas. Seriedade, disciplina, transparência, respeito,
cumprimento das obrigações, justiça, objetivo
bem definido e bom preparo, são requisitos fundamentais para
o candidato que quer embarcar no bonde do desenvolvimento. Sem isso
nunca carimbaremos o nosso passaporte em busca de dias melhores para
a população. Contar apenas com a sorte ou com a boa
vontade dos outros é muito incerto e desestimulante. De certos
dirigentes, então...
José Roberto Ichihara é escritor e engenheiro da
Petrobrás