A ponte sobre o rio Oiapoque
Arnaldo J. Ballarini
Os limites de territórios ou as fronteiras são em parte
determinados por acidentes geográficos principalmente os rios.
Os rios em quase todo o mundo fazem parte dos ambientes de fronteiras
entre países, estados, regiões, províncias, cidades
e povoados. Separam culturas, economias, religiões e povos.
Na região Amazônica são os mesmos rios que unem
as cidades e vilas, delimitam estados e países. Servem tanto
para unir como separar. É assim no município do Oiapoque,
onde um rio separa o Brasil do Estado ultra-marinho da Guiana Francesa.
Mas não é apenas um rio que separa; se assim fosse qualquer
meio de transpô-lo seria suficiente para o convívio amistoso
de dois povos, o brasileiro e o guianense francês. São
países distintos com línguas diferentes que também
não são objeto únicos de separação.
O que realmente separa os povos da região é a diferença
social de moradia, salário, saúde, trabalho e educação
prestada pelo estado francês e negligenciada pelo estado brasileiro.
São dois povos separadas fisicamente por um rio, sendo na margem
direita um pobre tentando sobreviver e outro rico do lado esquerdo
sem maiores preocupações com seus ganhos.
Do lado brasileiro a cidade do Oiapoque no estado periférico
do Amapá, com uma população nativa predominantemente
mestiça branca e indígena e uma forte migração
nordestina que foi para na ultima fronteira em busca de oportunidade
de comercio. Há também recente vinda de pecuaristas
e agricultores de outros cantos, reforçando a economia local,
além de funcionários públicos de todas as esferas
de governo. A falta de trabalho regulamentado faz com que seja forte
a economia informal. Não há como não destacar
as atividades ligadas a contravenção como o intenso
trafico de drogas, contrabando e a perversa prostituição
infanto juvenil financiada pelo dinheiro do lado francês, com
a omissão das autoridades brasileiras.
Precária é a Saúde da população
que convive com doenças infecto contagiosas como a malaria
e dengue na área urbana alem dos agravos decorrentes a falta
de saneamento básico. A violência é marcante nas
ocorrências diárias onde homicídios fazem parte
do cotidiano. Enfim é um local de excluídos, a mercê
de toda desgraça.
Do outro lado, a cidade de Saint Georges, porta de entrada da Guiana,
com população na quase totalidade afro descendentes,
tutelados pelo governo francês onde é lhes dado boas
condições de assistência a saúde, educação
e salários garantidos pelo simples fato de viverem no estado
ultramarino. Os índios, por terem seus territórios binacionais,
transitam livremente pelas duas margens aproveitando das benesses
dos dois governos. Muitas grávidas, próximas ao parto,
residentes no Oiapoque tentam cruzar a fronteira para assegurar cidadania
francesa a sua prole.
Nas décadas de sessenta e setenta, foi incentivado a imigração
de brasileiros para a Guiana, pois havia a necessidade de mão
de obra na construção civil onde o objetivo era a construção
da base aeroespacial em Koruo e estruturar Caiena. Findado as obras,
alguns brasileiros conseguiram fixar-se legalmente na Guiana e o restante
retornou aos estados brasileiros de origem. Nas ultimas décadas,
a Guiana tenta coibir com truculência a presença de brasileiros
em seu território. Comum são as extradições
e a violência aos trabalhadores brasileiros, que teimam em ingressar
em território francês na busca de trabalho. Em situação
ilegal, sem nenhum benefício social são presas fáceis
a serem explorados nos serviços pesados e perigosos, rejeitados
pelos poucos guianenses que se dispõem a trabalhar. São
filmadas ações da policia guianense em agressões
a trabalhadores brasileiros nas áreas de garimpo que de forma
humilhante são vendidas e exibidas em camelôs na cidade
do Oiapoque.
O cambio favorável ao Euro, a medíocre educação
e cultura dos guianenses apesar de todo investimento francês,
atrelado ao ócio improdutivo levam a intenso tour ao lado brasileiro
com intuito de compras de gêneros alimentícios básicos
e prostituição. Volto a ressaltar a cegueira das autoridades
brasileiras. O vaivém das voadeiras é constante, onde
nossos hospedes são recebidos com hospitalidade pelos comerciantes
e prostitutas juvenis em busca do Euro.
É a região do rio Oiapoque um ambiente fronteiriço
com acentuado vulnerabilidade devido a dinâmica do povoamento
que se mantém agravando com a forte taxa de urbanização
da pobreza com atividades econômicas insipientes onde há
carência no município de infra-estrutura de saúde,
educação, saneamento, recursos humanos especializados,
saneamento e outros equipamentos sociais.
Padece também o meio ambiente, que pela desvalorização
dos recursos naturais e a biodiversidade, aliado a baixos custos de
exploração e beneficiamento, torna atrativo para o vizinho
francês. Assim são exploradas e contrabandeadas madeiras
beneficiadas, que cruzam diariamente a fronteira.
Distante da integralidade, a fronteira do Oiapoque entre o Brasil
e Guiana representa a clássica visão de idéia
político e geográfico separando duas nações.
Não é o rio que separa os dois países, portanto
não é uma ponte que os unirá. A ponte apenas
saltará o rio, substituindo em parte os barcos e as balsas,
o aspecto político e as relações humanas são
mais complicados; dependem de outros investimentos.
Os custos para a construção da ponte seriam suficientes
para equilibrar as defasagens existentes na prestação
dos serviços públicos essenciais entre os dois lados.
Sanear o ambiente urbano, dotando-o de água e esgotamento sanitário,
assim como recolhimento e destino final do lixo na cidade do Oiapoque
são necessários com urgência. Um sistema de saúde
que atenda os principais agravos na população com atenção
básica e hospitalar, reduzindo a morbi-mortalidade, e os altos
custos de remoção terrestre e aérea de pacientes
para tratamento em Macapá. Lógico também desafogar
o sistema publico francês que eventualmente atendem brasileiros.
O ensino fundamental de qualidade com aprendizado da língua
francesa e brasileira além de um núcleo universitário
com cursos regulares aberto a estudantes dos dois países poderá
ser incentivo fundamental a união. Poder-se-á pensar
uma Universidade com a participação administrativa,
professores e alunos binacionais. Promover a integração
cultural sem a perda de identidades é um forte atrativo, aproveitando
as diferentes etnias do local.
Sem custos algum, uma mudança de postura, lembrando a igualdade,
fraternidade e liberdade, marcos da sociedade de nosso vizinho, em
rever os procedimentos das autoridades policiais, afim de que tenhamos
um convívio harmônico e respeitador. Ser cortes, gentil
e amável é muito barato.
Barato tanto, e necessário quanto, é o cumprimento
imediato das leis pelas autoridades constituídas para coibir
os danos ambientais, trafico de drogas, contrabando, evasão
fiscal e principalmente a prostituição infantil no Oiapoque.
Para que uma ponte se impede de transitá-la livremente? Para
que passaporte, vistos e outras burocracias, já que estamos
dispostos a aproximação? Essas questões devem
ser respondidas antes de quaisquer gastos supérfluos. Creio
também se as sugestões propostas neste artigo, ou parte
das mesmas não forem acatadas, a construção da
ponte poderá ser mais uma obra faraônica sem finalidade
para os cidadãos franceses e brasileiros. A ponte é
necessária, mas não prioritária.
Arnaldo J. Ballarini
Mestre em Desenvolvimento Regional
arnaldoballarini@bol.com.br