Audiência pública debaterá
o setor primário no Amapá
Texto: Emanoel Reis
Acontece na próxima quinta-feira, 25 de junho, a partir das
9 horas, a audiência pública sobre "agricultura
familiar, extrativismo e a pesca artesanal no Estado do Amapá"
requerida pelo deputado Camilo Capiberibe (PSB), presidente da Comissão
de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa. Com a participação
de autoridades municipais, estaduais e federais, e também de
agricultores, pescadores e produtores de todos os municípios
amapaenses, o encontro pretende promover amplo debate sobre o estágio
atual desses três setores econÿmicos.
Contando com o apoio da Assembleia Legislativa do Amapá, Comissão
da Amazÿnia, Integração Nacional e de Desenvolvimento
Regional da Câmara dos Deputados, e com a parceria da deputada
federal Janete Capiberibe (PSB-AP), o socialista apresentará
estatísticas e documentos que comprovam que a agricultura no
Estado do Amapá entrou em declínio porque os investimentos
ficaram escassos, mitigaram as linhas de crédito ao produtor
e inviabilizaram qualquer projeto de infra-estrutura (como manutenção
de estradas vicinais, por exemplo) que beneficiasse os pescadores
artesanais, os extrativistas e os pequenos e médios agricultores
do Amapá.
Estão previstas as participações de Altemir
Gregolim, ministro da Secretaria Especial de Aquicultura e Pesca;
de Sílvio Isopo Porto, diretor de Logística e Gestão
Empresarial da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab); Crispim
Moreira, titular da Secretaria Nacional de Segurança Alimentar
e Nutricional (Sesan); Adrian Sanches Peraci, da Secretaria de Agricultura
Familiar do Ministério do Desenvolvimento Agrário (SAF/MDA);
e de Egon Krakhecke, da Secretaria de Extrativismo e Desenvolvimento
Rural Sustentável.
Para o deputado Camilo Capiberibe, nos últimos sete anos a
agricultura familiar, a pesca artesanal e o extrativismo foram completamente
abandonados pelo poder público do Estado. E são setores
considerados essenciais para a sobrevivência das comunidades
do interior amapaense. A situação é tão
crítica, assinalou ele, que no dia 4 de maio passado, em pronunciamento
da tribuna do legislativo estadual, o deputado governista Eider Pena
(PDT) fez duras críticas ao governo do Estado, leia-se Secretaria
de Estado dos Transportes (Setrap), pelo tratamento desleixado dispensado
aos pequenos e médios produtores.
Até governistas concordam
Conforme deixou subentendido em seu pronunciamento, Eider Pena teria
responsabilizado o titular da Setrap, Rodolfo Fernandes da Silva Torres,
pela falta de cuidado com os ramais vicinais usados para escoamento
dos produtos agrícolas produzidas nas comunidades de agricultores,
extrativistas e pescadores artesanais. Em bom português, o pedetista
lamentou profundamente a falta de manutenção nessas
vias de entrada e saída das comunidades do interior e culpou,
indiretamente, o governador Waldez Góes (PDT) pela falência
do setor produtivo no Estado.
Foi exatamente para debater essa falência que Camilo Capiberibe
apresentou requerimento propondo a realização da audiência
pública sobre agricultura familiar, extrativismo e pesca artesanal.
Os três setores enfrentam graves dificuldades sobretudo porque
o governo Estadual virou as costas para os pequenos e médios
produtores. O resultado desse viés político é
que a importação de produtos alimentícios chegou
a índices antes jamais imaginados. Cerca de 63,7% dos produtos
consumidos pela população amapaense são importados
de outros Estados.
A dimensão dessa dependência indignou Camilo Capiberibe.
"Isso é um absurdo, o Amapá já poderia ter
se tornado auto-suficiente nesses setores. É só perceber
que o desenvolvimento do nosso Estado passa necessariamente pela agricultura
familiar, pelo extrativismo e pela pesa artesanal. No atual cenário
econÿmico, percebemos que são exatamente os pequenos que
mais empregam e, justamente por isso, não podemos deixá-los
à mercê dos próprios infortúnios, sem os
investimentos para ampliação de suas lavouras ou na
aquisição de uma nova embarcação",
avaliou.
Declínio anunciado
A agricultura familiar amapaense continua no rodapé da história
e, por enquanto, sem perspectivas de decolagem. Esta informação
está no volume dois da Coleção Pós-Graduação
do Centro de Ensino Superior do Amapá (CEAP) intitulada "Elaboração
e Análise de Projetos". O trabalho de conclusão
de pós-graduação dos alunos Aluizio Pinheiro
da Costa, Rui Celso Coelho Pantoja e Vanderci de Oliveira Firmino
data de 2008 e foi divulgado com o título de "O crédito
rural como instrumento de fortalecimento da agricultura familiar no
Amapá".
Os pesquisadores afirmam que "(...) no Amapá a estrutura
produtiva é incipiente e pouco diversificada (...) devido ao
baixo nível tecnológico disponibilizado ao setor pelos
governos municipal, estadual e federal". No entendimento deles
a agricultura familiar, que poderia ser a grande ferramenta de transformação
socioeconÿmica desses pequenos e médios produtores, não
é contemplada com linhas de financiamento diferenciadas. E,
exatamente por causa dessa ineficiente política pública
as taxas de crescimento das lavouras permanentes (banana, laranja,
limão e pimenta-do-reino) e temporárias (mandioca, abacaxi,
arroz, feijão, melancia e milho) foram negativas na maioria
dos municípios.