QUALÉ COMPANHEIROS?
Por Rupsilva

Sei o quanto é difícil discutir idéias e opinião numa terra onde a maioria das pessoas tem o rabo preso a alguém ou a um esquema qualquer. Mais difícil ainda é vencer a barreira da intolerância, do despeito e ser compreendido.

Tenho recebido sinais e recados da tropa de choque de LUCAS BARRETO descontente com a tese que seu lugar é à direita e nunca à esquerda do espectro ideológico da política do Amapá.

Bastava uma leitura atenta e descomprometida, como deveriam fazer profissionais cujo nível está acima da média e ver-se-ia que não exagerei na dose. Muito pelo contrário, fui generoso com o candidato, cuja boa performance no pleito municipal foi reconhecida.

A despeito da ausência de manifestação firme que confrontasse o governo e suas práticas anti-republicanas, do discurso comportado para não ferir susceptibilidade e da biografia que não registra uma única participação em movimentos a favor das minorias desguarnecidas.

Quem detém informações privilegiadas sabe que muito do seu sucesso no último pleito se deve aos seus amigos empresários e à forma de “convencimento” usada junto aos desprotegidos empregados do setor.

Sem contar o esforço, elogiável por sinal, empreendido pelo TRE para fiscalizar, com rigor, o primeiro turno das eleições municipais que por pouco, muito pouco mesmo, não colocam Lucas no segundo turno.

Em razão disso e por uma serie de outros aspectos que vamos elencar, é impossível situá-lo na oposição. A maior parte de sua votação foi subtraída de outras candidaturas que, como ele, adotaram a estratégia de isolar PSB e seus poucos aliados.

Há, no entanto, para os padrões locais, o reconhecimento do PSB, agora coadjuvado pelo PSOL, como partido legitimo de oposição, tanto que a cada pleito, apesar da campanha suja das forças conservadoras e reacionárias do Estado, aumenta sua votação no eleitorado situado nos vários níveis do tecido social.

Em 2004 a deputada Janete, sozinha, teve acima de 29%, num embate desigual, verdadeiro “vale-tudo” com João Henrique que abandonara justo o PSB para filiar-se aos grupos que ajudou a combater. Mesmo assim perdeu na undécima hora; Capiberibe pai fez 42% em 2006, numa disputa ao governo em que sumiram mais de 60 mil votos, segundo observador do próprio PDT e Camilo incríveis 48,9%, em 2008, quando na véspera tinha a vitória como certa.

São números reais, conquistados como se sabe contra tudo e contra todos. Um reconhecimento dos cidadãos de bem, à luta do partido em favor de seus ideais e dos pleitos canalizados da sociedade.

Isso é história que incomoda aos que optam por desqualificar o debate, reduzi-lo, levar para o campo da pilhéria, no lugar de fazer o bom combate, usar de argumentos, que talvez lhes falte.

Voltando ao candidato LUCAS BARRETO, pouquíssimas pessoas ignoram sua ligação com Sarney. Que o fez assessor secreto do Senado, segundo denunciou o Estadão, eliminando de vez as dúvidas sobre essa relação. Ela existe tão estreita a ponto de ser obsequiado com a visita do “chefe” sempre que vem a Macapá, provavelmente para manter o controle.

Há nele, sem dúvida, certo ar de rebeldia e independência, visto por muitos como sinais de autoritarismo e arrogância. Na verdade jamais contestou o status quo. Mesmo diante do descalabro desse governo, da lama onde chafurdam seus gestores e da injusta distribuição do orçamento público entre os poderes que falta ao cidadão comum.

Certamente por estilo e pelo compromisso velado com o sistema que ajudou a fundar, ainda na década de 90, ou mesmo por orientação de Sarney. Lamenta-se que negue, por subserviência, a si próprio o direito de exercer a sua cidadania e a capacidade de avaliar os malfeitos do governo, se posicionando do lado da população empobrecida.

Sujeito à vigilância severa de Sarney, é fácil entender por que toda vez que a oposição, a verdadeira, precisou de seu apoio, caso de Capi em 2006 e Camilo em 2008, negou-o.

A onda agora é produzir factóides e fazer crer que deseja com os socialistas uma aliança verdadeira. Há sim, o reconhecimento da força política do PSB e a certeza que decidirá a sorte do pleito em 2010, como fez em 2002.

Posso ver na manobra um esforço para tornar Lucas um político diferente do que é; apresentá-lo ao eleitor como tal, para quebrar a hegemonia dos socialistas junto às forças populares que exigem por mudanças radicais no compromisso e na forma de gerir o Estado. Marketing puro.

Não vejo mal em quem defende idéias conservadoras, pois mesmo esses podem ter uma atitude construtiva em favor do Estado e seus cidadãos, como ocorre na Europa. O mal está em negar o conservador que é e sempre vai sê-lo por sua formação e natureza. E certamente por isso venha conquistando seu espaço na política, com legitimidade.

O condenável é tentar iludir a sociedade, ajudado por uma assessoria que “viaja” e que sabe que o candidato petebista será incapaz de promover a ruptura com esse sistema apodrecido, clientelista, medíocre que esta aí, comandado justamente pelo guru Sarney, que predomina sobre tudo e todos.

Não me furtarei ao debate. Só não esperem que resvale pelo chulo e faça dele cavalo de batalha. Respeito o candidato petebista que tem uma origem exemplar. Mas no momento está longe de ser o governador que precisamos para mudar a face do Estado, que inclui o expurgo de Sarney.