O medo e o temor
Dom Pedro José Conti
Bispo de Macapá
Apesar de tantos séculos de evangelização, ainda
confundimos o medo com o temor. Sobretudo a respeito de Deus. O temor
de Deus, por exemplo, é um dom do Espírito Santo, o
medo não. Contudo é fácil entender porque convivemos
com tantos medos e temores.
Tudo o que nos é desconhecido, fora do nosso alcance imediato,
longe da nossa experiência, gera medo e insegurança.
Todos nós temos medo de morrer como, quase da mesma forma,
tivemos medo de nascer, dizem os psicólogos. Também
naquele caso não conhecíamos nada da realidade exterior.
Evidentemente não lembramos, mas o nascimento foi um trauma
e uma surpresa ao mesmo tempo para todos nós. Em outros níveis
da nossa existência está também o medo do escuro,
a dúvida em arriscar caminhos novos, a incerteza nas escolhas
da vida.
O medo de Deus é coisa séria. De fato acontece porque
não o conhecemos bem. Talvez nos foi apresentado como alguém
nos vigiando, bem escondido, dia e noite, em qualquer lugar, pronto
a nos flagrar nas desobediências às ordens dos pais.
Muitos de nós também pensamos que tudo, tudo mesmo,
dependa dele. Até aquilo que, refletindo um pouco, é
a conseqüência da nossa distração, imprudência
ou irresponsabilidade. Incluindo nisso os resultados de eleições,
concursos, loterias, acidentes. É o costumeiro: “Se Deus
quiser”. Mas o que Ele quer mesmo?
É muito fácil e superficial jogar todas as culpas em
Deus. Dessa maneira nos sentimos livres de toda responsabilidade.
Sobretudo no mal. O resultado, porém, é o medo deste
Deus imprevisível. Temos medo que nos aconteça o inesperado,
por puro capricho de um Deus, que, olhando as circunstâncias
da nossa vida, chegamos a concluir deve ser vingativo, feliz com o
sofrimento humano, fundamentalmente injusto.
O evangelho deste domingo pode nos ajudar a entender a diferença
entre o medo e o verdadeiro dom que é o temor de Deus. Com
efeito, os apóstolos passam do medo natural de morrer por causa
da tempestade a um novo “medo-temor”, por causa do poder
que Jesus manifesta acalmando o vento e as ondas do mar. Eles têm
medo porque o Deus que Jesus está lhes fazendo conhecer não
somente não quer que morram; Ele está junto, no mesmo
barco, e enfrenta as mesmas tempestades. Parece estar dormindo, é
verdade, no entanto Ele - agora falando de nós - está
muito mais perto do que pensamos, é mais solidário do
que conseguimos imaginar e é mais amoroso de quanto teimamos
em negar. Ele não se substitui a nossa liberdade e responsabilidade.
Simplesmente quer ser nosso amigo e companheiro na travessia da vida,
para que nós o sejamos dele, por escolha livre e sem medo.
Assim Jesus pede aos apóstolos que sejam menos medrosos e
tenham mais fé. Com efeito, superando o medo de Deus e nos
deixando guiar pela confiança nele, começamos a conhecê-lo
melhor. Na realidade o nosso medo maior é aquele de tomar a
sério a nossa fé, de nos deixar envolver pelo amor de
Deus. Temos medo de ter que assumir as nossas responsabilidades a
respeito desta sociedade que nós construímos injusta.
A violência entre nós, por exemplo, não é
vontade e nem culpa de Deus. Somos nós que olhamos os outros
como inimigos e não como irmãos. Estamos agindo exatamente
ao contrário daquilo que Jesus ensinou.
Nesta altura o temor de Deus é realmente um dom, porque nos
dá a força de assumir as nossas responsabilidades, também
perante o próprio Deus. Não será mais um relacionamento
de medo, dependência, bajulação ou interesse,
menos ainda de omissão e acomodação. Viver a
nossa fé e o temor de Deus é assumir a nossa missão
no mundo, como Jesus levou a dele até o fim. Daremos conta
disso se confiarmos que, justamente, o Senhor está conosco,
no mesmo barco, nas mesmas tempestades da história, porque
nos ama e quer nos levar juntos até o final de nossa viagem.
Deixamos que ele continue nos questionando: “Por que são
tão medrosos, ainda não tendes fé?”. Devemos
sempre aprender a arriscar com ele e por causa dele.