Os pupilos do senhor presidente: STF “rasga” diploma de jornalista; ou a diferença entre um reitor e Gilmar Mendes

Por Raul Mareco *

Tenho a incessante impressão de que o senhor Gilmar Mendes, presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), imagina que esteja se referindo a nós, jornalistas diplomados, como a seus capangas de Mato Grosso, parafraseando o ministro Joaquim Barbosa. Na noite da última quarta-feira (17), o presidente do STF, acompanhado de mais sete ministros daquele tribunal (com a exceção de Marco Aurélio de Mello que votou contra, e da ausência de dois ministros), decidiu que a obrigatoriedade do diploma para o exercício do jornalismo não é mais necessária.

A ironia nesta decisão reside na seguinte análise: em uma das leituras realizadas no STF, afirmou-se que a obrigatoriedade foi concebida há 40 anos, em pleno governo ditatorial; ou seja, os ministros que fizeram o favor de rasgar indiretamente o nosso diploma pregam que a liberdade de expressão também deve habitar aqueles que nunca passaram por uma academia na vida.

Concordo, mas apenas para aqueles jornalistas que têm o chamado direito adquirido, como vários jornalistas no Amapá com cacife ilibado para referenciar qualquer curso superior no Brasil. Tomo a humilde liberdade de citar um indubitável exemplo do jornalismo amapaense que, mesmo com o direito adquirido, decidiu cursar a academia de jornalismo.

O senhor Humberto Moreira que, antes de ser diplomado jornalista próximo de completar 65 anos, dedicou sua vida a prestar um verdadeiro serviço público ao povo do Amapá, principalmente levando, através das ondas do rádio, informações sobre o futebol tucuju. Inquieto apenas com a vasta experiência na prática, Moreira decidiu elevar seus conhecimentos no campo teórico, engrandecendo ainda mais sua profissão.

Agora, sou plenamente contrário àqueles que se intitulam jornalistas – e não passam de hipócritas, fingidos e farsantes, como tem aos montes no Amapá – que nem sequer leram algum texto teórico sobre a simples estruturação de um texto jornalístico, e aos trancos, solavancos e barrancos, trafegam pela profissão como a famigerados em busca do sensacionalismo.

Mas, quem é o presidente do STF para divagar a respeito da ditadura, ademais sobre a obrigatoriedade, ou não, do diploma de jornalista? É um extremo absurdo que profissionais os quais passaram por toda a “sorte” de dificuldades para serem diplomados legitimamente jornalistas, fiquem à mercê de decisões estapafúrdias provenientes de um cidadão que criminaliza os movimentos sociais deste país, como o Movimento dos Sem-Terra (MST), e, pasmem, defende abertamente os torturadores da ditadura militar, quando o governo Lula tentou revisar a Lei da Anistia, segundo foi publicado na mídia.

Volto a argumentar: De onde este senhor tirou a infeliz afirmação de que todo cidadão, repito, TODO, tem direito a ser jornalista? Onde está a bendita liberdade de expressão, quando se há a defesa lacÿnica de torturadores do regime militar? O que esperar de um ministro do judiciário que concede um habeas corpus ao banqueiro e corrupto Daniel Dantas? O que esperar?! Ora, a desintegração do diploma de jornalista!

Intragável mesmo foi assistir ao anúncio bastante sorridente, quase no ritmo do “relaxa e goza”de Marta Suplicy, dos apresentadores William Waack e Cristiane Pelajo, do Jornal da Globo, a respeito da decisão do STF, onde claramente firmaram a concordância da poderosa Globo com o fato. Para corroborar, leia um trecho abaixo da reportagem “Barbosa reage”, dos jornalistas Cynara Menezes e Leandro Fortes, da revista Carta Capital, Edição 542:

“(...) Sabe-se, desde sempre, que o presidente do STF tem a simpatia das maiores e mais poderosas organizações de mídia do País, sem contar com a zelosa compreensão de boa parte dos jornalistas escalados para cobrir os assuntos relativos ao Poder Judiciário em Brasília”.

O presidente da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), entidade a qual defende inteiramente a obrigatoriedade do diploma, Sérgio Murilo Andrade, resumiu, como um bom jornalista diplomado sempre faz, a sensação que eu, assim como os demais companheiros de classe, temos agora a respeito desta decisão: “Deixamos de ser uma categoria para sermos um amontoado”.

Gostaria de agradecer ao presidente Gilmar Mendes, e àqueles sete ministros, por permitirem a balbúrdia desenfreada que esta decisão causa, a partir de hoje, com a entrada de um sem número de pessoas que agora possuem o “direito” de ser jornalistas, à exceção dos que já citei.

Digo balbúrdia, pois teremos uma redução drástica da qualidade na informação à sociedade, com textos escritos ao “Deus dará”, sem a preocupação estrutural recorrente exigida pela academia, assim como pelo próprio acadêmico e pela prática cotidiana, como a obtenção de fontes éticas e seguras, as quais garantem a legitimidade textual.

Mais balbúrdia ainda será observada no mercado de trabalho, pois, com a medida adotada pelo STF, os salários dos jornalistas (que já são pífios) serão mais reduzidos, visto o aumento da “procura” de interessados em ser jornalistas, além da desconfiança por parte dos empregadores; ou seja, o presidente Mendes acaba de piorar a situação do mercado de trabalho na área do jornalismo, podendo causar em breve uma ruptura sem precedentes na qualidade de vida dos profissionais.

Como disse Sérgio Andrade, hoje somos um verdadeiro “amontoado”, quando deveríamos ser amplamente respeitados pelas instituições brasileiras. Literalmente, rasgaram nosso diploma. Além de estar “destruindo a credibilidade do Judiciário brasileiro”, nas palavras do ministro Joaquim Barbosa, Mendes, que não se deu por satisfeito, agora está manchando a imagem do jornalismo brasileiro.

Neste exato momento, tenho a nítida sensação de, ao invés de ter recebido o “canudo” das mãos do reitor da academia, viesse o presidente do STF em seu lugar, me tomasse o que me é de direito, e rasgasse o que comprova os quatro anos pelos quais eu e milhares de jornalistas sofremos para obter.

Gostaria de enfatizar que estou defendendo uma classe que não se considera privilegiada por possuir um documento que prova sua legitimidade, portanto, meu intuito não é atacar quaisquer jornalistas que possuem, ou não, o direito adquirido. Muito pelo contrário, apenas defendo que elementos teóricos na vida de um profissional jornalista é essencialmente relevante para o exercício cotidiano da profissão.

Porém, não devemos nos curvar perante tal arbitrariedade imposta à nossa classe. Não devemos nos abater pensando que fomos “minimizados” pelas mãos de um poder judiciário caolho; devemos sim unir todos os jornalistas diplomados, e os que concordam com a obrigatoriedade do curso superior, para não permitirmos o pandemÿnio aqui citado tomar conta de uma profissão honrada, séria e comprometida com os interesses gerais da sociedade.

*Raul Cláudio Martins Mareco, 31, é jornalista diplomado, articulista e especialista em assessoria de imprensa