As pernas da cama
Dom Pedro José Conti, bispo de Macapá
Certa vez um homem adoeceu de uma doença esquisita. Toda noite,
quando ia deitar-se, imaginava que de baixo da sua cama estivesse
escondido um monstro horrível que ia devorá-lo. Com
este pesadelo ele não conseguia dormir de jeito nenhum. Vivia
apavorado. Assim começou a procurar uma cura para a sua enfermidade.
O primeiro médico lhe prescreveu um potente remédio
para dormir. Não deu certo; o medo era mais forte que o remédio.
Um outro médico lhe aconselhou um tratamento de acupuntura
e um medicamento homeopático caríssimo. Apesar dos gastos,
o pesadelo noturno continuava. Por fim os parentes levaram-no para
um famoso psicólogo que iniciou uma série de encontros
incluindo sofisticadas técnicas hipnóticas. Após
a segunda sessão de terapia, porém, o homem nunca mais
se apresentou ao médico. Este achou impossível que a
cura já estivesse sortida efeito. Ficou curioso e foi atrás
do paciente. Quando o encontrou, quis saber o motivo da sua desistência
no tratamento. O homem, com toda tranqüilidade, respondeu que
uma noite durante a qual o pesadelo era mais forte do que outras vezes,
ele, desesperado, tinha procurado o velho pároco da paróquia
onde morava. Este lhe disse de serrar as pernas da cama. Com o colchão
praticamente no chão o monstro não teria mais onde ficar.
Assim o homem fez e o pesadelo nunca mais voltou a importuná-lo.
Nada de mais simples e comum.
Acredito que, entre muitas outras, esta poderia ser a mensagem das
parábolas do Evangelho deste domingo. A primeira nos lembra
que a natureza tem o seu curso. Este vale também quando o agricultor
dorme. Com efeito, o fato que ele durma ou fique acordado, não
muda as leis da natureza. Do mesmo jeito o tamanho da árvore
final, não depende da grandeza da semente inicial. Assim acontece
com o grão de mostarda, semente minúscula em si, mas
capaz de transformar-se em árvore frondosa.
Tenho a impressão que estejamos todos pecando por grandiosidade
e por orgulho. Estamos desdenhando as coisas e, infelizmente também
as pessoas simples, pequenas e humildes. Parece que somente o extraordinário
tenha valor.
Queremos tudo grande logo. Os eventos devem ser mega. O show só
pode ser mega. Assim o sucesso, o negócio, o lucro. Se não
for grande, não presta. Desta forma, por não aceitar
de não ter nascido logo grandes, parece que estamos desistindo
de crescer aos poucos. Falta-nos a paciência de esperar e a
humildade de reconhecer as nossas limitações.
As crianças querem ser adultas antes do tempo; são
estimuladas a imitar os grandes, sobretudo os ídolos do momento.
Assim perdem a poesia e a espontaneidade da infância. De tanto
copiar os “famosos” correm o perigo de perder a própria
originalidade.
Outras vezes, os pais querem que os filhos sejam os primeiros em
tudo, que ganhem sempre. Nasceram para serem campeões. Obviamente
aqueles e aquelas que não o serão correm o risco de
ficar frustrados a vida inteira, de sentir-se fracassados e culpados
por ter decepcionado os próprios pais.
Se tivessem aceitado crescer aos poucos, talvez, teriam chegado mais
longe do que pensavam. Sobretudo o teriam feito naturalmente aprendendo
a usar bem das suas capacidades, sem mentiras, trambique ou ilusões.
Capacidades e qualidades não se compram. São dádivas.
Cabe a nós fazê-las crescer cultivando-as. Competência
e experiência também se aprendem aos poucos e não
sem esforço. Muitos, pela pressa, desistem e ficam medíocres.
Na natureza acontece o que Jesus nos pede: começar pequenos,
buscando aquela pequena força que nos fará ser grandes.
Esta força se chama confiança em nós mesmos e
em Deus que nos ama e caminha conosco. Qualquer pequeno passo dado
para moldar para melhor o nosso caráter e a nossa personalidade,
será o maior sucesso da nossa vida.
Para derrotar o pesadelo do sucesso a qualquer custo, basta serrar
as pernas do nosso orgulho. Partindo bem de baixo, só poderemos
crescer para cima. Fadigosamente sim, mas cresceremos, naturalmente.
Ao contrário, se cairmos do alto do nosso trono imaginário,
será um verdadeiro desastre.