Senado acumula mais de 300 atos secretos para criar cargos
Extraído de: Estadão - 09 de Junho de 2009
Parentes de políticos ganharam
cargos sem que seus nomes fossem publicados em órgãos
oficiais
BRASÍLIA - Depois da revelação feita no mês
passado por um estudo da Fundação Getúlio Vargas
de que o Senado tinha mais 600 funções comissionadas
e cargos com gratificação, descobre-se agora outra caixa-preta
na Casa. Atos administrativos secretos foram usados para nomear parentes,
amigos, criar cargos e aumentar salários. Levantamento feito
por técnicos do Senado nos últimos 45 dias, a pedido
da primeira-secretaria, detectou cerca de 300 decisões que
não foram publicadas, muitas adotadas há mais de 10
anos. Essas medidas entraram em vigor, gerando gastos desnecessários
e suspeitas da existência de funcionários fantasmas.
O Estado teve acesso a esses atos secretos, que, após o início
da investigação interna, começaram a sair como
“boletins suplementares”, inseridos nos respectivos meses
a que se referem, com data da época. Na relação,
aparecem as nomeações da ex-mulher do deputado Eliseu
Padilha (PMDB-RS) na Advocacia-Geral e da ex-presidente da Câmara
Municipal de Murici, cidade cujo prefeito é filho do hoje líder
do PMDB, Renan Calheiros (AL).
Também secreto é o ato que exonerou um neto do presidente
do Senado, José Sarney (PMDB-AP), então lotado no gabinete
de Epitácio Cafeteira (PTB-MA). A exoneração,
pelo modo secreto, ocorreu para não dar visibilidade à
existência de um parente não concursado de Sarney nos
quadros da instituição no momento em que o Senado se
via obrigado a cumprir a súmula antinepotismo do Supremo Tribunal
Federal (STF).
Na pesquisa dos técnicos do Senado, surgem ainda medidas impopulares,
como a que estende assistência vitalícia odontológica
e psicológica a marido ou mulher de ex-parlamentares. Os boletins
secretos revelam também que mais um filho e um irmão
do ex-diretor João Carlos Zoghbi (Recursos Humanos) trabalharam
no Senado, além dos outros sete parentes já conhecidos.
Esses dois, João Carlos Zoghbi Júnior e Luis Fernando
Zoghbi, eram lotados na Diretoria-Geral, então comandada por
Agaciel Maia - exonerado em março após a acusação
de ocultar a propriedade da casa onde mora em Brasília. Para
abrir espaço para essas contratações, um dos
atos secretos, de 24 de dezembro de 2004, cria 25 cargos na diretoria-geral.
Ex-presidente da Câmara Municipal de Murici (AL), Marlene Galdino
foi lotada na Diretoria-Geral até o ano passado com um salário
de R$ 5 mil. Renan Calheiros Filho é o prefeito da cidade.
O Conselho Editorial do Senado, órgão criado por Sarney,
foi usado, por exemplo, para abrigar, entre agosto de 2007 e outubro
de 2008, Luiz Cantuária Barreto (PTB), ex-presidente da Assembleia
do Amapá, com salário de R$ 7,1 mil.
Boletim
O Senado publica diariamente um boletim acessado pelos servidores
com as nomeações e mudanças administrativas internas.
Ao assumir a Primeira-Secretaria em fevereiro, o senador Heráclito
Fortes (DEM-PI) foi avisado de que muitas decisões não
saíram da gaveta de Agaciel - por tratarem de medidas questionáveis,
a maioria para agradar ao grupo do ex-diretor e também do alto
comando político. Entre eles, estão Sarney, Renan e
demais ex-presidentes, como Jader Barbalho (PMDB-PA) e Antonio Carlos
Magalhães (DEM-BA), morto em 2007.
Enquanto as decisões públicas saem num mesmo documento
diariamente, a maioria das sigilosas tem tratamento único,
sem se misturar com outras medidas. A existência desse tipo
de procedimento surpreendeu até os auditores da FGV, responsáveis
por uma reforma administrativa no Senado.
“O próprio regulamento dispõe que muitas das
competências não descritas deveriam ou poderiam ser especificadas
por atos da comissão diretora e do diretor-geral. No entanto,
a equipe de consultores da FGV não teve acesso a esses atos,
e alguns deles nem sequer foram publicados”, dizem os auditores.
A descoberta desses boletins obrigou o primeiro-secretário
a oficializar uma comissão para cuidar do assunto. Em 28 de
maio, Heráclito nomeou três servidores para cuidar oficialmente
do tema e entregar uma conclusão até sexta-feira.
“Não tenho compromisso com o erro”, afirma o senador.
“Qualquer irregularidade que chegue ao meu conhecimento, eu
tomo providência. Não existirão mais atos secretos
no Senado. A não ser aqueles de caráter estritamente
pessoal.”
Sarney afirmou na terça-feira ao Estado desconhecer a existência
desses atos secretos. Ele disse apoiar a divulgação
desse tipo de documento. “É claro que eu apoio. A Constituição
manda que todos os atos públicos sejam divulgados.” Ele
ressaltou ainda que, como parlamentar, cuida mais da parte política
do que da administrativa.
Procurado, por meio de sua assessoria, Renan não se pronunciou.
Eliseu Padilha confirmou que a ex-mulher, Maria Eliane, trabalhou
no Senado de março de 2006 a dezembro de 2008. Disse que foi
requisitada para dar pareceres jurídicos. “Deveriam ter
publicado isso (não em ato secreto). Essa pergunta deve ser
feita ao Senado.”
Autor: Leandro Colon e Rosa Costa, de O Estado de S. Paulo