Discurso da deputada federal Janete Capiberibe em 28 de fevereiro
de 2008.
Senhoras e Senhores Parlamentares;
Está na hora desta casa de leis assumir a vanguarda no combate
à corrupção. Este é o momento para surgir
daqui uma mensagem inovadora ao povo brasileiro. Ninguém mais
agüenta a corrupção neste país.
Esta situação é resultado de um Estado arcaico,
de uma estrutura social injusta e da falta de mecanismos democráticos
de controle efetivo por parte da população.
É possível sim colocar ao alcance de todos os instrumentos
necessários para que possamos, como cidadãos e cidadãs,
conhecer e controlar diretamente os gastos do erário.
O Projeto Transparência é inovador porque permite a todo
e qualquer cidadão ter acesso aos gastos de dinheiro público
neste País, empurrando a nação para um salto rumo
à modernidade, à vanguarda de políticas públicas
voltadas para o combate à corrupção.
Um Projeto como esse não nasce a partir do nada. Ele é
resultado de uma longa trajetória de vida e de experiência
no setor público minha e do senador João Capiberibe, autor
da idéia.
Nossa história, minha e da minha família, é pautada
na luta pela democracia, pelos direitos humanos, pela justiça
social. A militância política faz parte da minha vida desde
a adolescência. Na década de 70, paguei com minha liberdade
e fui forçada com minha família a viver no exílio
durante 9 anos, por defender a democracia num país assolado pela
ditadura militar. O retorno para o Brasil nos anos 1980 significou a
continuação da luta pela democracia e por uma melhor divisão
das riquezas do nosso país.
Fui eleita vereadora de Macapá, a capital do meu Estado, em
1988. Depois, o povo me outorgou três mandatos como deputada estadual
e mais dois mandatos como deputada federal, sempre pautando minha atuação
política na defesa das minorias e na democratização
do acesso aos serviços públicos. Sempre eleita pelo Partido
Socialista Brasileiro.
Meu companheiro João Alberto Capiberibe construiu, ao meu lado,
uma trajetória política vencedora. Foi prefeito da capital
e Governador eleito e reeleito do nosso estado, quando coordenou o Projeto
de Desenvolvimento Sustentável no governo do Amapá. Naquele
período, quando pouco ainda se falava em transparência
nas contas públicas, ele implantou, a partir de 2001, um inovador
sistema de consulta das contas governamentais, que permitia, assim,
que qualquer cidadão com acesso à Internet pudesse fiscalizar
as contas do Governo do Estado, ampliando a participação
e o controle democrático sobre a administração
pública. Até hoje a movimentação financeira
do Governo do Estado é exibida na Internet. Faltava porém
uma lei que garantisse a continuidade do projeto.
Em 2003, eleitos para o Congresso Nacional, eu e o senador João
Capiberibe apresentamos nesta Casa e no Senado, um projeto de lei para
implantar esta ferramenta de participação e controle democrático
em todos os órgãos da administração pública
do Brasil.
A tramitação foi mais ágil no Senado Federal.
Já no final de 2004, o projeto estava aprovado pela unanimidade
dos senadores e era enviado para apreciação da Câmara
dos Deputados sob o número PLP 217/2004.
Nesta Casa, foi aprovado pelas comissões de Finanças
e Tributação e Constituição, Justiça
e Cidadania. Em agosto do ano passado, o presidente deputado Arlindo
Chinaglia o incluiu na pauta de votações.
Aguarda, agora, a desobstrução da pauta e a decisão
dos líderes para ser votado como proposta prioritária.
Depois de aprovado pela Câmara vai à sanção
presidencial.
O Projeto Transparência é um antídoto à
corrupção. Quando virar lei, todos os órgãos
públicos em todo o país vão ser obrigados a divulgar
suas contas na Internet.
Depois da publicação no Diário Oficial da União,
a União, os Estados, o Distrito Federal e os Municípios
com mais de 100 (cem) mil habitantes terão um ano para implantá-lo;
os Municípios com população entre 50 mil e 100
mil habitantes terão até 2 anos para colocá-lo
em funcionamento. Os municípios com menos de 50 mil habitantes
deverão implantá-lo em, no máximo, 4 anos.
Hoje, não há limitação técnica que
dificulte a implantação do Projeto Transparência.
Toda a receita (arrecadação) e toda a despesa (gastos)
estará acessível pela rede mundial de computadores. Com
o Transparência, quando o órgão público confirmar
sua intenção de compra e pagamento, com a expedição
da chamada nota de empenho, a informação será publicada
na Internet. O cidadão e a cidadã poderão saber
o nome do vendedor ou prestador do serviço, a descrição
detalhada do produto ou serviço, como a marca, por exemplo, as
quantidades adquiridas, como também o custo unitário e
total do produto ou serviço.
Por exemplo:
A compra de macarrão para a merenda escolar por uma secretaria
de educação. Na hora que a nota for emitida confirmando
a intenção de comprar esse produto, no mesmo instante
poderá ser vista na tela do computador, conectado a Internet,
por qualquer cidadão.
Ele vai saber o número da nota de empenho, a quantidade de macarrão
que a secretaria pretende comprar, qual a marca, o peso do pacote, quanto
custa cada pacote, o valor total da compra e quem é a empresa
que está vendendo para a secretaria.
Com esses dados na mão, o cidadão contribuinte pode comparar
se o macarrão comprado pela secretaria está no preço
de mercado, ou se está mais barato ou mais caro do que aquele
que o consumidor compra na venda. Se estiver mais caro, com indício
de superfaturamento, poderá fazer uma denúncia ao Ministério
Público e a compra pode ser suspensa já que ainda não
foi paga.
Todas as compras e gastos, licitados ou não, serão divulgados
desta forma.
Hoje, já temos alguns portais de transparência em algumas
pequenas prefeituras do interior do Brasil, que o implantaram por vontade
política do administrador. Há também o Portal Transparência
do Governo Federal, que representa um avanço importante para
a fiscalização dos gastos públicos.
Muita gente pode, com razão, estar se perguntando: Por que criar
uma lei para publicar as contas públicas na Internet se isso
já está sendo feito?
Por que, entre o Projeto Transparência, que estamos para
votar, e os portais que já existem há quatro grandes diferenças.
A primeira: todos os órgãos públicos
– prefeituras, câmaras municipais, governos estaduais, assembléias,
governo federal, Câmara, Senado, tribunais, ... serão obrigados
a expor suas contas na Internet. Haverá uma lei para isso. Hoje,
só publica as contas do órgão público o
administrador que, por vontade própria, torna real sua vontade
política.
A segunda: Pelo projeto transparência, a exibição
na Internet ocorre em tempo real, automaticamente, no momento em que
a nota de empenho é lançada no sistema de administração
de gastos dos órgãos públicos. Nos demais não
é em tempo real. No Portal Transparência, do Governo Federal,
a atualização ocorre a cada 30 dias, mas há desatualizações
de mais de 60 dias.
A Terceira: O Projeto Transparência obriga
a publicação da compra antes de efetivar o pagamento,
o que torna possível até cancelá-la. Nos portais
atuais, publica-se depois que a compra e o pagamento já estão
finalizados.
A Quarta: o detalhamento proporcionado pelo Projeto
Transparência chega até o custo, marca e volume unitário
do produto comprado em determinada nota fiscal, além do volume
total, data da compra e nome do fornecedor, permitindo a fiscalização
pela comparação. No Portal Transparência, do Governo
Federal, por exemplo, é publicado apenas o valor total da nota,
a data da compra e o fornecedor. Não é possível
saber o que e quanto foi comprado, o custo e o volume unitário
e total nem a marca do item comprado. Essa falta de detalhamento dificulta
ao cidadão comum comparar dados referentes à compra para
detectar, por exemplo, o superfaturamento.
A aprovação do projeto 217/2004, o Projeto Transparência,
é uma vontade de toda a sociedade. Existem manifestações
favoráveis à sua implantação, com força
de lei, em todo o país. Entidades da sociedade civil já
se manifestaram abertamente pela sua aprovação.
Durante todo o ano passado, eu me reuni com diversas entidades apoiadoras
da proposta:
AJUFE – Associação dos Juizes Federais do Brasil
ABI- Associação Brasileira de Imprensa
OAB – Ordem dos Advogados do Brasil
ANPR – Associação Nacional dos Procuradores da
República
CNBB - Conferência Nacional dos Bispos do Brasil
CONAMP – Associação Nacional dos Membros do Ministério
Público
AMB –Associação dos Magistrados Brasileiros
CNI – Confederação Nacional das Indústrias
FECOMERCIO- Federação do Comércio do Distrito
Federal
FIBRA- Federação das Indústrias do Distrito Federal
PGR – Procuradoria Geral da República
CGU – Controladoria Geral da União
ONG Transparência Brasil
que já apresentaram ao presidente Arlindo Chinaglia e aos colegas
parlamentares o anseio da sociedade organizada.
Nesta Casa, além da Frente Parlamentar para Combate à
Corrupção, que reúne mais de 150 deputados, o presidente
Chinaglia manifestou publicamente sua vontade de ver aprovado o Projeto
Transparência. Os líderes dos partidos da base do governo
e da oposição com quem conversei são favoráveis
ao projeto.
Alguns escândalos, revelados em operações da Polícia
Federal, como a Anaconda, o Propinoduto, a Pororoca, a Antídoto,
a Sanguessuga, e agora os cartões corporativos do governo federal,
do governo do estado de São Paulo e de outros estados, mostram
como o mau uso dos recursos públicos em proveito particular é
recorrente.
Junto com esta constatação, surge a necessidade de que
os mecanismos de controle democrático do orçamento público
sejam ampliados, como declaram os apoiadores do projeto Transparência:
O alcance do PLP 217/2004 faz com que o preceito constitucional que
diz que “Todo o poder emana do povo, que o exerce por meio de
representantes eleitos ou diretamente”, seja realizado na sua
plenitude. O povo exerce o poder indiretamente através de nós,
representantes legítimos de sua vontade. O referido projeto possibilita
o exercício direto do poder pelo povo. Isso porque cada cidadão
terá a oportunidade de acompanhar para onde estão indo
os recursos arrecadados e como estão sendo gastos pelos órgãos
públicos. Essas informações são fundamentais
para que a coletividade possa exercer, de forma consciente, a fiscalização
em defesa de seus interesses, em nome da soberania popular.
O projeto Transparência é uma medida simples, inovadora
e de custo baixíssimo, que tem muito a oferecer à sociedade
brasileira. Tornará mais participativa a nossa democracia. Aproximará
o administrador do cidadão. Instituirá uma ferramenta
que coíbe a corrupção e permite à classe
política se reabilitar perante a sociedade. Por isso acredito
no apoio dos nobres pares para a aprovação do PLP 217/2004.
Necessário, urgente, imprescindível ao aperfeiçoamento
da democracia brasileira.
Peço, senhor presidente, a divulgação nos órgãos
de comunicação desta Casa.
Muito obrigada.
Deputada Federal Janete Capiberibe - PSB/AP