Dom
Aristides, 13 anos de saudades
Artigo de Edgar Rodrigues
“Sempre me impressionou o seu olhar de fé, a sua capacidade
de ler cada evento à luz do plano de Deus, a sua vibração
e solicitude por todas as Igrejas...”. É assim que o
cardeal Carlo Maria Martini lembra dom Aristides Pirovano, morto há
13 anos, em 3 de fevereiro de 1997. A sua vida foi uma contínua
"aventura", com a finalidade de servir ao próximo,
sobretudo a quem se encontrasse em dificuldade.
DURANTE A GUERRA
Sua "aventura" se iniciou durante a Segunda Guerra Mundial,
ao colaborar com as forças de resistência de Erba, sua
cidade natal, na condução de judeus e antifascistas
à Suíça. Devido a esta ação (de
resistência), foi detido e encarcerado no presídio de
São Vitório, em Milão, onde, três meses
depois, foi libertado, graças à intervenção
do cardeal Schuister, arcebispo de Milão. Continuou, no final
da guerra, a ajudar tropas alemãs e fascistas a evitarem represálias
e atos de vingança. Preocupava se com a pessoa humana, qualquer
que fosse a sua situação política e social. Seu
caráter e a fama de "combatente" não o detinham
diante de nenhuma dificuldade.
Embarcado para o Brasil em 1946, padre Aristides empreendeu rapidamente
diversas atividades sociais e educativas em favor das populações
miseráveis da Amazônia. Seu compromisso eclesial não
ficava para trás. Quando se tornou necessário organizar
pastoralmente o território do atual estado do Amapá,
a escolha recaiu sobre ele que, no início, foi nomeado administrador
apostólico e, em seguida, bispo de Macapá. Corria o
ano de 1955. Durante dez anos, dom Pirovano promoveu, organizou e
estimulou a formação religiosa e a vida eclesial da
diocese de Macapá. Naquele período, foi significativo
o seu encontro com o doutor Marcello Candia, industrial milanês,
que, exatamente através de dom Pirovano, descobriu o caminho
para um trabalho pessoal, como leigo missionário, em favor
dos marginalizados do norte do Brasil, principalmente os hansenianos
(leprosos). A colaboração recíproca entre as
duas grandes figuras humanas produziu muitos frutos, que ainda hoje
são um instrumento de solidariedade para tanta gente.
UM LONGO SERVIÇO COMO "GUIA" DO PIME
As suas qualidades e capacidades humanas e cristãs valeram
lhe, em 1965, a eleição para Superior Geral do Pime.
O período era muito conturbado, de contestações
e desafios em todos os níveis, e dom Pirovano soube enfrentá
los com seu típico estilo missionário. Por doze anos,
teve a coragem, a constância e a humildade de percorrer a difícil
estrada do pós-Concílio Vaticano 11. Visitou todas as
missões do Pime e, com sua experiência, soube avaliar
e orientar o trabalho de muitos missionários.
Durante os dois mandatos como Superior Geral, deu início a
uma colaboração efetiva com algumas dioceses italianas
para uma ação missionária delas na África.
Seu encontro com a complexa realidade da Ásia entusiasmouo,
a ponto de pensar em um trabalho pessoal naquele continente. A história,
entretanto, tomou outros rumos, mas certamente a sua abertura ao mundo
missionário marcou o Pime, inclusive em suas escolhas posteriores.
RETORNO À MISSÃO
Em 1977, retornou à Amazônia, não mais com a
responsabilidade de bispo, mas como capelão do leprosário
de Marituba, uma das iniciativas que havia empreendido com Candia.
Iniciou, desta forma, a penúltima etapa de sua aventura, inserido
em um leprosário que, com o tempo, capacidade e conhecimento,
transformou se em ambiente de vida serena e estimulante para muitos
de seus hóspedes. Foi um período rico de experiências
e de iniciativas, fruto de seu estilo próprio de viver a missão,
a de um bispo jamais cansado de consumir a própria vida, com
generosa dedicação ao próximo.
Durante aqueles anos, padre Aristides, como gostava de ser chamado,
já passando dos setenta anos, convidou uma Congregação
especializada na assistência aos doentes, a fim de garantir
um futuro ao leprosário de Marituba. Em 1991, os Pobres Servos
da Divina Providência assumiram a responsabilidade do leprosário.
A ÙLTIMA ETAPA
Maltratado por um tumor, Pirovano enfrentou com serenidade e realismo
este período. "Para ele, ser missionário significava
enfrentar as situações difíceis, partir do zero,
daquilo que falta; colocar se dentro da situação para
transformá la e transformá la bem". É este
o conselho que dom Aristides deixa a todos nós. E é
bem este o seu estilo particular e significativo de vida que motivou
a Associação dos Amigos de dom Pirovano, de Erba, a
solicitar a abertura da causa de sua beatificação. A
sua grande fé, a atenção aos necessitados, o
empenho para a evangelização, a capacidade e serenidade
para enfrentar as dificuldades, são elementos que testemunham
o seu trabalho e a escolha radical para a missão. Dom Pirovano
permanece como símbolo e grande exemplo a todos os missionários
do Pime. Seu olhar e a abundante barba branca dos últimos tempos,
nada perderam do entusiasmo ao qual se aplicara desde o início
da vida missionária. 0 segredo de tudo isso está nas
palavras com as quais Adalúcio Calado, seu amigo leproso de
Marituba, o recorda: "Buscava o Senhor acima de tudo. A sua fé
alcançava a máxima expressão nas atividades que
realizava em nosso favor e no interesse que demonstrava a cada um
de nós". Este seu programa de vida, além de ser
uma viva lembrança da sua presença para nós,
permanece como um exemplo a todos os que amam a missão.