Mandioca em números

Raul Tabajara - [email protected]

Li com respeito e admiração o artigo do grande Édi Prado sobre a mandioca que está sob suspeita de causar bócio nos papos dos consumidores e a um passo de ser usada para produção de álcool combustível humano e automobilístico. Como sempre, o velho e o bom Édi, continua mestre na arte de manusear as palavras para transmitir os belos e humorísticos pensamentos de forma inteligente. E aproveitando a "deixa" quero realizar algumas considerações sobre a produção da mandioca no Brasil e no Amapá. E porque não no Planeta?

Mandioca em números

Brasil é o maior produtor de mandioca do continente com 26 milhões de toneladas em 2008, e a mandioca sempre foi o maior volume de produção após a cana-de-açúcar, mas nos últimos anos a cultura perdeu essa posição para o milho e a soja. A produção nacional aumentou 15,3 % no período de 2000 a 2008 e está assim distribuída por região do País: Nordeste (47%), Norte (25%), Sul (17%), Sudeste (7%) e Centro-Oeste (4%). Em âmbito mundial, a mandioca é uma das principais culturas agrícolas, com produção acima de 160 milhões de toneladas/ano. Entre as raízes, perde apenas para a batata e encontra-se entre os cinco principais produtos alimentares (trigo, arroz, milho, batata, cevada e mandioca). Dentre os continentes, a África é a maior produtora mundial (53,32%), seguida da Ásia (28,08%), América (18,49%) e Oceania (0,11%). Quanto ao rendimento médio, destacam-se a Ásia (14,37 toneladas por hectare), a América (12,22 t/ha), a Oceania (11,57 t/ha) e a África (8,46 t/ha).

A farinha, principal derivado da mandioca, é consumida em todo o Brasil, especialmente pela população de baixa renda. O consumo médio de farinha é de aproximadamente 18 kg/habitante/ano (60 kg equivalente raiz). Atualmente, cerca de 85% da produção de mandioca são destinados à fabricação de farinha e amido e o restante vai para consumo in natura (raízes frescas) e indústrias de congelados.

Mandioca no Amapá

Com relação ao Amapá, posso afirmar que nunca antes na história desse Estado, produziu-se tanta mandioca como no ano de 2008. Foram quase 100 mil toneladas de raiz obtida em mais de 9 mil hectares. Em 2000, a produção foi de 48 mil toneladas em 5 mil hectares, isso significa que em quase dez anos a produção de raiz e a área colhida de mandioca dobrou. Esse crescimento ocorreu em decorrência do aumento da área colhida, pois o rendimento médio não se alterou muito, sendo 9.500 kg/ha em 2000 contra 10.428 kg/ha agora em 2008, correspondendo a 70 % da média nacional que é de 14.000 kg / ha.

Temos em nosso Estado experimentos onde a área a ser cultivada foi mecanizada, realizou-se a correção do solo, adubação, aplicação de herbicida e utilizou-se o método de propagação rápida, que é diferente do plantio tradicional, em vez de se cultivar a maniva-semente, planta-se a mudas. A experiência mostrou que é possível alcançar uma produtividade entre 25 a 40 toneladas por hectare. A produtividade média dos diversos municípios do Estado varia entre 10 a 12 toneladas/hectare.

Mandioca e a importância economia e social

A mandioca no Amapá continua sendo de uma importância econômica e social muito grande e ao mesmo tempo pouco valorizada, tanto pelos economistas que não observam o capital que a cultura gira, como pelos profissionais da área social, que pouco observam a contribuição da mesma para a manutenção das famílias que ainda continuam nas áreas rurais e que fazem uso desta como fonte de renda e alimentos.

Como exemplo da importância econômica, lembro que a soma dos valores das produções das principais culturas do Amapá (banana, goiaba, laranja, mamão, maracujá, arroz, cana de açúcar, feijão, mandioca, milho, abacaxi e melancia) foi de 110 milhões de reais em 2007. A mandioca nesse mesmo ano produziu aproximadamente 92 mil toneladas de raiz, o que equivale, sendo o preço médio de R$ 0,80 / kg, ao valor de mais de 80 milhões de reais, isto representa mais de 70 % do valor da produção da agricultura no ano de 2007.

O valor total da produção do setor agropecuário em 2007 girou em torno de 243 milhões (incluindo a silvicultura, pesca e pecuária) e a mandioca representa mais de um terço do valor de tudo que é produzido no setor primário. Nas feiras dos agricultores realizadas duas vezes por semana em Macapá, em 2007, foram comercializados mais de 700 mil quilos de goma de mandioca ao preço de R$ 1,50 /kg totalizando mais de 1,4 milhões de reais. Foram ainda comercializados mais de 500 mil litros de tucupi, 200 mil quilos de farinha de tapioca, 1.000 toneladas de macaxeira e agora um novo mercado se abre para a folha da mandioca cozida utilizada no preparo de maniçoba. Lembro que esses subprodutos da industrialização da mandioca apresentam apenas uma pequena parcela do seu potencial explorado.

Produção insuficiente para o mercado consumidor

De acordo com a mais recente Pesquisa de Orçamento Familiar - POF verificou-se que o consumo per capita de farinha de mandioca pelo Amapaense ficou em 32 kg/pessoa/ano, porém quando verificamos por município, observamos diferenças significativas. Em Macapá, por exemplo, o consumo fica entre 15 a 20 kg/pessoa/ano, em Tartarugalzinho chega a 45 kg/pessoa/ano, Pedra Branca, Oiapoque e Mazagão estão na faixa de 60 a 70 kg/pessoa /ano.

Das quase 100 mil toneladas de raiz de mandioca colhidas em 2008, 80 % foram para a industrialização da farinha, que gerou 25 mil toneladas. Para suprir a necessidade de consumo de farinha em todo o Estado, seria necessário que 20 mil toneladas de farinha estivessem no mercado, porém somente 15 mil toneladas chegam ao consumidor, ficando praticamente 10 mil toneladas para o consumo nos próprios estabelecimentos. Essa diferença de cinco mil toneladas é que está sendo importada principalmente de Santarém e Altamira.

A farinha produzida no Amapá é praticamente torrada manualmente e com baixa produtividade diária. A farinha importada é industrializada em máquinas que trabalham todos os dias da semana com uma alta rentabilidade, o que faz com que o preço seja bem abaixo da produzida no Amapá, porém com uma qualidade bem inferior. Encontramos no mercado saco de 60 kg de farinha amapaense por R$ 60,00 enquanto a farinha importada é encontrada por R$ 40,00 reais o equivalente a um saco de 60 kg.

Mandioca, o Bócio e o Câncer

Há variedades de mandioca, chamadas "bravas" cujas raízes, quando ingeridas cruas ou mesmo cozidas, podem provocar intoxicações, porque contém uma substância (linamarina) capaz de produzir ácido cianídrico (HCN) quando em presença dos ácidos ou enzimas do estomago. As variedades "mansas" (aipins ou macaxeiras) também o contêm, porém em pequena quantidade. Ao realizar uma torrefação bem feita elimina-se o veneno por volatilização, e isso acontece principalmente quando o trabalho é manual. Nas industrializadas essa fase é feita por maquinas, o controle da umidade não é observada com todo o cuidado, e há ainda a ganância de alguns que não querem perder peso e assim ganhar um pouco mais.

A ingestão prolongada dessa farinha mal torrada, com teor significativo dessa substancia (linamarina), pode provocar câncer de estomago. Há médicos em Macapá que observaram um alto índice desse tipo de câncer em pessoas abaixo de 40 anos. O que essas pessoas têm em comum além da idade é que são grandes consumidores de farinha desse tipo.

Quanto ao Bócio, o problema é a falta de Iodo que é combatido pela ingestão de sal industrializado que já vem com mesmo na sua composição. Acredito que algum componente da mandioca facilite a instalação do bócio na ausência de sal iodado, fato que pode ocorrer no interior da Amazônia, onde não há energia elétrica e o consumo de sal grosso (não iodado) ainda é utilizado em larga escala para a conservação dos alimentos.

Mandioca e o álcool

Até pouco tempo, eram obtidos cerca de 80 litros de álcool a partir de 1 tonelada de cana. Hoje temos notícias que com novas tecnologias já estão obtendo até 250 litros. Também é sabido que a partir de 1 tonelada de mandioca glicosada, que contém alta concentração de açucares é possível obter até 600 litros de álcool.

Há aí uma grande oportunidade de negócios e também uma grande preocupação, já que produção da mandioca sendo direcionada para produção de álcool em vez de alimentos poderá, aí sim, causar papo nas pessoas, assim teremos mais papudinhos pela Cidade como quis dizer o Edi.

Em decorrência dos preços, algumas pessoas lá pelas bandas do Chapéu de Palha, Cornélio, Vacaria, Igarapé das Mulheres, Jacareacanga, sobradinho, Cobrinha Verde, Lago dos Sonhos e outros já estão adquirindo sacos de farinha importada e dando uma nova torrada e revendendo a cuaca a litro, com o preço do quilo daqui.