A Díficil Sustentabilidade


Um sentimento de indignação tomou conta dos amazônidas quando o senhor José Dirceu afirmou que o assassinato da missionária Dorothy Stang (um pouco de sua fantástica história abaixo) foi uma reação à presença do Estado na Amazônia. Pior ainda foram as ações que o Governo Federal adotou para demonstrar que existe política pública para a região. Assim como aconteceu em 1987 por ocasião do assassinato do deputado paraense Paulo Fontelles, o Governo Federal despejou na Amazônia uma tropa armada do exército e da polícia federal. "Ouvimos relatos que os policiais federais que estão lá têm que andar de carona com motoboys. Daqui a pouco têm que usar o carro de um fazendeiro e ficam devendo favor", disse o Presidente da Comissão Pastoral da Terra, Dom Tomás Balduíno. Hoje, o filho de Paulo Fonteles, o advogado Paulo Fonteles Júnior está ameaçado de morte pelos mesmos mandantes e assassinos de seu pai, que continuam livres e impunes!

De sua parte, o Ministério do Meio Ambiente, que continua a ser visto como uma espécie de ONG incrustada na estrutura governamental, de pouco peso político e reduzida dotação orçamentária, deu início a criação de várias áreas protegidas na região, respondendo a pressão das instituições internacionais. Seria muito bom para a Amazônia ter áreas protegidas se a criação dessas áreas fossem uma expressão social voluntária da sociedade amazônica ou mesmo se após criadas fossem implantadas. No Amapá, segundo a Diretora de Ecossistemas do IBAMA a média de servidor por área protegidas é de 1 para cada 250.000 hectares.

As ações do Governo Federal servem apenas para remediar os problemas sócio-ambientais da região. O processo de abertura das fronteiras agrícolas a partir da década de 1970 e tendo o INCRA como importante promotor, acarretou situações em que colonos trazidos de outras partes do país ficassem expostos a choques com latinfundiários, madeireiros e com as condições ecológicas adversas e desconhecidas. O Governo Federal abandonou esses colonos que acreditavam poder reconstruir suas vidas através da promessa de uma política de reforma agrária para a região. No Governo Fernando Henrique Cardoso foi idealizada a figura dos Planos de Desenvolvimento Sustentável (PDSs) para os assentamentos criados na Amazônia, como uma possível alternativa para manter o homem no campo em condições dignas, evitar a expansão do desmatamento e da exploração ilegal de madeira. A missionária Dorothy trabalhava para implantar um PDS num assentamento no Pará, fazendo o papel que o Governo nunca assumiu.

O presidente da Comissão Pastoral da Terra, Dom Tomás Balduíno, acusou o Governo Federal, o Governo do Pará e o agronegócio pela tensão na região. Dom Tomás afirmou que o governo de Luiz Inácio Lula é um "fracasso" na área social e o assassinato da missionária Dorothy Stang confirma os problemas enfrentados. A situação atual é de descontrole governamental, pois não se pode reagir aos problemas de uma região como a Amazônica somente em situações de conflitos extremos. Paulo Fontelles, Chico Mendes, Dorothy Stang....

Marco Antonio Chagas, mestre em desenvolvimento sustentável
(marco.chagas@uol.com.br)

Dorothy Stang

Irmã Dorothy Mae Stang, freira norte-americana, naturalizada brasileira, nasceu em Dayton, Ohio, nos Estados Unidos, no dia 7 de junho de 1931. Pertencia às Irmãs de Nossa Senhora de Namur, congregação religiosa fundada em 1804 por Santa Julie Billiart (1751-1816) e Françoise Blin de Bourdon (1756-1838). Esta congregação católica internacional reúne mais de duas mil mulheres que realizam trabalho pastoral nos cinco continentes.

Ingressou na vida religiosa 1948, emitiu seus votos perpétuos – pobreza, castidade e obediência – em 1956. De 1951 a 1966 foi professora em escolas da congregação: St. Victor School (Calumet City, Illinois), St. Alexander School (Villa Park, Illinois) e Most Holy Trinity School (Phoenix, Arizona).

Em 1966 iniciou seu ministério no Brasil, na cidade de Coroatá, no Estado do Maranhão. Irmã Dorothy estava presente na Amazônia desde a década de setenta junto aos trabalhadores rurais da Região do Xingu. Sua atividade pastoral e missionária buscava a geração de emprego e renda com projetos de reflorestamento em áreas degradadas, junto aos trabalhadores rurais da Transamazônica. Seu trabalho focava-se também na minimização dos conflitos fundiários na região.

Atuou ativamente nos movimentos sociais no Pará. A sua participação em projetos de desenvolvimento sustentável ultrapassou as fronteiras da pequena Vila de Sucupira, no município de Anapu, no Estado do Pará, a 500 quilômetros de Belém do Pará, ganhando reconhecimento nacional e internacional.

A religiosa participava da Comissão Pastoral da Terra (CPT) da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) desde a sua fundação e acompanhou com determinação e solidariedade a vida e a luta dos trabalhadores do campo, sobretudo na região da Transamazônica, no Pará. Defensora de uma reforma agrária justa e conseqüente, Irmã Dorothy mantinha intensa agenda de diálogo com lideranças camponesas, políticas e religiosas, na busca de soluções duradouras para os conflitos relacionados à posse e à exploração da terra na Região Amazônica.

Dentre suas inúmeras iniciativas em favor dos mais empobrecidos, Irmã Dorothy ajudou a fundar a primeira escola de formação de professores na rodovia Transamazônica, que corta ao meio a pequena Anapu. Era a Escola Brasil Grande.

Irmã Dorothy recebeu diversas ameaças de morte, sem deixar intimidar-se. Pouco antes de ser assassinada declarou: «Não vou fugir e nem abandonar a luta desses agricultores que estão desprotegidos no meio da floresta. Eles têm o sagrado direito a uma vida melhor numa terra onde possam viver e produzir com dignidade sem devastar.»

Cidadã brasileira e norte-americana. Cidadã Paraense por ato da Assembléia Legislativa do Estado do Pará que lhe concedeu o título de «Cidadã do Pará» em 23 de junho de 2004 (Decreto Legislativo n.º 27, projeto de autoria do Deputado Airton Faleiro). Ainda em 2004 recebeu premiação da Ordem dos Advogados do Brasil – Seção Pará pela sua luta em defesa dos direitos humanos.

Irmã Dorothy Stang foi assassinada, com sete tiros, aos 73 anos de idade, no dia 12 de fevereiro de 2005, às sete horas e trinta minutos da manhã, em uma estrada de terra de difícil acesso, a 53 quilômetros da sede do município de Anapu, no Estado do Pará, Brasil.

Segundo uma testemunha, antes de receber os disparos que lhe ceifaram a vida, ao ser indagada se estava armada, Irmã Dorothy afirmou «eis a minha arma!» e mostrou a Bíblia Sagrada. Leu ainda alguns trechos das Sagradas Escrituras para aquele que logo em seguida lhe balearia.

No cenário dos conflitos agrários no Brasil, seu nome associa-se aos de tantos outros homens, mulheres e crianças que morreram e ainda morrem sem ter seus direitos respeitados. O corpo da missionária está enterrado em Anapu, Pará, Brasil, onde recebeu e recebe as homenagens de tantos que nela reconhecem as virtudes heróicas da matrona cristã.

Disponível em: http://pt.wikipedia.org/wiki/Dorothy_Stang. Consulta em 20/02/2005.