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Espaço
Aberto=Sofisma ambiental
XICO
GRAZIANO
Coitado do eucalipto. Inventaram que a árvore trabalha para o mal.
No passado, amargou a triste fama de secar o solo onde vivia. Agora, imputam-lhe
a sina de causador da miséria. Uma barbaridade.
Vem de longe essa confusão entre o homem, a sociedade e o mundo
natural. Na história da filosofia e, mais tarde, no campo das ideologias,
sempre se questionaram as origens da desigualdade. Rousseau perguntava:
as pessoas nascem más ou são deformadas pela sociedade?
Na agricultura, o determinismo natural origina um sofisma.
Parece óbvio, mas o raciocínio surge freqüentemente,
como se verifica agora com os reflorestamentos. O resultado, não
poderia deixar de ser, machuca a inteligência.
Há quem, décadas atrás, tenha sugerido que a cana-de-açúcar
causava pobreza.
Com base nas características coloniais do sistema agrário-exportador,
que exigia a monocultura, a grande propriedade e o trabalho escravo, a
cultura acabou esconjurada. Não era planta "democrática".
Quando se demonstrou que na Austrália os cultivos canavieiros,
ao contrário daqui, se faziam em pequena escala, o infeliz ardil
determinista se desmanchou. Claro estava que são os homens, e não
as plantas ou animais, os responsáveis pelas injustiças
do mundo.
As falácias não cessam. Os leitores, certamente, já
ouviram dizer que o boi serve aos latifundiários, assim como a
soja causa devastação na Amazônia.
Pior, degradam por aqui apenas para alimentar na Europa.
Quanta besteira!
Milhões
de pequenos agricultores brasileiros criam gado, aproveitando-se de sua
carne ou do seu leite para sobreviver. Quando a boiada está nas
mãos da ganância, há que se esquecer o bicho e lembrar
do sistema econômico.
Especulação de terras não depende do boi, mas sim
do processo inflacionário e do mercado de capitais. Aos animais
interessa apenas procriar em paz.
Com a soja, tacham-na de cultura dos maiorais. É verdade que lá
no Mato Grosso ou no distante Maranhão quem abre as fronteiras
agrícolas são agricultores capitalizados, profissionais
do melhor gabarito. Entretanto, no Paraná ou no Rio Grande do Sul,
a soja advém dos pequenos e médios produtores, cem por cento
familiares, conduzindo lavouras com alta tecnologia, elevada produtividade.
Pequenos se fortalecem com o sistema cooperativo, vencem as barreiras
do mercado, lucram como qualquer empresário.
Quem afirma que a soja é cultura de grande está desinformado
ou mentindo.
Além do mais, sempre é bom repetir, a maioria das donas
de casa brasileiras cozinham com óleo de soja, enquanto que muitos
grã-finos, desses que condenam a leguminosa, se utilizam de azeite
estrangeiro. Deplorável.
Nada, todavia, se compara à chicana que grupos ambientalistas aliados
ao MST inventaram para agredir a silvicultura, declarando inimigo o eucalipto.
O pérfido ambientalismo pariu ainda um logro lingüístico:
o deserto verde.
As árvores utilizadas nos reflorestamentos são, é
verdade, plantas exóticas.
Pinus e eucaliptos vieram da Austrália e da Europa.
Adaptaram-se tão bem ao ecossistema tropical que se tornaram campeões
mundiais de produtividade, provocando
inveja em seus ancestrais.
Exóticos também são os arbustos de café, trazidos
da Etiópia. Como o arroz, o milho, a pimenta-do-reino. E daí?
Poucos sabem, mas o alimento mais típico da Alemanha, a batata,
é originário aqui da América. Nacional, mesmo, só
a mandioca, cultivada pelos índios tupiniquins.
Quando as primeiras mudas de eucalipto cresceram em solos brasileiros,
logo se vislumbraram suas enormes vantagens culturais. Verificou-se desde
cedo que as árvores se adaptavam bem em solos fracos, arenosos,
que na época não se prestavam para plantar café e
cana-de-açúcar.
Assim, os hortos florestais da Fepasa, em São Paulo, vingaram em
manchas de solos considerados ruins. O eucalipto crescia milagrosamente.
Quando plantado em várzeas, úmidas e férteis, subiram
tão vigorosamente que drenaram os locais. Daí surgia sua
fama de grande consumidor de água.
Com a evolução da silvicultura, as pesquisas concluíram
que o eucalipto consome tanta água quanto qualquer outra espécie.
Ocorre que nenhuma delas cresce e produz madeira rapidamente igual a ele.
Tal performance, por certo, não agrada aos empresários do
Canadá, da Suécia ou dos Estados Unidos, os grandes concorrentes
no mercado internacional de papel e celulose. Aqui, no País, os
eucaliptais estão maduros para corte em seis anos; lá demoram
o triplo, e produzem menos. Incomoda os ricos.
Na década de 1970, incentivos fiscais foram direcionados para os
reflorestamentos. O forte estímulo propiciou surgirem os grandes
conglomerados das fábricas de papel, celulose e madeira. Atualmente,
4,8 milhões de hectares estão ocupados com florestas plantadas
no País, 70% com eucaliptos, 30% com pinus. O setor gera 500 mil
empregos diretos, distribuídos em 600 municípios, e exporta
US$ 2,8 bilhões. Problema ou solução?
Estudos científicos recentes comprovam que microbacias hidrográficas
ocupadas com vastos eucaliptais apresentam riqueza de avifauna, ou seja,
passarinhos, maior que outros ecossistemas tropicais. Isso somente pode
ocorrer num ambiente rico do ponto de vista ecológico. Seja na
mata de eucaliptos e em seu sub-bosque, seja nas áreas preservadas
em seu entorno, preserva-se a biodiversidade.
É inusitado: para cada hectare plantado com madeira exótica,
outro é mantido com floresta nativa. Nenhum setor da agropecuária
age assim. A cambucira, o tiziu, o tico-tico e a rolinha agradecem.
Xico
Graziano, agrônomo, foi presidente do Incra (1995) e secretário
da Agricultura de São Paulo (1996-98)
E-mail: xicograziano@terra.com.br
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