AINDA
NÃO FOI AO PRACUUBA? ENTÃO VÁ.
cesarbernardo@bol.com.br
Nenhum amapaense deveria morrer sem conhecer a cidade de Pracuuba.
Como os muçulmanos vão a Meca pelo menos uma vez na
vida, também nós deveríamos ir ver e percorrer
os lagos e ilhas de lá, navegar sem pressa o braço
do rio Flexal até o Lago Comprido.
Tudo
que veríamos, dos peixes e tracajás dentro dágua
até as plantas na terra e os pássaros pescadores no
ar, seria parte da dádiva de Deus para com aquele lugar.
Lá, tudo que se vê embevece e enche a alma da gente
de realidade simples e de tradições enriquecedoras.
Os
lagos estão cheios de tracajás e tartarugas, que o
projeto TAMAR , do Ibama, devolveu àquelas águas.
O tuiuiú, o tauauá, o jaburu, a colhereira, os guarás,
os mergulhões, as garças e as ciganas se misturam
tons de cores cinza, marron, branca, lilás, vermelha, rósea
no ar, nas margens dos cursos dágua e bem dentro dos
olhos da gente.
O trançado
que fazem as raízes da ouratheia, tornam o altiplano das
ilhas uma paisagem futurista muito calma, parecendo eterna. O isolamento
a que nos induzem essas paisagens empurram para o esquecimento o
cotidiano aflito e pesaroso que já é a impressão
digital do homem urbano.
E tem
o vento limpo e forte que não deixa o corpo perceber o quanto
está quente o sol. Muito depois, a pele enegrecida em brasa
avisará que se esteve à deriva nos tropicalíssimos
lagos do Amapá, dessa vez nos do Pracuuba.
A pesca
e o gado são as principais ocupações dos homens,
na referência das coordenadas geográficas W-0521125
e S-0187520, estão os pescadores mais originais da costa
norte do Amapá, distantes, porém vizinhos dos seus
colegas pescadores do salgado que pululam o mar atlântico
lá pelas ribanceiras da Ponta da Pescada, batida dia e noite
pelas ondas que entram no Canal do Carapaporis, na Ilha do Maracá.
De lá é possível ver o Brasil de longe.
Os
pescadores daqui das águas doces pracuubenses são
homens tranqüilamente rudes, já pouco cuidadosos com
o ambiente onde pescam. Mas são bons contadores de histórias
e causos bonitos, emocionantes, principalmente quando "explicam"
a ilha e o poço da Belmira, colocando muita simplicidade
nos relatos que relacionam onças descendo barrancas na caça
a cavalos e cavaleiros.
De
repente o dia passou, já se está dentro da tarde,
ou melhor, engolido pelo sol declinante, grande, vermelho como um
guará. Então, ruma-se para a cidade de Pracuuba, ainda
um vilarejo mais típico que pobre, onde se vê em quase
todas as residências uma rede de pesca estendida, sendo remendada
nos buracos que o peixe grande e os galhos de árvores mortas
fizeram.
Nos
horários das refeições, o cheiro bom de peixe
fresco frito se espalha na atmosfera empurrando a gente para a cervejinha
gelada que se pode tomar à sombra dos alpendres dos minúsculos
botequins.
Coisa
boa é um botequim no Pracuuba, não raro se pode ver
os animais de monta atados ao corrimão à espera dos
vaqueiros que, depois da cachacinha e dos causos, vão sair
para pastorear os grandes rebanhos de búfalos que pastejam
a relva macia que se estende a perder de vista sobre a grande planície
em volta. Depois é hora de dormir, só com o cricrilar
dos grilos noturnos.