AINDA NÃO FOI AO PRACUUBA? ENTÃO VÁ.

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Nenhum amapaense deveria morrer sem conhecer a cidade de Pracuuba. Como os muçulmanos vão a Meca pelo menos uma vez na vida, também nós deveríamos ir ver e percorrer os lagos e ilhas de lá, navegar sem pressa o braço do rio Flexal até o Lago Comprido.

Tudo que veríamos, dos peixes e tracajás dentro d’água até as plantas na terra e os pássaros pescadores no ar, seria parte da dádiva de Deus para com aquele lugar. Lá, tudo que se vê embevece e enche a alma da gente de realidade simples e de tradições enriquecedoras.

Os lagos estão cheios de tracajás e tartarugas, que o projeto TAMAR , do Ibama, devolveu àquelas águas. O tuiuiú, o tauauá, o jaburu, a colhereira, os guarás, os mergulhões, as garças e as ciganas se misturam tons de cores cinza, marron, branca, lilás, vermelha, rósea no ar, nas margens dos cursos d’água e bem dentro dos olhos da gente.

O trançado que fazem as raízes da ouratheia, tornam o altiplano das ilhas uma paisagem futurista muito calma, parecendo eterna. O isolamento a que nos induzem essas paisagens empurram para o esquecimento o cotidiano aflito e pesaroso que já é a impressão digital do homem urbano.

E tem o vento limpo e forte que não deixa o corpo perceber o quanto está quente o sol. Muito depois, a pele enegrecida em brasa avisará que se esteve à deriva nos tropicalíssimos lagos do Amapá, dessa vez nos do Pracuuba.

A pesca e o gado são as principais ocupações dos homens, na referência das coordenadas geográficas W-0521125 e S-0187520, estão os pescadores mais originais da costa norte do Amapá, distantes, porém vizinhos dos seus colegas pescadores do salgado que pululam o mar atlântico lá pelas ribanceiras da Ponta da Pescada, batida dia e noite pelas ondas que entram no Canal do Carapaporis, na Ilha do Maracá. De lá é possível ver o Brasil de longe.

Os pescadores daqui das águas doces pracuubenses são homens tranqüilamente rudes, já pouco cuidadosos com o ambiente onde pescam. Mas são bons contadores de histórias e causos bonitos, emocionantes, principalmente quando "explicam" a ilha e o poço da Belmira, colocando muita simplicidade nos relatos que relacionam onças descendo barrancas na caça a cavalos e cavaleiros.

De repente o dia passou, já se está dentro da tarde, ou melhor, engolido pelo sol declinante, grande, vermelho como um guará. Então, ruma-se para a cidade de Pracuuba, ainda um vilarejo mais típico que pobre, onde se vê em quase todas as residências uma rede de pesca estendida, sendo remendada nos buracos que o peixe grande e os galhos de árvores mortas fizeram.

Nos horários das refeições, o cheiro bom de peixe fresco frito se espalha na atmosfera empurrando a gente para a cervejinha gelada que se pode tomar à sombra dos alpendres dos minúsculos botequins.

Coisa boa é um botequim no Pracuuba, não raro se pode ver os animais de monta atados ao corrimão à espera dos vaqueiros que, depois da cachacinha e dos causos, vão sair para pastorear os grandes rebanhos de búfalos que pastejam a relva macia que se estende a perder de vista sobre a grande planície em volta. Depois é hora de dormir, só com o cricrilar dos grilos noturnos.