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(CO)OPERAÇÃO AMAZÔNICA
Ministros falam de ambiente mas apostam em negócios
Documento discutido pela Reunião de Chanceleres da Organização
do Tratado de Cooperação da Amazônia ameaça
preservação e comunidades tradicionais ao reforçar
o aspecto econômico e de “oportunidades de novos negócios”
na região, diz delegação venezuelana.
Verena Glass
São Paulo – Nesta terça-feira (14), aconteceu em Manaus
a VIII Reunião de Chanceleres dos países membros da Organização
do Tratado de Cooperação da Amazônia (OTCA), fórum
governamental que congrega Bolívia, Brasil, Colômbia, Equador,
Guiana, Peru, Suriname e Venezuela. A Organização, como
ela mesma se define, tem função de fortalecer e implementar
os objetivos do Tratado de Cooperação da Amazônia,
criado em 1978 para “promover ações conjuntas para
o desenvolvimento harmônico da Bacia Amazônica”. Ainda
segundo ela, a OTCA tem “a convicção de que a Amazônia,
por possuir um dos mais ricos patrimônios naturais do Planeta, é
estratégica para impulsionar o futuro desenvolvimento dos países
e da região; um patrimônio que deve ser preservado, mas essencialmente,
promovido, em consonância com os princípios de desenvolvimento
sustentável”. Fato, porém, é que o documento
apresentado para discussão dos chanceleres enfatiza, acima de tudo,
a “criação de novas oportunidades econômicas”
a partir da megadiversidade amazônica, conversível em “fortaleza
competitiva”.
Pouco operantes e muito burocráticos por um bom tempo, o TCA e
a posteriormente criada OTCA podem, com o encontro de Manaus, definitivamente
passar do nível dos debates de gabinete a atores mais efetivo da
condução de políticas na Amazônia Continental.
Na pauta dos chanceleres, além de questões como segurança
e interlocução dos Estados, as estratégias de integração
regional, pontuadas no Plano Estratégico 2004-2012 - que orientará,
nos próximos anos, as ações da Secretaria-Geral da
Organização, sediada em Brasília – centralizaram
as discussões sobre o projeto a ser ratificado em uma eventual
Reunião Presidencial prevista para de 2006. Mas o caráter
fortemente “comercial” desses debates, que contrasta com o
discurso preservacionista que marca a Organização, está
preocupando a delegação da Venezuela, cujo governo vem afirmando
sistemáticamente a intenção de priorizar políticas
de fortalecimento das comunidades tradicionais e de proteção
dos recursos naturais.
De um lado, ambientalistas e movimentos sociais, principalmente no Brasil,
não negam a importância de um fórum estruturado e
minimamente democrático de decisão das políticas
macro-regionais, aberto ao debate com a sociedade civil e passível
de pressão por parte dos movimentos. “É preferível
que as políticas macro-reginais na Amazônia sejam debatidas
e implementadas no marco da OTCA, em vez de se permitir que instâncias
como a Iniciativa para Integração de Infra-estrutura Regional
Sul-americana (IIRSA, instituição ligada ao Banco Interamericano
de Desenvolvimento – BID) dite, como gostaria, as regras na Amazônia”,
diz Roberto Smeraldi, diretor da ONG Amigos da Terra.
Entre parênteses, aliás, o IIRSA deve se reunir em Manaus,
dia 17, para discutir a construção de grandes projetos como
estradas, usinas de geração de energia, estruturas de telecomunicação
etc. Na mira, a viabilidade de atividades como cultivo de soja, manejo
florestal, pesca e piscicultura, que “constituem uma parte importante
no desenvolvimento do Eixo Amazônico. Os produtos não-madereiros,
cosméticos e fitoterapêuticos são parte do conjunto
de produtos que representam os segmentos de mercados com maiores perspectivas
a curto prazo”, segundo documento do IIRSA.
Voltando às ações da OTCA, segundo a Secretaria-Geral,
a Organização teria avançado em projetos de “levantamento
da sustentabilidade da floresta amazônica, de combate à malária
e controle epidemiológico nas fronteiras, aproximações
concretas com a Coica (coordenação de povos indígenas
da bacia amazônica) em questões de Ordenamento Territorial,
Assentamentos Humanos e Assuntos Indígenas”, entre outros.
O discurso preservacionista também marcou a fala do chanceler Celso
Amorim na coletiva de imprensa que se seguiu à reunião,
cujos resultados inda não foram divulgados.
Por outro lado, porém, as perspectivas de que a Amazônia
se torne um novo eldorado para negócios e investimentos, sustentados
por instalações de grandes suportes infra-estruturais, pode
vir a colocar em perigo o frágil equilíbrio socioambiental
da região, avalia o sociólogo venezuelano Edgardo Lander.
Em uma análise do capítulo do Plano Estratégico
do Tratado de Cooperação Amazônica que trata da conservação
e uso sustentável dos recursos naturais, Lander vê com preocupação
o parágrafo que fala da criação de oportunidades
econômicas que “podem gerar importantes benefícios
a partir de atividades inovadoras que representam segmentos de mercado
com grandes perspectivas a curto prazo”. Mais adiante, aponta o
sociólogo, o documento também afirma que “a Iniciativa
da IIRSA cobra uma maior relevância para a Amazônia no desenvolvimento
dos processos de integração física, das comunicações
e da energia, que permitam aproximar os mercados amazônicos aos
mercados [dos países, mercados que] somam aproximadamente 350 milhões
de consumidores, e destes com os mercados internacionais.”
“Se se trata de criar infra-estruturas para aproximar a Amazônia
aos mercados regionais e internacionais, com todas as implicações
ambientais e impactos amplamente documentados sobre os povos habitantes
desses territórios, que necessidade temos de seguir falando de
um modelo que busca ser sustentável?”. pergunta Lander.
Nesse sentido, Judith Valencia, assessora do chanceler venezuelano Jesus
Perez, acrescenta: “Estamos muito preocupados com a tendência
da OTCA de adotar as diretrizes do IIRSA; parece cada vez mais a mesma
coisa. E à Venezuela preocupa sobremaneira o tratamento sugerido
de fato aos povos indígenas, apesar das reiteradas afirmações
sobre garantias de direitos”. Lander amarra: “Dado que as
vias de penetração são uma das formas de incidência
mais agressivas sobre a selva amazônica, que desencadeia massivos
processos migratórios, expansão da fronteira agrícola,
exploração madeireira etc, não se deve realizar nenhuma
obra de infra-estrutura sem um exaustivo estudo prévio de seu potencial
impacto social e ambiental, e sem uma consulta com as populações
indígenas potencialmente afetadas”.
Comunidades tradicionais
Para Lander e a delegação venezuelana, o documento da OTCA
é muito genérico em relação aos direitos dos
povos indígenas e comunidades tradicionais, ignorando-os, inclusive,
como importantes detentores de conhecimento sobre gestão e preservação
dos recursos naturais e do meio ambiente amazônico, ao se identificar
a “geração e gestão de conhecimento sobre a
realidade regional” somente com “a universidade pública
e os sistemas nacionais de pesquisa”.
“No documento se assume de forma arbitraria (com implicações
coloniais e racistas) que conhecimento é apenas o científico.
Ao identificar o conhecimento científico como o único válido,
se está ‘invisibilizando’ o conhecimento dos povos
indígenas, e estes como sujeitos”, diz o sociólogo.
Segundo ele, no artigo 16 do documento, se afirma que o problema com
os conhecimentos indígenas é, principalmente, a participação
nos benefícios econômicos. “Não é esta
a visão da maior parte dos povos indígenas. Submeter o conhecimento
tradicional indígena e caboclo à lógica ocidental
da propriedade intelectual significa uma transformação brutal
do significado que tem nas cosmovisões e sociedades indígenas.
São os povos indígenas que têm que definir de forma
autônoma como proteger seu conhecimento. Em caso da busca de proveitos
mercantis, são os indígenas que devem definir em que condições
estão dispostos a isso”.
Amazônia para todos
Ao final da reunião desta terça feira, ocorrida a portas
fechadas, o chanceler brasileiro Celso Amorim sugeriu algumas medidas
"democratizadoras" da OTCA. Segundo a Agencia Brasil, Amorim
afirmou que a soberania não é autoritária e prevê
a participação popular. "Somos os guardiães
soberanos de um bem que é de toda a humanidade", explicou.
Indo mais longe, o chanceler também falou de uma possível
integração de outros países como membros observadores
na Organização do Tratado de Cooperação Amazônica,
discutida na reunião. Seriam países fora da América
Latina, com interesse direto na preservação da floresta
que defenderiam os interesses da OTCA e participariam de suas reuniões.
No entanto, Amorim afirmou que ainda precisam ser definidos os critérios
de escolha e as formas de atuação desses países.
O país mais cotado, por enquanto, é a França. "Ela
está ligada à Guiana Francesa, por isso tem interesses genuínos",
explicou.
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