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Contabilidade Ambiental: Relatório para um Futuro Sustentável,
Responsável e Transparente
Por Maria Elisabeth Pereira Kraemer
1 - Introdução
Estamos diante de um novo modelo estratégico, um modelo que tende
a se fortificar nas próximas décadas. Nesse novo ambiente,
os interesses dos acionistas dividem espaços com as demandas da
comunidade e dos clientes, funcionários e fornecedores. É
para esse grupo, os chamados stakeholders, que a empresa do futuro terá
de gerar valor.
Hoje, há uma enorme pressão pela qualidade nas relações.
Atingi-la ou não será um fator determinante para o sucesso
nos negócios. Essa pressão é devida, em parte, ao
poder que as corporações conquistaram nas últimas
décadas. São as empresas, sobretudo as ligadas à
iniciativa privada, que geram empregos e conhecimentos, dominam técnicas
de gestão, dispõem de capital e concentram um número
extraordinário de talento e de pessoas inovadoras que fazem as
coisas acontecerem.
O mundo corporativo tem, portanto, um papel fundamental na garantia de
preservação do meio ambiente e na definição
da qualidade de vida das comunidades de seus funcionários. Empresas
socialmente responsáveis geram, sim, valor para quem está
próximo. E, acima de tudo, conquistam resultados melhores para
si próprias. A responsabilidade social deixou de ser uma opção
para as empresas. É uma questão de visão, de estratégia
e, muitas vezes, de sobrevivência.
Os assuntos ambientais estão crescendo em importância para
a comunidade de negócios em termos de responsabilidade social,
do consumidor, desenvolvimento de produtos, passivos legais e considerações
contábeis. A inclusão da proteção do ambiente
entre os objetivos da administração amplia substancialmente
todo o conceito de administração. Os administradores cada
vez mais têm que lidar com situações em que parte
do patrimônio das empresas é simplesmente ceifada pelos processos
que envolvem o ressarcimento de danos causados ao meio ambiente, independentemente
desses danos poderem ser remediados ou não.
Nesse cenário, é cada vez mais árdua a tarefa do
administrador no tratamento desses assuntos na Contabilidade e sua divulgação.
A complexidade da atividade de certas empresas muitas vezes é fator
que dificulta o tratamento a ser dado no registro e na divulgação
de, principalmente, os chamados passivos ambientais. Este assunto envolve
julgamento e conhecimento específico, daí a necessidade
de envolver não somente a alta administração e a
classe contábil, mas também engenheiros, advogados, juristas,
etc.
Portanto, a participação da Contabilidade é de extrema
importância, pois vai despertar o interesse para as questões
ambientais, ajudando a classe empresarial a implementar, em sua gestão
empresarial, a variável ambiental, não apenas para constar
na legislação, mas por uma verdadeira conscientização
ecológica.
Neste sentido, não podemos ficar para trás, não
podemos perder mais esta oportunidade de nos inserirmos no seio da sociedade,
assumindo uma nova postura como cidadãos e como profissionais perante
a sociedade. Porém, está aí o desafio para nós,
contadores: fazer uma Contabilidade adequada a um modelo ambiental, integrado
e competitivo, que compreenda movimentos econômicos, movimentos
operativos e movimentos ambientais.
2 - O despertar da consciência ecológica na Contabilidade
A Contabilidade, objetivando evidenciar a situação econômico-financeira
das empresas e o desempenho periódico destas, constitui um adequado
sistema de informações quanto à postura ambiental
das entidades.
A 7ª Reunião da ONU evidenciou as normas contábeis
sobre a contabilização dos elementos de proteção
e recuperação ambientais e sobre o nível de divulgação
adequado. IPECAFI apud Ribeiro (1992, p. 67) faz a seguinte observação
sobre a evolução da normatização contábil:
"É interessante verificar a evolução das exigências
com relação à divulgação de informações
sobre o que a empresa esteja gastando ou sendo obrigada a gastar, quer
na forma de investimentos ou de despesas com relação ao
controle do meio ambiente. Mais do que uma contabilidade de gastos ambientais,
é a idéia do 'environmental accountability'. Essa 'tomada
de contas' dos gastos com o meio ambiente parece estar tomando corpo nas
sociedades de inúmeros países de várias regiões
do mundo".
Portanto, propostas e recomendações existem no sentido
de que as companhias tornem públicos os efeitos de sua interação
com o meio ambiente. Os efeitos da interação da empresa
com o meio ambiente, de acordo com Ribeiro & Lisboa (1999), podem
ser identificados mediante:
-> os estoques de insumos antipoluentes para inserção
no processo operacional;
-> os investimentos realizados em tecnologias antipoluentes (máquinas,
equipamentos, instalações, etc);
-> o montante de obrigações assumidas pela empresa para
recuperação de áreas degradadas ou águas contaminadas
e para pagamento de penalidades ou multas decorrentes de infrações
à legislação ambiental;
-> as reservas para contingências constituídas com base
na forte probabilidade de ocorrência de perdas patrimoniais provocadas
por eventos de natureza ambiental;
-> o montante de custos e despesas incorridos com vistas à
contenção dos níveis de poluição e/ou
por penalidades recebidas por procedimentos inadequados.
Essas informações traduzem o empenho prático da
organização em melhorar a qualidade ambiental do planeta
e, por conseguinte, em demonstrar sua responsabilidade social, além
de servir de parâmetro para a melhoria de suas congêneres.
O passivo, que representa as obrigações para com terceiros,
devem ser reconhecidos a partir do momento em que são verificados,
mesmo que ainda não haja uma cobrança formal ou legal. Esta
identificação e a divulgação do Passivo Ambiental
são de grande relevância para avaliação das
condições de continuidade das empresas, além de serem
úteis na evidenciação da responsabilidade social.
Dentre outras forma de identificação do passivo ambiental
temos o EIA (Estudo de Impactos Ambiental) e o RIMA (Relatório
de Impacto ao Meio Ambiente), sendo que o EIA é elaborado na época
de constituição da empresa e o RIMA elaborado periodicamente,
para acompanhamento, dos impactos dos procedimentos operacionais das empresas.
O passivo ambiental tornou-se um quesito elementar nas negociações
de empresa, ou seja, na compra e venda, pois poderá ser atribuído
aos novos proprietários a responsabilidade pelos efeitos nocivos
ao meio ambiente provocados pelo processo operacional da companhia ou
pela forma como os resíduos poluentes foram tratados. Isto é
corroborado por Ribeiro & Lisboa (1999), ao dizerem que pode gerar
significativos impactos no fluxo financeiro e econômico da organização.
A identificação do passivo ambiental também tem
grande relevância nos processos de privatização e
de compra. Nas negociações de valores das transações
e nos processos de incorporação de empresas com características
altamente poluentes, nos quais este item foi ignorado, houve grandes prejuízos
para a incorporação.
O desempenho das empresas, apurado pela demonstração de
resultado, pode mostrar com clareza o montante de recursos consumidos
naquele período específico para a proteção,
controle, preservação e restauração ambiental,
identificando o montante de gastos com penalidade e multas.
A evidenciação dos fatores que refletem a interação
da empresa com o meio ambiente é fundamental. Qualquer que seja
o usuário dessa informação, poderá estar interessado
na identificação dos riscos de eventual descontinuidade
e das perspectivas de continuidade, tendo em meta as ações
e pressões governamentais, da comunidade financeira, de crédito
e da sociedade em geral.
Outro enfoque importante que essas informações poderão
trazer são as instalações e manutenção
de empresas, pois, por intermédio dessas informações,
pode-se analisar o custo-benefício dessas organizações.
Portanto, a Contabilidade poderá dar essas informações
pois é responsável pela identificação e apuração
dos resultados econômico-financeiros. Essas informações
contábeis, conjugadas com dados físicos sobre os poluentes
produzidos comparativamente à quantidade e tipos produzidos no
período imediatamente anterior, bem como sobre os níveis
permitidos pela legislação ambiental, podem ser de grande
valia no que tange à avaliação da responsabilidade
social de uma empresa.
2.1 – Contabilidade Ambiental com responsabilidade social
**2.1 **
Sendo a Contabilidade um excelente instrumento de identificação,
registro, acumulação, análise, interpretação
e informação das operações empresariais aos
sócios, acionistas e investidores em geral, além dos administradores,
obviamente, ela se configura, conforme Queiroz (2000), como o melhor mecanismo
de gestão disponível ao empresariado, cujos resultados apurados
podem ser tornados visíveis à sociedade, com relativa facilidade,
mediante a apresentação de balanços mais complexos,
que incluam, em seu corpo, as respostas aos questionamentos sociais.
Kroetz (2000, p. 24) assinala que, entendendo a Contabilidade como uma
ciência social, é vital compreendê-la como um sistema
aberto, sendo importante verificar a caracterização e a
evolução da teoria Geral dos Sistemas, que nasceu da necessidade
de se ter uma teoria maior, a da totalidade, que pudesse não só
aglomerar, de forma organizada, pequenas células, mas também
procurando situá-la num sistema maior, objetivando a resolução
de problemas.
A Contabilidade, esta enorme fonte de registro, interpretação
e informação de dados empresariais e governamentais, deve
também passar a preocupar-se com o retorno a ser dirigido a toda
a sociedade, conforme disse o presidente da França, Jacques Chirac,
em seu discurso na sessão plenária de encerramento do XV
Congresso Mundial de Contadores, em 1997:
A profissão contábil desempenha um papel fundamental na
modernização e internacionalização de nossa
economia. Isso porque vocês não se restringem a cuidar de
contas. Vocês são conselheiros e, às vezes, confidentes
das administrações de companhias, para que têm um
importante papel a desempenhar, especialmente em assuntos sociais e tributários.
Vocês orientam pequenas e médias empresas em sua administração,
simplificando as alternativas, que ainda são demasiado complexas.
Vocês desempenham, portanto, um papel no desenvolvimento das possibilidades
de emprego, o que merece um especial registro de reconhecimento[...]”
O propósito de toda ciência é produzir conhecimento
e evidenciar sua utilidade. Não obstante isso, Kroetz (2000) enfatiza
que, nas ciências sociais, a teorização do saber deve
necessariamente transcender seu objetivo, buscando o bem-estar social,
isto é, agindo como uma mediadora para que a sociedade se desenvolva,
possibilitando a igualdade entre os homens. Por sua vez, a Contabilidade
traz essa preocupação por meio de suas leis, princípios,
teorias, métodos, instrumentos, buscando a demonstração
da realidade patrimonial e, principalmente, a relação dela
com o ambiente social.
A Contabilidade Ambiental surgiu em 1970, quando as empresas passaram
a dar um pouco mais de atenção aos problemas do meio ambiente.
Contabilidade Ambiental é a contabilização dos benefícios
e prejuízos que o desenvolvimento de um produto ou serviço
pode trazer ao meio ambiente. É um conjunto de ações
planejadas para desenvolver um projeto, levando em conta a preocupação
com o meio ambiente.
Para Maior (2003), a idéia de fazer uma Contabilidade Ambiental
dentro das empresas, ou seja, medir gastos e recursos para a produção
de bens de consumo, veio com a crise do petróleo, em 1974, quando
o produto chegou a um altíssimo custo e estava em escassez. Diz
ainda que parece que, na época, as pessoas entenderam que não
é porque uma matéria-prima é um recurso natural que
ela vai durar para sempre. A conscientização foi ainda mais
reforçada quando o Clube de Roma, um grupo formado por cientistas
de todos os países, preocupados em estudar o futuro do mundo, divulgou
um relatório chamado “Limites de crescimento”, que
mostrava que se continuasse não existindo uma preocupação
com a natureza por parte das pessoas e das empresas, o mundo entraria
em estado de emergência mais rápido do que se esperava.
A Contabilidade Financeira Ambiental passou a ter status de um novo ramo
da ciência contábil em fevereiro de 1998, com a finalização
do “Relatório Financeiro e Contábil sobre Passivo
e Custos Ambientais” pelo Grupo de Trabalho Intergovernamental das
Nações Unidas de Especialistas em Padrões Internacionais
de Contabilidade e Relatórios (ISAR – United Nations Intergovernanmental
Working Group of Experts on International Standards of Accounting and
Reporting).
Junior (2000) diz que, paralelo a este trabalho, o ISAR vem coordenando
esforços com o Comitê de Práticas de Auditoria Internacional
(IAPC – International Auditing Practices Committee) , no sentido
de formalizar um conjunto de padrões de auditoria voltado para
a verificação do desempenho ambiental relatado nas demonstrações
contábeis.
A Contabilidade Financeira Ambiental tem o objetivo de registrar as transações
da empresa que impactam o meio ambiente e os seus efeitos na posição
econômica e financeira da empresa que reporta tais transações,
devendo assegurar, conforme o autor acima, que: a) os custos, ativos e
passivos ambientais estejam contabilizados de acordo com os princípios
fundamentais da Contabilidade, e b) o desempenho ambiental tenha ampla
transparência de que os usuários da informação
contábil necessitam.
Continuamente, estão sendo feitos progressos no sentido de se
proteger o meio ambiente e reduzir, prevenir ou mitigar os efeitos da
poluição e, em conseqüência, há uma tendência
das empresas em abrir para a comunidade uma grande quantidade de dados
sobre uma política ambiental, seus programas de gerenciamento ambiental
e o impacto de seu desempenho ambiental em seu desempenho econômico
e financeiro.
Uma empresa que reconhece suas responsabilidades ambientais deverá
diminuir seu risco financeiro futuro resultante de incidentes ambientais.
Ao mesmo tempo, esta empresa deverá pagar menores prêmios
de seguro em conseqüência do menor risco. Uma taxa de risco
ambiental baixa também pode assegurar à empresa menores
taxas de juros na captação de recursos.
Portanto, a empresa que demonstrar que está avançada em
termos de uso de tecnologias ambientalmente amigáveis ou em relação
à utilização de processos produtivos sustentáveis
poderá angariar benefícios adicionais, tais como um aumento
no comprometimento dos funcionários, menos taxas e multas por danos
ambientais, menores custos de produção e de disposição
de resíduos, além de ter acesso a melhores oportunidades
de negócios. Poderá inclusive explorar a vantagem competitiva
de estar fornecendo bens e serviços ambientalmente adequados.
Várias empresas já têm um profissional trabalhando
com Contabilidade Ambiental, como indústrias de cimento, usinas
de asfalto e muitas outras. É uma tendência com grandes previsões
de crescimento. As empresas querem economizar e, a partir do momento que
tiverem um responsável para contabilizar custos e benefícios
de matéria-prima, ela estará economizando. O consumidor,
por sua vez, está cada vez mais inteligente e hoje chega a fazer
boicote, quando acha que está sendo lesado ou quando reconhece
que determinada empresa está prejudicando a natureza.
Agora, o desafio para a Contabilidade está na mudança de
paradigma, para um modelo contábil ambiental, uma Contabilidade
integrada e competitiva que compreenda movimentos econômicos, movimentos
operativos e movimentos ambientais.
3 – Contabilidade Ambiental – relatório para um futuro
sustentável, responsável e transparente
A preocupação mundial em torno do meio ambiente caminha
para um consenso em torno da adesão a um novo estilo de desenvolvimento
que deve combinar eficiência econômica com justiça
social e prudência ecológica. A combinação
desses elementos somente será possível se houver um esforço
conjunto de todos com objetivo de atingir o bem-estar geral no futuro.
Os contadores têm um papel fundamental nesta perspectiva, uma vez
que depende desses profissionais elaborar um modelo adequado para esta
entidade, incentivar as empresas a implementarem gestões ambientais
que possam gerar dados apresentáveis contabilmente, nos balanços
sociais, além de criar sistemas e métodos de mensuração
dos elementos e de mostrar ao empresário as vantagens dessas ações.
Para Sá (2001), as exigências sociais e ambientais, aquelas
do mercado, a luta imperialista, a velocidade extrema das comunicações,
o progresso espantoso no processo da informação, as aplicações
científicas cada vez mais ousadas em quase todos os ramos do saber
humano, foram os fatores que inspiraram as modificações
conceituais, também em Contabilidade.
As inovações trazidas pela Contabilidade Ambiental estão
associadas a pelo menos três temas:
-> a definição do custo ambiental;
-> a forma de mensuração do passivo ambiental, com destaque
para o decorrente de ativos de vida longa, e;
-> a utilização intensiva de notas explicativas abrangentes
e o uso de indicadores de desempenho ambiental, padronizados no processo
de fornecimento de informações ao público.
Junto a essas variáveis, encontra-se ainda o respeito ao meio
ambiente, cuja incidência econômica, sócio-jurídica
e cultural está fora de toda dúvida e cujo impacto deve
ser reconhecido na Contabilidade.
A Contabilidade não vai resolver os problemas ambientais, mas
face à sua capacidade de fornecer informações, pode
alertar os vários atores sociais para a gravidade do problema vivenciado,
ajudando, desta forma, na procura de soluções.
4 - Finalidade e destinatário da Contabilidade Ambiental
Existem três motivos básicos para a empresa adotar uma Contabilidade
Ambiental:
Razão de gestão interna – Está
relacionada com uma ativa gestão ambiental e seu controle.
Exigências legais – A crescente exigência
legal e normativa pode obrigar os diretores a controlar mais seus riscos
ambientais, sob pena de multas.
Demanda dos partícipes – A empresa está
submetida cada vez mais a pressões internas e externas. Essas demandas
podem ser dos empregados, acionistas, administração pública,
clientes, bancos, investidores, organizações ecológicas,
seguradoras e comunidade local.
Convém especificamente saber por que a empresa quer um sistema
de Contabilidade Ambiental. Em outras palavras, que resultados espera
obter com isto. É importante conhecer quais são os objetivos.
-> Saber se a empresa cumpre ou não com a legislação
ambiental vigente.
-> Ajudar a direção em seu processo de tomada de decisões
e na fixação de uma política e nos objetivos de gestão
ambiental.
-> Comprovar a evolução da atuação ambiental
da empresa através do tempo e identificar as tendências que
se observam.
-> Detectar as áreas da empresa que necessitam especial atenção
(áreas críticas) e os aspectos ambientais significativos.
-> No caso de empresas com uma política ambiental já
estabelecida, conhecer se tem cumprido com os objetivos ambientais fixados
pela companhia.
-> Identificar oportunidades para uma melhor gestão dos aspectos
ambientais.
-> Identificar oportunidades estratégicas: como a empresa pode
obter vantagens competitivas graças a melhoras concretas na gestão
ambiental e quais são as melhoras que dão valor à
companhia.
-> Obter informação específica para fazer frente
à solicitação dos partícipes concretos.
Os partícipes (conforme figura 1) podem ser: diretores, empregados,
acionistas, comunidade local, administração pública,
clientes, fornecedores, investidores, bancos e entidades financeiras,
seguradoras, organizações ecológicas, universidades
e centros de pesquisas e seus interesses estão descritos no quadro
1.
Figura 1 – Partícipes envolvidos
na responsabilidade social e ambiental

Fonte: Fenech (2002)
Quadro 1 - Interesses específicos de cada partícipe
| PARTÍCIPE |
PRINCIPAIS
INTERESSES |
| 1 – Trabalhadores |
Garantia de emprego.
Salários. Orgulho e sentimento de dignidade. Saúde e
segurança no lugar no trabalho. |
| 2 – Comunidade
local |
Riscos de saúde.
Ruídos. Odores. Resíduos expelidos no solo, água
e ar. Conhecimento da atividade da empresa. Riscos de acidente. |
| 3 – Clientes
e fornecedores |
Qualidade dos
produtos. Preços. Segurança nos produtos. Garantia nos
produtos. |
| 4 – Administração
pública |
Cumprimento da
legislação. Acidentes e denúncias. Consumo de
recursos. Evidência de que a empresa cumpre seus compromissos
ambientais. |
| 5 – Entidades
financeiras, investidores e acionistas |
Resultados financeiros.
Informações sobre responsabilidade ou obrigações
legais e respeito a terceiros. Custos ambientais e sua gestão.
Investidores ambientais. Vantagens comerciais relacionadas com a gestão
ambiental. Custo do não cumprimento legal. |
| 6 – Organizações
ecológicas |
Informação
ambiental no âmbito local. Impacto nos ecossistemas. Impactos
ambientais do produto ou serviço. |
Fonte: Fundació Fórum Ambiental (1999).
5 - Áreas da Contabilidade Ambiental
As três grandes áreas que classificam os instrumentos da
Contabilidade Ambiental são produção (aspectos),
direção (decisões) e meio ambiente (impactos).
5.1 - Aspectos ambientais – são os elementos
específicos das atividades, produtos ou serviços da empresa
que podem interagir positivamente ou negativamente com o meio ambiente.
5.2 - Decisões ambientais – incluem todas
as políticas, estratégias, planos de ação
e instrumentos de trabalho que a direção da empresa adota
para desenvolver uma gestão ambiental determinada da companhia.
5.3 - Impactos ambientais – definem-se como toda
troca do meio ambiente, seja adversa ou benéfica ao seu resultado,
total ou parcialmente, das atividades, produtos ou serviços da
empresa.
6 - Momentos da Contabilidade Ambiental
Existem três momentos no processo definido de Contabilidade Ambiental,
de acordo com a Fundació Fórum Ambiental (2001).
6.1 - Medida – consiste na obtenção
de dados relevantes. Para isto é preciso ter definidas, antes,
as áreas de influência ambiental e de criação
de valor que devem ser estudadas e os indicadores a utilizar para obter
a informação adequada de cada aspecto relevante dentro de
cada área.
Uma vez estabelecidas a finalidade, os destinatários e os critérios
da Contabilidade Ambiental, podemos entrar no detalhe de suas três
etapas principais: a medida, a avaliação e a comunicação.
O que é feito, neste estado, é transformar informações
dispersas e heterogêneas em dados úteis, comparáveis
e analisáveis.
O principal instrumento de medida são os indicadores ambientais
que expressam informação útil e relevante sobre a
atuação ambiental da empresa e sobre seus esforços
por influenciar em tal atuação.
6.2 - Avaliação – consiste na análise
e conversão dos dados em informação útil para
tomada de decisão, assim como na valoração e ponderação
desta informação.
Uma vez medida a atuação ambiental da empresa, com a ajuda
dos indicadores, transformamos uma informação dispersa em
um sistema de dados. É o momento de avaliar e analisar estes dados,
comparando a realidade com os objetivos, políticas e recursos da
empresa.
Nesta fase, há duas atividades importantes a realizar:
-> analisar, depurar e explorar os dados para obter informação
requerida, de modo que se possam tomar decisões na empresa;
-> avaliar tal informação através da comparação,
da ponderação e a análises da carteira ambiental.
6.3 - Comunicação – da atuação
ambiental da companhia, tanto faz dentro como fora da empresa. Tal processo
de comunicação consiste na transmissão de informação
sobre a atuação ambiental da empresa e dos partícipes
( stakeholders ) externos ou internos, sobre a base da valoração
que a direção realiza sobre as necessidades e interesses,
tanto da empresa como dos diferentes partícipes.
6.3.1 - Destinatário e motivos (para quem?) –
A comunicação pode interessar a um grande número
e partícipes, com interesses e prioridades distintos. A partir
daí, deve-se estabelecer o conteúdo e a forma da comunicação
que mais convém aos interesses da empresa e das demandas dos distintos
partícipes. O quadro 2 discorre sobre os motivos pelos quais os
partícipes necessitam de informação ambiental.
Quadro 2 - Necessidade de informação ambiental

Fonte: Fundació Fórum Ambiental (2001).
6.3.2 - Objetivos e tipologia da comunicação (para
quê?) – A partir daí, a empresa pode e deve
estabelecer seus objetivos da comunicação ambiental em cada
caso, assim como a tipologia ou forma de comunicação mais
adequada.
Abaixo, resumimos alguns objetivos estabelecidos por cada partícipe,
assim como a mensagem a lançar por parte da empresa como instrumentos
de comunicação mais adequados (quadro 3).
Quadro 3 - Objetivos estabelecidos por partícipe, mensagem
da empresa e instrumento de comunicação.

Fonte: Fundació Fórum Ambiental (2001).
7 - Classificação da Contabilidade Ambiental
A EPA – Environmental Protection Agency (2002) classifica os tipos
de Contabilidade Ambiental conforme o quadro 4.
Quadro 4 – Classificação da Contabilidade Ambiental
Fonte: http://es.inel.gov/partners/acctg/acctg.htm
7.1 - Contabilidade Nacional – é uma medida
macroeconômica. O termo Contabilidade Ambiental está referido
na Economia Nacional. Por exemplo: o termo Contabilidade Ambiental pode
ser usado em unidades físicas ou monetárias de acordo com
o consumo de Recursos Naturais da Nação, sejam renováveis
ou não renováveis. Neste contexto, a Contabilidade Ambiental
tem sido denominada “Contabilidade de Recursos Naturais”.
7.2 - Contabilidade Financeira – relacionada com
a preparação dos estados financeiros que estão baseados
de acordo com os Financial Accounting Standards Board (FASB) y a los Gener
ally Accepted Accounting Principles ( GAAP). A Contabilidade Ambiental,
neste contexto, está referida à estimação
e informação das responsabilidades ambientais e os custos
do ponto de vista financeiro.
7.3 - Contabilidade Gerencial – é o processo
de identificação, compilação e análise
de informação, principalmente para propósitos internos.
Está dirigida à administração dos custos,
em especial para tomada de decisões administrativas no âmbito
da produção e outro.
Neste sentido, podemos determinar que existem três possíveis
contextos onde se aplica o termo Contabilidade Ambiental, um aplicado
na Contabilidade Nacional, englobando aspectos macroeconômicos,
e os outros dois relacionados mais à realidade microeconômica,
com uma unidade empresarial, que é a que nos interessa.
Posto isto, pode-se definir a Contabilidade de Gestão
Ambiental como a identificação, estimação,
a análise, o relatório interno, e o uso dos materiais e
da informação do fluxo da energia, da informação
ambiental do custo, e de outras informações dos custos para
a tomada de decisão convencional e ambiental dentro de uma organização.
A aplicação da Contabilidade de Gestão Ambiental
pode potenciar grandes poupanças de custos na gestão de
resíduos, dado que os custos de manuseio e de deposição
de resíduos são relativamente fáceis de definir e
de imputar a produtos específicos. Outros custos ambientais, incluindo
os custos da conformidade ambiental, custos legais, deterioração
da imagem da empresa e riscos e responsabilidade ambiental são
mais difíceis de avaliar.
A Contabilidade de Gestão Ambiental, segundo a EPA (2002):
-> focaliza nos custos internos à companhia;
-> não inclui custos externos à sociedade;
-> dá ênfase particular na contabilidade para custos
ambientais;
-> abrange não somente a informação ambiental
e outra do custo, mas também informação explícita
em fluxos do exame e os fatos dos materiais e da energia;
-> a sua informação pode ser usada para a maioria de
tipos de atividade ou de tomada de decisão da gerência dentro
de uma organização, mas é particularmente útil
para atividades ambientais proativas da gerência.
Neste contexto, a Contabilidade de Gestão Ambiental incorpora
e integra dois dos três blocos de edifício do desenvolvimento
sustentável: ambiente e economia .
A informação da Contabilidade de Gestão Ambiental
serve essencialmente para ser utilizada internamente pela empresa nas
suas tomadas de decisão. A nível interno, os procedimentos
incluem: medições físicas do consumo de materiais
e energia, fluxos de deposição e deposição
final, avaliação monetária de custos, poupanças
e receitas relacionadas com atividades que apresentam potenciais impactos
ambientais.
8 - Benefícios da Contabilidade de Gestão Ambiental
8.1 - Benefícios potenciais à indústria
-> identifica, estima, aloca, administra e reduz os custos, particularmente
os tipos ambientais de custos;
-> controla o uso e os fluxos da energia e dos materiais;
-> dá informação mais exata e detalhada para
suportar o estabelecimento e a participação em programas
voluntários, custos efetivos para melhorar o desempenho ambiental;
-> informação mais exata e mais detalhada para a medida
e o relatório de desempenho ambiental, assim melhorando a imagem
de companhia com os stakeholders, tais como clientes, comunidades locais,
empregados, governo e fornecedores.
8.2 - Benefícios potenciais à sociedade
-> permite o uso mais eficiente de recursos naturais, incluindo a
energia e a água;
-> reduz os custos externos relacionados à poluição
da indústria, tal como os custos da monitoração ambiental;
-> fornece informações para a tomada de decisão,
melhorando a política pública;
-> fornece a informação ambiental industrial do desempenho
que pode ser usada no contexto mais extenso das avaliações
do desempenho e de condições ambientais nas economias e
em regiões geográficas.
Os exemplos de muitas iniciativas ambientais que se beneficiam da Contabilidade
de Gestão Ambiental incluem:
-> prevenção da poluição
-> design e implementação do sistema de gestão
ambiental
-> projeto para o ambiente
-> cálculo dos custos, poupanças e benefícios
de projetos
-> estabelecimento de metas quantificadas de desempenho
-> divulgação ao exterior de despesas, investimentos
e responsabilidades em ambiente
-> compra ambiental preferível
-> avaliação anual dos custos/despesas em ambientes
-> relatório externo na área do ambiente ou da sustentabilidade
-> produção mais limpa, prevenção de poluição,
gestão da cadeia de fornecedores e projetos de eco-design
-> avaliação de investimentos, cálculo das opções
de investimento
-> preço dos produtos
-> elaboração de orçamentos
-> avaliação do desempenho ambiental dos indicadores
e benchmarking
-> relatório ambiental do desempenho.
9 - Conclusão
Os objetivos da administração, tradicionalmente, eram quase
exclusivamente econômicos. No entanto, conforme Callenbach (19933),
desde a segunda guerra, com a crescente integração da dimensão
social na economia, o conceito de administração foi sendo
gradualmente ampliado até incluir a dimensão ecológica.
O mercado não mais aceita o descaso no tratamento dos recursos
naturais. Os consumidores estão interessados em produtos limpos.
A legislação torna-se mais rígida, imputando sanções
aos infratores, obrigando as empresas a encarar com seriedade e responsabilidade
a variável ambiental em sua estratégia operacional.
A empresa cidadã se desenvolve imersa na sociedade, na qual busca
seus clientes, funcionários e outros insumos necessários
para sua operação. Ela não se atém apenas
aos resultados financeiros expressos em seu balanço, mas inova
a formulação de um balanço social, em que avalia
sua contribuição à sociedade.
Portanto, verifica-se que a sociedade é que dá permissão
para a continuidade da empresa, conforme Kraemer (2000), e que os detentores
de recursos não querem arriscar indefinidamente seus patrimônios
em companhias que se recusem a tomar medidas preventivas na área
social e ambiental. Posição semelhante assumem os consumidores.
Profissionais competentes não podem comprometer a saúde
em função da permanência em locais inadequados.
Logo, a empresa precisa se adaptar aos parâmetros exigidos para
não agredir ao meio ambiente e, por meio do reconhecimento e divulgação
do seu passivo ambiental e da evidenciação dos ativos ambientais
e dos custos e despesas com a preservação, proteção
e controle ambiental, ela torna claro para a sociedade o nível
dos esforços que vem desenvolvendo com vistas ao atingimento de
tais objetivos.
O contador, como menciona Sá (2000), precisa comparecer nesse
novo cenário, com a disposição e competências
necessárias para cooperar com a preservação do planeta,
prosperidade das sociedades e valorização do homem. Deverá
ser o agente capaz de disseminar a responsabilidade social na sua organização
e nas empresas a quem presta serviços. É ele o detentor
de informações ricas e privilegiadas, e capaz de influenciar
positivamente as organizações e contribuir para a tomada
de decisão.
Partindo dessa premissa, a Contabilidade não pode ficar fechada
à escrituração e mensurações quantitativas
do patrimônio da empresa. Ela deve estar aberta à evolução
tecnológica e às mudanças rápidas do mundo
moderno, estar presente na luta pela preservação ambiental
natural, criando modelos contábeis eficazes e orientando o empresário
na aplicação destes modelos para satisfazer as necessidades
da riqueza da empresa com eficácia e também satisfazer com
eficácia as necessidades do meio ambiente natural.
10– Referências
CALLENBACH, E., et al. Gerenciamento Ecológico –
Eco-Manangement – Guia do Instituto Elmwood de Auditoria
Ecológica e Negócios Sustentáveis. São Paulo:
Ed. Cultrix, 1993.
CAMPANHOLA, C. Gestão ambiental e crescimento econômico
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Fonte:
Maria Elisabeth Pereira Kraemer
Contadora, CRC/SC nº 11.170, Professora e Integrante da Equipe de
Ensino e Avaliação na Pró-Reitoria de Ensino da UNIVALI
– Universidade do Vale do Itajaí. Mestre em Relações
Econômicas Sociais e Internacionais pela Universidade do Minho-Portugal.
Doutoranda em Ciências Empresariais pela Universidade do Museu Social
da Argentina. Integrante da Corrente Científica Brasileira do Neopatrimonialismo
e da ACIN – Associação Científica Internacional
Neopatrimonialista.
Endereço: Avenida Joca Brandão nº 111, Edifício
Dona Emília, apto 902 - Centro. CEP 88.301-300 - ITAJAÍ
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