A produção do carvão vegetal na siderurgia


A necessidade de carvão vegetal por parte das siderúrgicas é gigantesca, e assim continuará sendo até que sejam exauridas as reservas, restando a devastação do solo e da floresta nativa. É nesse cenário que se inicia a sua cadeia produtiva, tendo pouca variação na Amazônia Oriental.

O material lenhoso responsável pelo abastecimento de milhares de fornos onde é produzido o carvão vegetal, apesar de ser originário da mata primária é oriundo de atividades distintas, tais como desmatamentos para implantação de pastagens ou roças; das serrarias onde utiliza aparas de madeira; e, em menor proporção, nas áreas dos denominados “manejos florestais sustentados”.

Segundo Maurílio de Abreu a produção de carvão vegetal estabelece uma variada gama de relações sociais, mas que em termos gerais quando a lenha é originária de desmatamentos para a implantação de pastagens ou para outro tipo do cultivo da terra em fazendas, em empresas latifundiárias ou mesmo em pequenas e médias propriedades rurais, os donos da terra cedem a área e nada cobram pela lenha retirada, exigindo, em contrapartida, que os fornecedores de carvão entreguem a área “limpa” para o plantio, quase sempre de capim.

Quando o fornecedor de carvão recebe a área de um proprietário fundiário para entregá-la “limpa”, constrói uma rede de empreitadas que se inicia com a contratação de um gato, o qual será responsável pela broca; pela derrubada, ao que se segue o corte, que consiste em cortar a madeira, em conformidade a um padrão, para ser posteriormente empilhada. O transporte pode ser próprio ou terceirizado.

Na operação de carbonização, quando ocorre em pequenas carvoarias, invariavelmente o carvoeiro recebe a lenha na “boca do forno” e tem sua remuneração baseada no volume da produção do carvão, sendo responsável pela contratação de outros trabalhadores, aos quais remunera tendo por base o pagamento por dia trabalhado, a diária.
A produção do carvão tem influência direta nos mecanismos de privatização da terra. É uma atividade que auxilia mecanismos de ocupação da terra utilizados pela grande empresa que se latifundiza e pelos fazendeiros, pois atua como uma forma de incentivo ao desmatamento para a formação de pastos, uma vez que diminui os custos do desmatamento para o plantio do capim. Favorece também a concentração fundiária por outra via, pois os próprios capitais industriais latifundizaram-se, uma vez que as guseiras adquiriram grandes propriedades fundiárias destinadas à implantação de supostos projetos de manejo florestal sustentado.

No caso especial do Amapá sabemos que a sobra da produção madeireira não será suficiente, nem de longe, para suprir a necessidade da siderurgia, restando a floresta primária para ser devastada, sendo a mais próxima e acessível, a que se concentra ao longo da Perimetral Norte, onde estão grandes assentamentos de agricultores tutoriados pelo INCRA, e pequenos e médios fazendeiros loucos por uma oportunidade como essa para fazer um bom pasto a custo zero. Isso não significa que outras áreas não serão afetadas.

Já temos relatos de que alguns fazendeiros localizados ao longo da Perimetral Norte, já estão em ritmo acelerado de derrubada, por conta do carvão para fornecer à siderurgia. Alás, a sociedade gostaria de saber onde anda o IBAMA e de que forma vai agir nesse caso. È sabido que num passado não muito remoto sua atuação em um caso semelhante, mas de menores proporções, o do ferro-liga, foi perfeita.

A média nacional para devastação florestal pelos guseiros é da ordem de 1 ha para cada 16 toneladas de ferro gusa produzido, o que significa no caso da Sólida 31,25 ha de matas derrubadas por dia, já que sua produção será de 500 toneladas por dia. Isso significa algo em torno de 43 campos oficiais de futebol sendo durrubados por dia.

A história esta aí para provar. São 50 anos de ICOMI, fuçando a terra, explodindo rochas, arrasando o solo, deixando como espólio sucata de ferro no meio do mato, resto de minério contaminado, uma vila quase fantasma no coração da selva e no meio de tudo o Estado brigando para ficar com o que não sabe para que serve.

Quem quiser instalar siderúrgica no Brasil, deve realizar projetos de reflorestamento ou silvicultura, não existe outro caminho, esse é o exemplo de Minas Gerais, que apanhou tanto com a siderurgia, aprendendo depois de tudo quase perdido, o valor de um meio ambiente saudável. É uma questão de competência. E dá dinheiro, não só pelo aproveitamento carbonífero, mas também pela negociação de créditos de carbono no mercado de commodities ambientais. Hoje os paises europeus estão pagando verdadeiras fortunas pelo sequestro de carbono em paises sulamericanos e africanos, capazes de suprir seus déficits de poluição ambiental preconizados no Protocolo de Kyoto.

É preciso agir preventivamente, para que nossa próxima geração não venha chorar a omissão de seus antepassados. Diz o ditado popular que o acertado antes não saí caro.

Tenho absoluta convicção que o caminho do Amapá, não é esse. Temos centenas de outras alternativas mais promissoras socialmente e economicamente, e sustentáveis, capazes de alterar essa realidade cruel que se avizinha.

Desenvolver é preciso, mas também é preciso mensurar seu preço. Hoje o Amapá é o estado brasileiro menos devastado e precisa continuar assim. Ou será que 400 empregos diretos, com média nacional de US$ 200,00, são mais importantes que a qualidade de vida ambiental conquistada, além de um exército de escravos do aço do 10.000 componentes, espoliados floresta adentro? Vendendo açaí essas prováveis 400 famílias empregadas ganharão muito mais e terão saúde de maior qualidade.

Todos os grandes projetos são bem vindos ao Amapá, mas não podem ir chegando na contra-mão da conservação ambiental e nem da omissão oficial dos responsáveis pela aplicação da política nacional de meio ambiente preconizada pelo SISNAMA/CONAMA. Afinal, todos os seus produtos se destinam aos ditos paises desenvolvidos, e desenvolvidos socialmente, que clamam por melhor qualidade de vida ambiental para os seus. Não podemos ser o quintal onde a o serviço sujo é realizado, o lixão de europeus, americanos e asiáticos.

OBSERVAÇÕES:

Este artigo tem partes condensadas da Pesquisa do Doutor Maurílio de Abreu Monteiro, pesquisador do Núcleo de Altos Estudos Amazônicos, da Ufpa.

JOSÉ MARIA OLIVEIRA DA COSTA
Eng. Mecânico, pela Ufpa.
Acadêmico de Gerenciamento Ambiental, pela FAMA
gerenciamento_ambiental@yahoo.com.br