O Big Park dos Confins do Brasil

Nos acostumamos a reverenciar o que é de fora. “Tapete vermelho prá eles”. Isso me faz lembrar as teses de Celso Furtado sobre as causas do subdesenvolvimento. Furtado alega que nós, os subdesenvolvidos, temos apego ao que é “de fora”, pois o que é de fora reflete as grandes conquistas do progresso, e de que a essas conquistas estão associadas considerações de destaque e prestígio social.

Prestaram atenção na abertura do Globo Reporte sobre o “Big Park”? Nos Confins do Brasil... assim o reporter global deu ínicio a mais uma reportagem que exalta a biodiversidade de um parque que exclui as pessoas. O que os amapaenses realmente pensam sobre o “Big Park”? O parque foi criado por que os amapaenses quiseram ou por que as ONGs Internacionais impuseram sua criação? Quais os benefícios? Por que as ONGs Internacionais não investem em pesquisa social, como a cura da malária por exemplo?

Boaventura de Souza Santos, um dos idealizadores do Fórum Social Mundial e da Universidade Popular dos Movimentos Sociais, comentou há poucos dias em entrevista a uma emissora de televisão que o Brasil vive sobre duas ameaças: o colonialismo social e o colonialismo ecológico. Boaventura exemplificou o colonialismo social através de uma manchete estampada num jornal da região que destacava a libertação de alguns trabalhadores escravos no sul do Pará, mesmo transcorridos mais de 100 anos da assinatura da Lei Áurea.

O colonialismo ecológico está relacionado a um sutil comentário do reporter global no final do Globo Reporter do Big Park. Ao destacar que todos os recursos que estão financiando a pesquisa no Amapá são de uma ONG estrangeira, o reporte comentou que necessitamos formar nossos pesquisadores e investir nossos próprios recursos se quisermos nos beneficiar de nossa biodiversidade.

Esse debate é polêmico e está relacionado ao que entendemos sobre soberania, ética e desenvolvimento.

Enquanto nos confins do Brasil estendemos tapetes vermelhos para uma ONG Internacional pesquisar nossa biodiversidade, 100.000 hectares dos campos do Amapá estão sendo tomados pela invasão do algodão-bravo provocado pela falta de política para o setor primário, acarretando numa perda de biodiversidade inestimável, além do comprometimento da hidrodinâmica regional - o Rio Araguari está morrendo. A BR-210 encontra-se com suas margens em processo acelerado de perda da sua cobertura florestal, com avanços da pecuária sobre a floresta e abertura de ramais para exploração ilegal de madeira. O cerrado do Amapá está desprotegido, em acelerado processo de substituição por monoculturas e com indicação de que será transformado em carvão para alimentar fornos siderurgicos.

Temos técnicos e pesquisadores no Amapá com competência para dizer não ao colonialismo ecológico imposto pelas ONGs Internacionais. Por hora, tenho motivos para desconfiar que nossa política ambiental está sendo conduzida por ONGs Internacionais e tudo que se tem falado até agora sobre conservação da biodiversidade é pura demagogia e não tem sustentabilidade.

Marco Antonio Chagas, mestre em desenvolvimento sustentável.