AMAZÔNIA
NÃO TEM INFLUÊNCIA SIGNIFICATIVA
NO EFEITO ESTUFA
(Pesquisa Fapesp)
O peso da Amazônia na luta contra o aumento do efeito estufa,
o aquecimento excessivo do clima da Terra, pode ser
menor do que se pensava. Novos cálculos do fluxo do principal
composto atmosférico responsável pelo aumento da temperatura
média do planeta, o
dióxido de carbono (CO2), revelam que a quantidade desse
gás absorvido
naturalmente por esse ecossistema tropical é igual ou apenas
ligeiramente
maior do que a emitida e não absurdamente maior, como estudos
prévios indicaram. Feita no âmbito do Experimento de
Grande Escala da Biosfera Atmosfera na Amazônia (LBA) mega-projeto
internacional de US$ 80 milhões que, desde 1999, reúne
mais de 300 pesquisadores da América Latina, Estados Unidos
e Europa, sob a liderança do Brasil -, a revisão dos
números aponta para um saldo anual positivo, em favor da
absorção, de cerca de 2 toneladas de carbono por hectare
de floresta preservada.
Balanços
anteriores, alguns conduzidos dentro do próprio LBA, chegaram
a indicar absorção líquida, descontado o que
foi emitido, de 5 a 8 toneladas de carbono por hectare. "É
possível que esse valor esteja até mesmo próximo
de zero", diz Paulo Artaxo, do Instituto de Física (IF)
da Universidade de São Paulo (USP), responsável por
um projeto temático financiado pela Fapesp sobre o assunto
e um dos coordenadores do LBA. Em cada 3,67 toneladas de C02, também
conhecido como gás carbônico, há uma tonelada
de elemento químico carbono. Em linhas gerais, pode-se dizer
que quanto mais CO2 uma floresta absorve, maior deve ser a sua biomassa,
medida na forma de carbono, visto que a fotossíntese da vegetação
se intensifica.
Em
outras palavras, grande absorção de CO2 equivale,
teoricamente, a grande crescimento de um ecossistema. De acordo
com a nova contabilidade, somadas todas as fontes conhecidas de
entrada (absorção) e saída (emissão)
de CO2 da floresta, a Amazônia parece retirar do ar uma quantidade
relativamente modesta desse gás por hectare de floresta preservada.
Ainda assim, como a região amazônica é imensa
abrangendo apenas em território nacional 5 milhões
de Km² (500 milhões de hectares), dos quais cerca de
80% são florestas nativas seu impacto no balanço mundial
de dióxido de carbono pode não ser nada desprezível.
Um
cálculo rápido e simplista, levando em conta uma taxa
de fixação anual de carbono entre uma e duas toneladas
anuais por hectare de floresta, mostra que a Amazônia brasileira,
que engloba cerca de 70% desse ecossistema sul-americano, seria
capaz de retirar da atmosfera algo entre 400 a 800 milhões
de toneladas de carbono a cada 12 meses. Isso equivale a algo entre
5% a 10% das emissões globais de carbono no mesmo período
em razão da ação do homem, basicamente devido
à queima de combustíveis fósseis e ao desmatamento
de florestas. "O Brasil não é o vilão
do mundo por causa do desmatamento e das queimadas na Amazônia
(que emitem quantidades significativas de CO2 para a atmosfera),
mas sua principal floresta também não representa a
salvação do planeta", comenta Artaxo.
Segundo
o meteorologista Carlos Nobre, do Instituto Nacional de Pesquisas
Espaciais (Inpe), de São José dos Campos (SP), coordenador
científico do LBA, estima-se que todo ano a Amazônia
seja responsável por despejar no ar cerca de 200 milhões
de toneladas de C02, em razão do desmatamento de áreas
antes preservadas e da prática das queimadas, sobretudo nos
meses de seca, de julho a novembro.
Até
agora, cerca de 14% da cobertura original da Amazônia já
foi desmatada, a uma taxa de aproximadamente 0,5% ao
ano, pouco menos de 20 mil Km². O saldo em favor da absorção
de CO2 na Amazônia diminuiu por que os pesquisadores do LBA
descobriram imprecisões metodológicas na forma como
vinham calculando o balanço de dióxido de carbono
na floresta tropical. Basicamente, três pontos foram cuidadosamente
revisados. Primeiro tópico reavaliado: os especialistas constataram
que as 12 torres de medição do fluxo do gás
na floresta tropical, instaladas em diversos pontos da Amazônia,
não registravam adequadamente a entrada e saída de
CO2 durante a noite, justamente o período do dia em que as
emissões do gás são mais altas, pois a respiração
das plantas predomina. "Estimamos que, anualmente, cerca de
uma tonelada de carbono por hectare, antes ignorada, é emitida
à noite", avalia Artaxo.
A boa
notícia é que os pesquisadores acreditam já
ter conseguido identificar a origem da imprecisão e, melhor
de
tudo, corrigido a metodologia empregada. Segundo tópico revisto:
os
participantes do LBA verificaram que, ao respirar, a vegetação
amazônica
emite, além do CO2, níveis expressivos dos chamados
Compostos Orgânicos
Voláteis (VOCs). Parte desses VOCs, um conjunto de gases
que contêm carbono,
transforma-se em dióxido de carbono na atmosfera, fazendo
desse tipo de
emissão uma fonte indireta do principal agente responsável
pelo efeito
estufa. "Normalmente, a saída de VOCs é considerada
desprezível na maior
parte dos ecossistemas de clima temperado, mas, na Amazônia,
é importante", destaca Artaxo.
Estima-se
que cada hectare preservado da região despeje por ano no
ar uma quantidade de VOCs capaz de gerar cerca de meia tonelada
de carbono na atmosfera. Por fim, os cientistas conseguiram quantificar
uma terceira fonte de escape de CO2, até então pouco
estudada: os rios e áreas de várzea da Amazônia,
que se encontram saturados de carbono e, por difusão, perdem
concentração desses gás para a atmosfera. "Ninguém
olhava para o papel
das águas no balanço de dióxido de carbono",
comenta Reynaldo Victoria, do
Centro de Energia Nuclear na Agricultura (Cena) da USP, em Piracicaba,
coordenador da parte de biogeoquímica das águas do
LBA e de um projeto temático da Fapesp. "Os rios da
região são grandes reatores que processam matérias
orgânica", acrescenta.
Em
parceria com colegas da Universidade de Washington, também
participantes do LBA, a pesquisadora Maria Victoria
Ballester, da equipe do Cena, mostrou que sai anualmente cerca de
uma
tonelada de carbono por hectare dos rios em direção
à atmosfera. A rigor, o
dado projetado não se refere à Amazônia em sua
totalidade, mas sim a um
grande pedaço da região, um quadrilátero de
1,7 milhão de Km², na parte central da bacia do Amazonas
equivalente a 1/3 da maior floresta tropical do mundo ou
a três Franças. Ainda assim, é um número
bastante representativo das trocas de dióxido de carbono
que se processam na Amazônia.
No
artigo científico em que expõe seus cálculos
sobre a evasão de CO2 dos rios de região em direção
à atmosfera, submetido à publicação
numa grande revista científica internacional, Maria Victoria,
em conjunto com os pesquisadores norte-americanos, afirma que o
saldo geral do ciclo de carbono em florestas tropicais maduras e
intactas, levando-se em conta a soma dos ambientes terrestres e
aquático, deve estar perto de seu pronto de balanceamento.
Em outras palavras, próximo a zero.
As
correções nos números do balanço de
carbono se devem, em grande medida, ao caráter único
e pioneiro do LBA. Não
há em nenhuma outra grande floresta tropical do mundo um
esforço sistemático de medição do fluxo
de CO2 nos moldes do executado na Amazônia. "Esse tipo
de trabalho existe apenas em ecossistemas temperados da América
do Norte e Europa, que são bastante diferentes da florestas
tropical" diz o físico Artaxo. "Não temos
nenhum modelo de pesquisa pronto para copiar e colocar em prática
aqui. Tudo precisa ser desenvolvido e ajustado à realidade
da Amazônia." Em muitos casos, esse ajuste pode fazer
toda a diferença na conta final. As dificuldades em interpretar
corretamente os dados fornecidos pelas torres instaladas na Amazônia
para medir o fluxo de CO2 entre a mata e a atmosfera ilustram bem
essa questão.
Compradas
a um custo unitário de cerca de US$ 200 mil, as torres, que
medem 55 metros, foram instaladas em doze
pontos da Amazônia, tentando cobrir realidades diferentes
da imensa região.
As torres não são tão altas à toa. Seu
topo foi projetado para ficar entre 20
e 30 metros acima da copa das árvores, posição
privilegiada onde ficam seus
sensores de alta precisão, a instrumentos capazes de medir
vezes por segundo a velocidade do vento vertical e as concentrações
de CO2. Para o instrumento, o CO2 que faz o movimento ascendente,
da floresta para a atmosfera, é contabilizado como emitido
pela primeira em direção à segunda. O que realiza
o percurso inverso entra no cálculo como absorvido pela vegetação
ou solo (ou seja, retirado do ar).
Ao
longo do tempo, o balanço (a soma do dióxido de carbono
que entrou e do que saiu) fornece o fluxo líquido do CO2
num local. Como se vê, o sistema de medição
das torres funciona muito bem desde que haja constante circulação
e turbulência verticais de ar no ponto da medição.
Isso acontece diuturnamente nas florestas temperadas da América
do Norte e Europa, matas bem mais abertas do que a Amazônia.
Na floresta tropical, mais fechada, a densa copa das árvores,
que constantemente dificulta a passagem da luz, pode funcionar como
uma tampa capaz de represar o ar abaixo de seus domínios.
Durante o dia, esse efeito de aprisionamento atmosférico
proporcionado pela exuberante vegetação equatorial
não chega a atrapalhar o funcionamento dos sistemas de medição
das torres, pois os períodos de calmaria do clima (com pouca
turbulência atmosférica, sem vento ou chuvas) não
são dominantes. Tanto
o CO2 absorvido pelas plantas durante a fotossíntese (processo
no qual os
vegetais retiram dióxido de carbono da atmosfera e o convertem
em energia e
biomassa) quanto o emitido em decorrência de sua respiração
são registrados a contento.
À
noite, tudo muda e os períodos de calmaria, sem turbulência,
passam a ser dominantes com o agravante de que o ar nesse período
do dia se torna mais rico em CO2. Sem a presença da luz solar,
as plantas não fazem fotossíntese. Apenas respiram,
devolvendo ao ar uma parte do CO2 absorvido durante o dia. Essa
limitação na medição do fluxo noturno
de CO2 é mais acentuada em torres cujo raio de medição
englobe áreas alagadas e que estejam instaladas em locais
com topografia não totalmente plana. Isso porque a inclinação
do terreno faz o CO2, que tem dificuldade de escapar por cima devido
ao efeito tampão da copa das árvores, "escorregar"
para os lados
durante a noite. Quando isso acontece, o dióxido de carbono
emitido logo
abaixo de uma torre sai de sua área de medição,
não sendo, portanto, contabilizado adequadamente pelo equipamento.
Só em área extremamente planas,o gás liberado
durante a noite pela respiração das plantas não
"escorrega" e fica represado pelas copas até o
dia seguinte.
Dessa
forma, esse CO2 noturno que não foi registrado pela torres
acaba passando, com alguma sorte, pelo
sensor do equipamento no início do dia seguinte, sendo, assim,
contabilizado
de forma adequada no fluxo total diurno. "Descobrimos isso
depois de analisar detalhadamente os dados de várias torres
do LBA, em particular as duas situadas em Manaus, operadas pelo
Instituto Nacional de Pesquisa da Amazônia (Inpa)", conta
Artaxo. Distantes apenas 20 quilômetros, as duas torres registravam
balanços de carbono diferentes. Uma dizia que a floresta
absorvia de 20% a 30% a mais de dióxido de carbono do que
a outra. Examinando em detalhes os locais onde ambos equipamentos
foram assentados, os pesquisadores verificaram que as porções
alagadas dentro do raio de ação de uma das torres
eram bem diferentes das áreas inundadas dentro do campo de
cobertura da outra.
Constataram
ainda que a inclinação do terreno onde estavam assentadas
as torres apresentava variações significativas. Segundo
Artaxo, essas
peculiaridades eram suficientes para intensificar o espaço
horizontal do CO2
emitido à noite em uma das torres, explicando, dessa forma,
os dados
aparentemente conflitantes fornecidos pela torres da capital amazonense.
Para
medir corretamente a quantidade de CO2 emitida à noite, os
pesquisadores do
LBA instalaram sensores desse gás em diversos pontos de cada
uma das 12
torres, e também abaixo da copa das árvores. Assim,
o registro noturno da
presença de CO2 sob as árvores ficou mais fácil
de ser obtido. Neste ano, com o auxílio de técnicas
mais precisas de topografia, os pesquisadores
determinarão a inclinação do relevo nas áreas
em que estão instaladas as
torres, outra medida que visa a minorar eventuais imprecisões
dos dados fornecidos por esse tipo de equipamento e dar mais credibilidade
ao cálculo
do balanço geral de carbono.
"Em
meados deste ano, serão instaladas duas torres na Ilha do
Bananal, em Tocantins, as primeiras em áreas inundadas da
Amazônia", conta Artaxo. Com esse aprimoramento, mais
um pequeno buraco na medição do fluxo de CO2 na Amazônia
começa a ser preenchido. Afinal, 14% da região é
coberta por rios ou áreas alagadas, um tipo de habitar onde
o LBA ainda não conta com nenhuma forma de monitoração
permanente dos fluxos de CO2. Antes mesmo da revisão dos
números do balanço de carbono na Amazônia, alguns
técnicos do próprio LBA viam com ressalvas os primeiros
dados levantados pelo projeto, que apontavam a região como
um grande sorvedouro de carbono.
A história
da floretas tropical e sua constituição física
pareciam,
de certa forma, desmentir as cifras que sinalizavam um saldo anual
em favor
da absorção de até 8 toneladas de carbono por
hectare. Afinal de contas, a floresta amazônica não
é uma formação vegetal jovem. É relativamente
antiga e
já atingiu sua maturidade. Portanto, teoricamente, seu fluxo
de carbono
deveria ser próximo de zero. Ou seja, a quantidade de carbono
absorvida e
emitida deveria se equivaler.
Como
um hectare de floresta tropical intacta contém de 140 a 200
toneladas de carbono na forma de biomassa, a Amazônia brasileira
teria,teoricamente, de dobrar de tamanho a cada 28 anos se sua capacidade
de absorção de dióxido de carbono fosse equivalente
a, por
exemplo, 5 toneladas anuais (de carbono) por hectare. "Isto
não está
acontecendo", afirma Artaxo. "A Amazônia não
cresce nesse ritmo". Alguns cientistas, no entanto, argumentam
que a floresta amazônica hoje não se comporta mais
como uma clássica formação vegetal madura.
Florestas antigas, diz a ecologia tradicional, absorvem e emitem
a mesma quantidade de CO2, tendo um crescimento em termos de biomassa
próxima a zero. A causa dessa mudança de atitude seriam
as altas concentrações do CO2 encontradas hoje na
atmosfera do planeta, as mais elevadas da história recente
a concentração do gás pulou de 280 ppm (partes
por milhão) em 1850 para os atuais 370 ppm.
Com
mais CO2 disponível no ar para absorção, o
nível de fixação do dióxido de carbono
por florestas maduras teria se elevado devido a esse aumento na
oferta desse composto atmosférico.
"No
balanço geral, a maioria das torres na Amazônia mostra
mais absorção do que emissão de CO2 pela floresta
preservada", diz o meteorologista Carlos Nobre. "O debate
é se essa absorção é grande ou moderada."
Diretamente envolvida no processo de revisão dos números
de balanço de carbono na Amazônia, o físico
Artaxo, da USP, figura entre os pesquisadores do LBA que acreditam
num saldo modesto em favor da absorção de CO2 pela
floresta. Já o biogeoquímico Antonio Nobre, do Inpa,
responsável pela operação das duas torres do
LBA em Manaus, ainda não está convencido de que o
saldo entre a quantidade de CO2 absorvida e emitida na região
seja tão moderado."Pode até ser que esse balanço
seja da ordem de duas toneladas anuais de carbono (por hectare de
floresta preservada), mas há torres que mostram anualmente
uma absorção líquida anual de mais de 5 toneladas
de carbono (por hectare de floresta)", diz Nobre.
"É
lógico que ainda há incertezas sobre a metodologia
aplicada nessas medições e sobre o ciclo do carbono,
mas não dá para simplesmente ignorar esse dado. Ainda
não conhecemos bem o ecossistema amazônico, que é
muito complexo. As plantas se adaptam aos níveis de CO2 atmosférico
e buscam um novo equilíbrio". Como quase tudo em ciência,
os novos números sobre o ciclo de carbono na Amazônia
não são definitivos nem inquestionáveis. Ainda
mais quando se sabe que esses valores alimentam um tema palpitante
da política e diplomacia internacional,
o do Protocolo de Kyoto, acordo assinado e em processo de ratificação
pela maior parte das nações do planeta (com exceção
digna de nota dos Estados
Unidos), que prevê metas de redução nos níveis
de emissão de CO2 para os
países industrializados como forma de reduzir o efeito estufa.
"Para não
ficarmos na dependência apenas de informações
vindas do estrangeiro,
extrapolada a partir de medições feitas em florestas
temperadas, nós,
brasileiros, temos de entender e produzir nossos próprios
dados sobre o ciclo de carbono na Amazônia", diz Artaxo.
O efeito
estufa, causado por uma cortina de gases atmosféricos, com
destaque para o CO2, que impede o retorno ao espaço de todo
o calor irradiado pelo Sol em direção à Terra,
é um fenômeno natural, desejável, sem o qual
não haveria clima propício no planeta ao florescimento
da vida. É ele que faz o globo terrestre ser quente o suficiente
para ser habitável. O aumento do efeito estufa, em razão
da
elevação exagerada dos níveis de dióxido
de carbono atmosférico e outros gases, é que faz a
temperatura esquentar mais do que o desejável, provocando
o derretimento de geleiras e, eventualmente, colocando em risco
o equilíbrio do planeta.