Agricultura sustentável e resgate do conhecimento tradicional.

Vânia Beatriz Vasconcelos de Oliveira *

A busca da sustentabilidade da agricultura familiar na Amazônia compreende, dentre outras iniciativas, o resgate do conhecimento tradicional, para que em interação com o conhecimento científico, possam contribuir com o processo de gestão dos recursos naturais. Diante da inegável importância da agricultura moderna e dos seus impactos socioeconômicos e ambientais, cabe-nos uma questão, para reflexão: como pensar os conhecimentos dos agricultores? Até que ponto ainda podemos falar de conhecimento tradicional, se os próprios agricultores já acumularam conhecimentos da agricultura moderna?

O sistema de conhecimento que pautou o desenvolvimento da agricultura brasileira caracterizou-se pela fragmentação da natureza e a dicotomização da sociedade em especialistas e não especialistas. Se pensarmos no agricultor tradicional, como aquele que se reproduz socialmente em uma unidade de produção agrícola, a partir dos conhecimentos recebidos dos antepassados, estaria este, restrito as populações tradicionais indígenas e ribeirinhas?

Vários fatores têm influenciado na gradativa perda do conhecimento holístico do homem: a busca desenfreada pela dominação da natureza, a visão produtivista dos sistemas agrícolas, a expansão dos meios de transportes, que aumentaram o cosmopolitismo do homem do campo; e os meios de comunicação , que encurtaram a distância entre o rural e o urbano e passaram a influenciar comportamento. Porque olhar o céu para saber se vai chover, se a parabólica no campo informa a previsão meteorológica?

O projeto “Comunicação e educação para gestão ambiental e transferência de tecnologias, em comunidades ribeirinhas do Rio Madeira”, que vem sendo desenvolvido pela Embrapa Rondônia, nas comunidades Cujubim Grande e Porto Seguro, em Porto Velho, busca compreender essa realidade, exercitando o resgate e valorização do saber tradicional, através de grupos comunitários de estudo (GCE).

Um dos grupos constituídos é o que estuda o açaí, tem promovido discussões sobre o uso da espécie nas comunidades, e objetiva realizar inventário das populações naturais e estudo socioeconômico do sistema de produção. Participam do GCE Açaí, técnicos, pesquisadores e agricultores familiares que tem tradição na coleta e comercialização do açaí e outros que estão na expectativa de cultivá-lo. Assim, nessa interação, em Oficinas de trabalho, o grupo coloca em comum e discute os conhecimentos sobre diversos aspectos da cultura.

Uma contribuição importante dos produtores tradicionais é quanto ao sistema extrativista local, sobretudo quanto a época de frutificação e colheita, relacionando as melhores performances (cor, sabor, tamanho dos frutos) as observações das condições climáticas (chuvas). Quanto as práticas tradicionais, identificou-se algumas mudanças no uso e forma de aproveitamento. Na coleta do fruto, a peconha, tradicionalmente preparada com as folhas do próprio açaizeiro, está sendo substituída por saco plástico resistente. O processamento, para consumo próprio, já não se faz usando o alguidar, mas sim o pilão e baldes plásticos, neste caso, prática influenciada por migrantes da região Nordeste.

A idade avançada de agricultores considerados tradicionais, já não permite que subam nas árvores e encontram dificuldades de transferir aos jovens da comunidade a técnica de escala com o uso da peconha, implicando em pagamento de mão-de-obra extrafamíliar. Revelou-se também uma preocupação e demanda por equipamentos de segurança para a escalada. E ainda relatos de que ocorre a derrubada da própria árvore para a retirada do cacho.

Outras contribuições dizem respeito ao uso do estipe (tronco) no preparo de cercas, galinheiros e pequenas pontes, na propriedade, e o emprego de parte da planta em práticas medicinais: o chá da raiz do açaí e o farelo ou pó do caroço torrado foram citados como coadjuvantes no combate à anemia.

As mudanças verificadas são um indicador de que o caminho é o da integração do conhecimento tradicional e do moderno. A proposta agroecologica a ser levada aos agricultores, não necessita estar sintonizada com o holismo identificado no pensamento oriental, isto é, não é necessário compreender a essência yang/yung da sabedoria chinesa, bastaria volver o olhar para os ancestrais indígenas, Tupã e Jacy, (sol e lua), a influenciar o nascimento e crescimento das plantas.

Resgatar o conhecimento tradicional, não implica em trocar o novo pelo velho. Por sua vez, a pesquisa científica, tem por obrigação oferecer soluções tecnológicas, que minimizem o esforço braçal da atividade agrícola.

 

* Comunicóloga. Mestre em Extensão Rural. Pesquisadora - Embrapa Rondônia
vania@cpafro.embrapa.br (encaminhado para publicação em 22/12/05)