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A BRONCA DA ECOLOGIA SOCIAL
Os
estados mais preservados da Amazônia são Amapá, Amazonas
e Roraima. Essa avaliação é quantitativa e baseia-se
na área de cobertura florestal detectável pelos satélites.
Entretanto, somente a pesquisa científica fornece os indicadores
primários necessários para um melhor conhecimento sobre
a dinâmica ambiental e áreas ricas ou não em biodiversidade.
De outra forma é fazer apologia à natureza selvagem, sob
a sustentação dos escritos sagrados e do antropocentrismo
praticado durante o século XVIII.
Uma das estratégias para acelerar os passos da pesquisa científica
é mapear o saber tradicional e construir um conhecimento voltado
para a tomada de decisão e conseqüente melhoria da qualidade
de vida. Na área ambiental, esse conhecimento é gerado pelos
adeptos da ecologia social.
O Amapá apresenta alguns problemas ambientais negligenciados pelas
políticas públicas. Um desses problemas se refere à
perda acelerada de biodiversidade na região costeira, onde ocorre
um conjunto de ecossistemas frágeis, como os conhecidos lagos do
Amapá, campos inundáveis e manguezais.
Esse problema vem sendo provocado pela intervenção humana
sobre o ambiente natural, tendo o búfalo como instrumento de destruição.
A EMBRAPA desde 1998 vem alertando sobre a gravidade do problema, através
dos levantamentos de campo realizados pelo pesquisador Paulo Meirelles.
Estima-se que mais de 100.000 hectares da região costeira dos municípios
de Amapá e Pracuúba está tomado pelo algodão-bravo
(Ipomoea fistulosa), espécie tóxica, que vem colocando em
risco o rebanho desses municípios.
A equipe do Programa de Gerenciamento Costeiro do Amapá (GERCO)
há mais de 10 anos vem desenvolvendo estudos na região,
acumulando um rico acervo científico sobre a ecologia da costa
amapaense. Recentemente, resolvemos motivar uma discussão sobre
o assunto e consultamos uma das pesquisadoras do GERCO, que habilmente,
nos levou até a presença de um tal de “Seu Antonio”.
“Seu Antonio” é um fazendeiro de família tradicional
da região do Amapá. De cara, essa figura fez questão
de declarar que se o assunto fosse algo relacionado ao Governo, estaria
fora. Seus argumentos são fortes, mas não vêm ao caso.
O fato da pesquisadora do GERCO ter nos indicado um papo com “Seu
Antonio” para discutir os problemas ambientais da região,
dão conta de que essa pesquisadora pratica a ecologia social. Enquanto
“Seu Antonio” falava, tentávamos contextualizar o seu
saber tradicional, acumulado em 54 anos de vida convivendo diariamente
com o ambiente natural, com as teses das ciências ambientais. Ficamos
imaginando quão importante seria a criação de um
curso de ecologia popular, com professores formados pela academia e professores
formados pela universidade da vida, a exemplo de “Seu Antonio”.
Uma folha de papel foi o suficiente para “Seu Antonio” desenhar
toda a fisiográfia dos campos da região e traçar
a evolução das causas, conseqüências e soluções
para o problema que está levando a uma perda de biodiversidade
sem precedentes na história do Amapá.
Resolvemos guardar essa folha de papel como recordação de
nossa primeira aula de ecologia popular ministrada por um homem simples,
mas doutor no saber tradicional. Ao final da conversa, “Seu Antonio”,
também conhecido como “Bronca”, despediu-se e, emocionado,
declarou o quanto ama essa terra e sofre no seu dia-a-dia em ver a biodiversidade
do Amapá sendo destruída.
Antonio
Carlos Farias, biólogo e mestre em ciências.
Marco Antonio Chagas, geólogo e mestre em desenvolvimento sustentável.
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