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Custos
locais de se estabelecer áreas protegidas em comunidades de baixa
renda na Amazônia
Lúcia Tereza Ribeiro do Rosário
Economista, Especialista em Gestão e Comercialização
dos Recursos Naturais para Comunidades Rurais da Amazônia, Mestranda
em Gestão Econômica do Meio Ambiente/Universidade de Brasília
- UnB.
A Economia do Meio Ambiente tem argumentos consideráveis sobre
a conservação da biodiversidade em unidades de conservação.
A teoria econômica distingue o valor da biodiversidade em valor
de uso e de não uso. Valores de uso se referem aos valores diretos
de ecoturismo, dos rendimentos de produtos florestais madeireiros e não
madeireiros e valores indiretos, relacionados aos benefícios futuros
de reciclagem de nutrientes, proteção das bacias, biodiversidade
e seqüestro de carbono. Em contraste, valores de não-uso se
referem à existência, aos valores estéticos e culturais.
Enquanto os benefícios da conservação da biodiversidade
são bastante explorados, principalmente em relação
aos seus valores, custos e benefícios da conservação,
os custos de oportunidade, por outro lado, recebem muito menos atenção,
embora seja reconhecida sua importância. (Dixon & Sherman, 1990;
Pearce et al., 1993; Panayotou, 1994; Ferraro, 2002; Balmford, 2003).
Do ponto de vista dos custos locais suportados por residentes locais em
comunidades de baixa renda, as informações quantitativas
são ainda mais escassas. A maioria do que tem sido escrito dá
ênfase aos impactos sociais.
Governos e organizações de doadores internacionais reconhecem
que a integridade, em longo prazo, de áreas protegidas, depende
do apoio de comunidades rurais que vivem adjacentes a elas, mas são
inexistentes as análises quantitativas que tratam dos custos da
conservação (Ferraro, 2002).
Muitas áreas ainda são criadas numa relação
“de cima para baixo” onde as comunidades e o poder público
local (estadual ou municipal) têm pouca influência nas discussões,
principalmente quando se trata de áreas federais. É o caso
da criação de parques nacionais. O método do custo
de oportunidade, portanto, se constitui numa ferramenta capaz de contribuir
para a resolução desses conflitos.
Mueller (2004) aponta sua importância para estimar o custo de preservar
uma área de floresta nativa, transformando-a em um parque ou floresta
nacional. O custo de oportunidade é então determinado pelo
valor presente dos benefícios futuros de que abriria mão
ao se preservar a floresta. Esse benefício poderia decorrer da
extração da madeira e do subseqüente cultivo da área,
ou do seu uso em formas de manejo sustentável da floresta. É,
portanto, o benefício sacrificado no seu melhor uso alternativo.
Compreender os custos locais da conservação em nações
de baixa renda também é importante por razões de
equidade. Considerando os benefícios globais, aqueles que suportam
os custos de conservação tipicamente são pobres e
aqueles que aproveitam os benefícios tipicamente são ricos
(Ferraro, 2002).
Kramer & Sharma (1997) notaram, que assim como as falhas em medir
os benefícios da proteção de biodiversidade podem
contribuir para políticas de desenvolvimento subfavoráveis,
falhas em medir os custos locais de proteção podem contribuir
para estratégias de conservação ineficazes.
Doadores internacionais normalmente não têm informações
acerca dos custos de oportunidade da conservação para as
comunidades situadas nas áreas a serem protegidas ou em seu entorno.
Desta forma, costumam usar como medida de doação, quantias
estipuladas pelos países que as recebem. Estes por sua vez, usam
como medidas de valor suas planilhas de custos baseadas somente na manutenção
e operação, e não do que representa a preservação
para os estados e municípios onde são instaladas áreas
protegidas.
Na Amazônia, por exemplo, a criação de áreas
protegidas tem sido um dos principais mecanismos para a conservação
da biodiversidade. Porém, com exceção dos custos
de manutenção, são desconhecidos os custos de oportunidade
da conservação.
O Programa Áreas Protegidas da Amazônia (Arpa), pautado na
Convenção da Diversidade Biológica tem como meta
expandir, consolidar e manter uma parte do Sistema Nacional de Unidades
de Conservação (SNUC) no Bioma Amazônia, protegendo
pelo menos 50 milhões de hectares de florestas e promovendo o desenvolvimento
sustentável da região , além de identificar áreas
com amostras importantes da diversidade da Amazônia, criando e consolidando
unidades de conservação de proteção integral
e de uso sustentável. O Arpa também tem como meta realizar
estratégias financeiras para o desenvolvimento econômico
das comunidades que vivem nessas áreas.
É mantido principalmente com recursos de doadores (o GEF - Fundo
para o Meio Ambiente Mundial, o Banco Mundial, o KfW - Banco de Desenvolvimento
Alemão, o WWF-Brasil e o Funbio - Fundo Brasileiro para a Biodiversidade)
e pretende, em dez anos, executar US$ 400 milhões.
A primeira fase do programa Arpa, com quatro anos, tem à disposição
US$ 86,3 milhões, provenientes do Governo Federal (US$ 18 milhões)
e dos doadores: Fundo Global para o Meio Ambiente - GEF (US$ 30 milhões),
WWF-Brasil (US$ 16,5 milhões) e Banco de Desenvolvimento Alemão
- KfW (US$ 21,7 milhões) (MMA, 2002).
Supõe-se que esses valores são baseados em estimativas em
relação aos benefícios da conservação,
sem considerar os custos de oportunidade da conservação
para os residentes locais.
Dados do Ministério do Meio Ambiente (MMA) indicam que o custo
anual de manutenção de uma unidade de conservação
(UC) na Amazônia seja de US$ 200 mil , embora não divulgue
como foram estimados esses valores.
A estimação de custos de oportunidade oferece informações
úteis para identificar esses custos, apesar de não identificar
os benefícios indiretos da conservação.
Um estudo mais completo pode identificar não somente os custos
de oportunidade, mas os benefícios diretos e indiretos da conservação,
realizado por meio da aplicação de uma análise custo-benefício
(ACB).
Na ACB os benefícios de uso indireto são mais difíceis
de valorar e sujeitos á controvérsias. Um simples exercício
acadêmico não é suficiente para determinar o valor
de existência (de saber que a biodiversidade existe) e o valor de
opção (de reter a biodiversidade para uso futuro), por exemplo.
São bens que não possuem valor de mercado e, para conhecer
esses valores é necessário identificar a disposição
a pagar pelos bens, utilizando métodos de valoração
contingente, custo de viagem ou preços hedônicos. A estimação
desses benefícios esbarra na incerteza sobre a sua natureza, seu
tamanho e valor, além do problema da irreversibilidade de perda
de espécies e de horizontes de tempo muito longos (Sinden, 2004).
O custo de oportunidade se constitui, portanto, num importante mecanismo
para identificar valores condizentes com a realidade dos governos locais,
acerca de possíveis compensações pela conservação,
proporcionadas por governos e organizações de doadores internacionais,
principalmente como mecanismo de apoio ao Arpa.
Ou ainda, servir como medida de valor para identificar o quanto governos
estão subsidiado a conservação. Ou seja, ao identificar
a renda sacrificada que restringe o crescimento econômico em áreas
não convertidas em unidades de conservação, estará
se identificando o custo de oportunidade da conservação
suportada pelas populações residentes e governos onde são
criadas as áreas protegidas.
O Estado do Amapá proporciona um contexto apropriado para estudar
os custos locais do estabelecimento de áreas protegidas. O Amapá
possui 55,27% de seu território protegido por unidades de conservação
e terras indígenas. Somente 16% do território pertencem
ao Estado e está disponível para a conversão, o restante
é composto de áreas públicas federais reivindicadas
pelas autoridades locais para serem repassadas à jurisdição
estadual.
Esse processo limita as terras para fins produtivos, pois os moradores
do entorno dependem, em parte, dos recursos florestais das áreas
protegidas para subsistência e atividades comerciais. Desta forma,
exercem grande pressão sobre estas áreas, principalmente
para extração de produtos florestais madeireiros e não
madeireiros, caça e pesca, e são desconhecidos os custos
de oportunidade da conservação. Além disso, a concentração
fundiária nesses locais contribui para o aumento do desmatamento
e expansão da pecuária extensiva.
Considerando a realidade fundiária do Estado e a recente criação
do Corredor Ecológico, que restringe ainda mais as áreas
para exploração e, considerando ainda a ausência de
manejo dos produtos da fauna e da flora, supõe-se que esse quadro
pode contribuir para uma exploração intensiva dos recursos
das áreas destinadas para a exploração levando à
exaustão mais rapidamente. A conseqüência futura desse
processo é a pressão sobre os recursos naturais das áreas
protegidas, em especial do Corredor Ecológico.
Usando dados de uso dos recursos naturais como renda doméstica
dos moradores do entorno, podem ser calculados os custos de oportunidade
da conservação por eles tolerados e assim, ter uma medida
mínima de valor que possa servir de base para estimar o custo de
oportunidade da conservação.
Essas análises podem contribuir para que doadores nacionais e internacionais
possam levar em consideração os custos de oportunidade da
conservação e para servir de subsídio para as políticas
públicas que tratam de medidas de compensação para
comunidades de baixa renda que reivindicam o desenvolvimento com base
na exploração dos recursos naturais existentes em seus domínios.
E ainda, servir como reflexão sobre pressões econômicas
futuras para conversão das áreas protegidas.
Referências Bibliográficas
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- SCA - Projeto ARPA, 2002.
MUELLER, C. Os Economistas e as Inter-relações Entre o Sistema
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