OS DIREITOS DOS PAIS:

CONSTRUINDO CIDADÃOS EM TEMPOS DE CRISE


TANIA ZAGURY

Há algum tempo quase todas as publicações voltadas para a educação na família vêm enfatizando de forma acentuada os deveres dos pais e os direitos dos filhos. Esse fenômeno vem causando uma aguda sensação de insegurança e medo nos pais, levando a uma crescente inibição em relação à educação dos filhos e a situações extremas — filhos matando por dinheiro, fugindo de casa à menor contrariedade, mentindo com desenvoltura e até com certo orgulho para conseguir seus objetivos imediatos e muitas vezes fúteis. Em OS DIREITOS DOS PAIS: CONSTRUINDO CIDADÃOS EM TEMPOS DE CRISE, a filósofa e educadora Tania Zagury revela a gravidade deste problema que “precisa ser atacada de imediato”, diz.


Professora Tânia, esse é o seu 11º livro, certo?

Isso mesmo. É o décimo primeiro e o oitavo sobre educação na família.

Por que escolheu esse título Os direitos dos pais? Os pais estão sem direitos?

Exatamente. Na verdade, não é que estejam sem direitos do ponto de vista legal ou real, mas o que preocupa é que eles não estão acreditando que têm certos direitos, o que determina uma série de dificuldades, problemas e conflitos na família, especialmente quando os filhos entram na adolescência.

A que a senhora atribui esse fato?

De algumas décadas para cá, quase todas as publicações voltadas para a educação na família vêm enfatizando de forma bastante acentuada os deveres dos pais, tanto na mídia eletrônica quanto na impressa, ressaltando de forma intensa os deveres dos pais e os direitos dos filhos. Esse fenômeno vem causando uma aguda sensação de insegurança e medo nos pais, levando a uma crescente inibição em relação à educação dos filhos. A meu ver, esse é um problema muito grave, que precisa ser atacado de imediato. Daí a idéia de escrever o livro, visando, entre outras coisas, reassegurar aos pais um espaço de atuação que é imprescindível às metas da família.

Que direitos são esses aos quais a senhora se refere?

São direitos bem simples, mas nem por isso menos importantes: são situações do dia-a-dia, como entrar no quarto do filho, por exemplo. Ou o direito de cortar a mesada se o jovem estiver utilizando o dinheiro de forma indevida. Pode parecer estranho para alguns, mas atualmente pai e mãe sentem-se exatamente assim. Tudo lhes parece excessivo, antidemocrático, antiliberal. E não são só os pais que estão sob essa influência, os próprios filhos, insuflados por mensagens divulgadas através de filmes, novelas etc., acreditam ter o direito de proibir determinadas coisas aos pais, alegando, por exemplo “invasão de privacidade” ou “pagar mico” e até mesmo “ficar traumatizado para sempre”. Por outro lado, os adolescentes, principalmente, acreditam que têm todos os direitos e muito pouco ou quase nenhum dever para com os pais, a escola e a sociedade. Por exemplo, quando uma jovem de 13, 14 anos faz, sem o consentimento dos responsáveis, uma tatuagem alegando que o fez “com o seu próprio dinheiro”, que, na verdade, é a mesada dada pelos pais, com destinação específica, ela está refletindo exatamente essa postura equivocada. Ou então, quando alunos deixam de entregar (ou escondem dos pais) uma mensagem que a escola enviou por seu intermédio, marcando uma reunião. É impressionante como isso hoje está se tornando comum. Há até mesmo, por parte de alguns, reclamações quanto ao colégio disponibilizar para os pais, via Internet, as notas e conceitos dos filhos.

Como os pais reagem a isso?

Hoje há tanta pressão sobre os pais que eles realmente acabam aceitando como verdade coisas com as quais não concordam, em nome do que se convencionou chamar “liberdade, privacidade, direitos dos filhos”. O que tento mostrar no livro é que os filhos têm direitos, sim, mas não exatamente esses que eles estão a exigir (roupas de grife, celular, carro, não dar satisfações aos pais, mentir e esconder fatos etc.) Outro objetivo do livro, que pretendo difundir, é o de que cada direito corresponde a um dever, conceito que defendo desde 1981, no livro Sem padecer no paraíso -, e que chamei de “correspondência no paraíso”. Os pais têm deveres, os filhos também. Os pais têm, porém, muitos direitos diretamente ligados à possibilidade de educar os filhos, que, se não exercidos, causam danos graves, inclusive refletindo na sociedade. No momento, estamos assistindo perplexos a jovens de classe média e alta atacando idosos, homossexuais, participando de gangues, praticando grandes e pequenos delitos, que atentam contra a sociedade. Na raiz de tudo, encontram-se a passividade e a omissão da família, que acuada, a meu ver, por esse desequilíbrio entre direitos e deveres, acaba deixando os jovens sem metas e objetivos.

O Estatuto Da Criança e do Adolescente (ECA) contribuiu para que essa situação surgisse?

Na verdade, não. O ECA é fundamental - embora esteja realmente precisando de alguns ajustes - porque ele objetiva proteger as crianças desassistidas, que, infelizmente, não são poucas. E esse papel ele cumpre muito bem. O que vem ocorrendo é a má interpretação dos direitos da criança e dos jovens. Repito: se a criança tem direito ao estudo, por seu lado, ela tem o dever de estudar. A cada direito institui-se um dever, que lhe é complementar e que, se não cumprido, perde seu propósito. É essa relação causal que pretendo fortalecer nesse novo livro.

Por que o subtítulo “Construindo cidadãos em tempos de crise?”

Porque quando os responsáveis abandonam ou se sentem cerceados no seu direito de intervir sobre determinadas atitudes dos filhos, a educação e a formação ética dos novos cidadãos ficam imensamente comprometidas. No momento, a sociedade está em crise. Estamos assistindo ao desmonte das nossas mais importantes convicções - já temos dúvidas sobre a integridade dos legisladores, juízes, governantes, advogados e até de médicos. Muitos são os pais que, sentindo fragilizada sua crença nas instituições, e, somado a isso, temendo ferir os direitos ou provocar danos emocionais nos filhos, acabam restringindo seus objetivos e ideais em relação aos filhos, deixando de lado seu papel fundamental que é formar cidadãos íntegros e produtivos. Especialmente quando a sociedade parece premiar os corruptos, eles acabam coagidos a não intervir com o rigor que habitualmente teriam, quando os filhos agem de forma ilegal ou antiética e, sem perceber, acabam compactuando com a incivilidade.

Qual a solução para isso?

Como coloco no livro Os direitos dos pais, a solução está em, exatamente, ter a coragem e a segurança de “lutar contra a corrente”. Ou seja, quanto maior a crise social, mais importante se torna a função paterna. Em lugar de abandonar a luta, precisamos, mais do que nunca, trabalhar as novas gerações (tanto família, como escola) no sentido de uma conscientização crescente, do desenvolvimento da capacidade de se opor ao que vimos assistindo, a acreditar que são eles - os jovens - que poderão melhorar e mudar o perfil da sociedade. Para isso, pais e filhos têm que voltar a viver em sintonia, com respeito de parte a parte, é claro, mas preservando-se a hierarquia e a autoridade dos pais. Em última análise voltar a acreditar nos seus próprios direitos é o melhor antídoto que os pais têm contra os atos devastadores que temos visto ocorrer - filhos matando por dinheiro, fugindo de casa à menor contrariedade, mentindo com desenvoltura, e até com certo orgulho, para conseguir seus objetivos imediatos, muitas vezes fúteis. Para vencer esse quadro, só voltando a crer que respondemos por nossos filhos perante a sociedade, perante eles próprios e perante a nossa consciência. Podemos e devemos ser democráticos e modernos, mas jamais deixando de lado nosso papel de formadores da ética das novas gerações.