Amazônia sofre "invasão branca"


General alerta para os objetivos obscuros de ONGs estrangeiras na região
Rodrigo Otávio

A Amazônia preocupa os militares não por causa de uma possível invasão militar nos termos clássicos, possivelmente protagonizada pelos Estados Unidos numa segunda etapa do Plano Colômbia (presença militar norte-americana no país vizinho para combater o narcotráfico). Mas sim com a atual invasão "intelectual e humanitária" das organizações não-governamentais. A afirmação é do general Luiz Gonzaga Schroeder Lessa, presidente do Clube Militar e ex-comandante do Comando Militar do Leste e do Comando Militar da Amazônia.

Segundo ele, estas ONGs, principalmente de origem européia, se disfarçam de missionárias e pesquisadoras para se apossarem da biodiversidade da região. Por causa disso é que o general, do alto dos seus 49 anos de Exército e muitas horas de vôo sobre a selva em diferentes épocas, faz questão de alertar: o Brasil precisa assumir suas riquezas naturais, regulá-las e protege-las.


TRIBUNA DA IMPRENSA - A Amazônia brasileira sofre muita pressão internacional?
LUIZ GONZAGA SCHROEDER LESSA - A Amazônia sofre uma pressão muito grande internacional, todos nós sabemos. Esta pressão tem se modificado, adquirido feições diferentes. Mas a verdade é que nunca a Amazônia saiu da prioridade internacional. Recentemente, tomando uma nova face dessa pressão sobre a Amazônia, nós vimos a declaração muito contundente desse senhor francês, Pascal Lamy (representante comercial da União Européia), em que ele diz taxativamente que as florestas tropicais - e o Brasil é o maior detentor de florestas tropicais no mundo - deveriam se constituir em bem público mundial. E propõe uma governança global para esses chamados bens públicos mundiais.
A pressão nunca mudou, é que hoje é mais sutil e mais forte. Essa tese de soberania relativa que querem aplicar em cima de outros países..."não, a Amazônia tem que aplicar sobre ela uma soberania relativa, é patrimônio da humanidade". Vê se isso vale para território americano? Vamos falar no Texas, que já foi México. Mesma coisa para outros países: vamos aplicar soberania relativa em cima de França, de Inglaterra, de Alemanha. Ninguém fala nisso. Vale para os outros, não para eles. Esse é um aspecto que a gente tem que ter cuidado. Quem tem força exercita a sua força. É a realidade do mundo, é a "realpolitik" e foi sempre assim.

Recentemente o Brasil e os EUA estiveram envolvidos em um acordo para a utilização, pelos norte-americanos, da base militar de Alcântara (MA). É possível algo semelhante na Amazônia?

Eu quero crer que será extremamente temerário que o governo brasileiro negocie com qualquer governo estrangeiro, mas muito em especial com o governo norte-americano, bases ou cessões de áreas. Não diria na Amazônia, diria no Brasil, a favor dos interesses deles. Eu não acredito. A postura brasileira, a tradição brasileira, é frontalmente contra isso e não quero crer que o governo Lula esteja nessas negociações.

Confere que recentemente uma missão militar brasileira foi ao Vietnã estudar como se deu a resistência popular a um invasor estrangeiro?

Confere. Nós tivemos uma delegação de oficiais brasileiros no Vietnã, logicamente então autorizada pelo governo brasileiro e do Vietnã, que foi lá observar a experiência que o Vietnã teve na luta contra um inimigo muito mais forte, com muito mais recursos, que no caso eram os Estados Unidos. É bom notar que o Exército brasileiro já tem desenvolvido uma doutrina, em especial para a Amazônia, que se chama "Doutrina da Resistência".
A "Doutrina da Resistência" é o reconhecimento tácito que nós temos de que o Brasil não tem efetivo militar para enfrentar uma potência do Primeiro Mundo. Então temos que montar uma estrutura que permita desestimular aventuras em cima do Brasil.
Então o que nós desenvolvemos na Amazônia é exatamente a participação popular, a participação da Força Armada, atuando como forças irregulares que dêem um desgaste tão grande a um provável inimigo que venha para a Amazônia que levará 10, 20 ou 100 anos, mas nós os expulsaremos.

Especificamente falando da Doutrina Bush, o senhor acredita que há a possibilidade de os Estados Unidos se aventurarem a esse tipo de ação, uma ocupação militar?

Não, não acredito. Porque não há o quadro para isso. Veja o seguinte: ninguém invade um país se não houver um quadro político que dê a moldura e que motive a opinião pública mundial de que aquele país precisa ser invadido. Exemplo: Iraque. Então, não existe esse motivo na Amazônia.
Acho que hoje já existe uma ameaça que nós não estamos sabendo respondê-la, que é a das organizações não-governamentais. A Amazônia passa por um processo de uma invasão branca. A Amazônia está sendo invadida sem derramamento de sangue, sem violência e com o acordo da nossa sociedade promovido pelas organizações não-governamentais. Quando o governo Lula assumiu, o senhor ministro da Justiça (Márcio Thomaz Bastos) disse que iria criar uma secretaria, um órgão interno do Ministério, para controlar essas ONGs. Esse órgão até hoje não existe e então o Brasil não sabe quantas ONGs estão na Amazônia. Então essa invasão branca já está a pleno vapor, com liberdade de atuação e até apoio governamental.

Dentro dessa invasão branca como é o assédio das ONGs às autoridades brasileiras? E o que eles levam da Amazônia?

Nem é feito o assédio, eles já entram. Veja o seguinte: as ONGs têm recursos financeiros, esses recursos financeiros fruto de suas matrizes que estão normalmente colocadas na Europa e nos EUA. Então, elas vêm baseadas em projetos, alguns de boa intenção. Visam ajudar comunidades e promover algum desenvolvimento.
Mas a maior parte das ONGs tem objetivos secundários muito longe dos seus ditos objetivos de desenvolvimento, seja econômico, seja social. E elas vêm e se instalam, sejam como missões religiosas, sejam como organizações ambientais. E passam a usar dos recursos da área operando livremente, normalmente muito bem equipadas, e estabelecem controles em determinadas áreas da Amazônia. Têm determinadas áreas da Amazônia que você passa controlado por ONGs, com satélites e tudo mais.
Aí você vai dizer: "E o que faz o governo?" O governo nem sabe onde que elas estão atuando porque não tem controle sobre elas. Pegam plantas, animais e vegetais e patenteiam. E depois passa a ser propriedade deles. O Brasil mais tarde precisa de alguma coisa nesse sentido e tem que pedir permissão e pagar royalties a eles. É esse o sentido deles aqui. Até cientistas que inicialmente entram no Brasil com o concordo do governo brasileiro para determinadas pesquisas, mais tarde são pegos fazendo tráfico de macacos, sapos, borboletas, fungos e tudo mais. É a biopirataria, que funciona quase livremente na Amazônia.

O senhor diria que essas ONGs estão a serviço de poderosos grupos econômicos internacionais?

Sem dúvida. E sempre com uma face boa para a gente aceitar. Na maioria delas com uma tintura para a aceitação, mas na realidade o que se quer, o objetivo delas aqui, é totalmente diverso.

Mas em alguns casos é mais fácil conseguir recursos para pesquisas em meios internacionais do que com o Estado brasileiro. Essa invasão branca também se dá muito mais pela burocracia brasileira do que pelo assédio internacional.

É verdade. O Estado é ausente da Amazônia. E como o Estado é ausente, outros tomam o papel dele. E quando tomam o papel dele, fazem coisas que o Estado poderia fazer, mas logicamente tiram muito mais proveito para os seus interesses particulares do que para o todo. Agora, as Forças Armadas de há muito viram que a Amazônia era a prioridade do País. Nós tivemos essa preocupação de ver que as ameaças para o Brasil não estão mais no Sul. Com isso eu quero dizer o seguinte: a prioridade das Forças Armadas é a Amazônia porque sabemos que problemas futuros do Brasil estarão lá.

Uma das riquezas específicas do Brasil é a água. Conseguiremos defender esse bem?

O Brasil detem 20% da água do mundo. É muita água, embora ainda tenhamos secas. O mundo é faminto de água. A água é um bem escasso e acredito que teremos guerras no futuro por ela. Há uns dados da Organização Internacional do Trabalho muito preocupante de que daqui a uns 20 ou 30 anos metade da população mundial não terá água para a sua sobrevivência. Então essa bomba vai estourar na mão das gerações que estão vindo por aí. E o governo tem que disciplinar o uso de água no Brasil.
Em muito bom momento se criou a Agência Nacional de Águas (ANA). Por quê? Ela vai ter que disciplinar o uso de água no Brasil. Quem usa água tem que saber que aquilo é um bem finito e vai acabar. Então eu não posso estar usando minha água como nós fazemos hoje; para lavar o chão, para lavar o meu carro ou o pátio da minha casa. Esse não é o uso que a gente quer. A água para isso tem que ser água reaproveitada. Água reaproveitada de chuvas ou de esgoto, tratadas e reaproveitada para essas atividades secundárias.

E quanto à cobiça internacional?

Olha, ninguém abre mão de seus recursos, de suas águas. Mas aqui no Brasil nós estamos vivendo um momento em que grande parte da água brasileira está em mãos de empresas privatizadas, e essas empresas privatizadas podem ser nacionais ou estrangeiras. Então, esse excesso de privatização de hidroelétricas é abrir mão de um patrimônio que vai nos fazer falta no futuro.
Com o petróleo a mesma coisa. Eu vejo que o governo está cometendo um suicídio em médio prazo. Porque o nosso petróleo é escasso, não pesamos nem 1% no mercado internacional, mas o que nós temos é vital para nós. O que nós temos de reservas não dará mais de 20 anos. Então por que permitir que empresas estrangeiras explorem o nosso petróleo, e pior, exportem? Explorar para consumo interno eu até admito. Agora, explorar o petróleo para exportá-lo é que é a política suicida.