Randolfe quer ser o candidato do PT ao governo

O deputado estadual pelo PT, Randolfe Rodrigues, diz estar preparado para assumir as rédeas do poder executivo estadual. Exercendo o segundo mandato na Assembléia Legislativa, Randolfe faz críticas ao governo Lula, mas acredita que o PT pode retomar seus rumos populares. Defende com veemência a união das esquerdas em torno de um projeto para o Amapá. Critica os grande projetos e a monocultura da soja e alerta para os danos ambientais. A entrevista foi concedida à jornalista Márcia Corrêa, com exclusividade para este site.


MC - O senhor é membro da Força Socialista, corrente interna ao PT que faz críticas ao governo Lula. Qual o caminho que seu grupo político vai adotar. Fica ou sai do PT?

Dep. Randolfe - Nós ainda acreditamos que tanto o PT quanto o governo Lula estão em disputa. Acreditamos que os rumos do Partido dos Trabalhadores não estão definidos. Vivemos no PT um dilema. Sabemos de onde viemos, agora temos que definir para onde vamos. Esse processo de disputa e definições poderá demorar anos.
Mas, acho que o período do governo Lula pode ser central para dizer, não só para onde o governo vai, mas em especial, e depende disso o rumo do governo, para onde o PT vai.
Se o PT conseguir recuperar os valores que o fundaram, se o PT conseguir fazer o resgate do seu papel com a luta social, do seu pé em especial na luta social como prioridade em relação a outras ações que o partido tem tomado, que lamentavelmente tem aproximado o PT da cantinela do neoliberalismo, eu acredito que se o PT conseguir reconstruir os seus valores fundantes nós conseqüentemente conseguiremos levar o governo Lula, levar o governo federal a ter um papel mais a esquerda e conseguiremos fazer triunfar no governo federal o discurso e a prática política do desenvolvimentismo, e não a prática, as ações que tem sido levadas a cabo pela política econômica.

MC - O PT assumiu um governo com forte herança neoliberal. É possível em quatro anos implementar ações baseadas nesses “princípios fundantes” do PT?

Dep. Randolfe - Em quatro anos é possível começar um processo de transição. Nós temos sido muito tímidos nisso. Só retomar o desenvolvimento econômico não pode ser alternativa. Por exemplo, o período que o país mais cresceu economicamente foi na Ditadura Militar, que chegou a crescer treze, catorze por cento. E nem por isso os problemas sociais, a grande distância que separa pobres e ricos foi diminuída.
Nós temos a tarefa histórica de iniciar um processo de transição de um modelo neoliberal para, pelo menos, um modelo desenvolvimentista. Ocorre que não combina com isso, por exemplo, a política de juros altos do governo. Não combina com esse princípio a manutenção do discurso do estado mínimo.
As ações da política econômica são contraditórias com, por exemplo, uma ação que o governo tem movimentado, que é uma ação econômica de esquerda, que é o microcrédito. O governo está incentivando o microcrédito por um lado e ao mesmo tempo tem a resistência da política econômica a ações como essa.

MC - Essa dualidade existe em diversos setores do governo. Por um lado afirma que a reforma agrária é prioridade, por outro faz um corte pela metade no orçamento do setor. Como o senhor analisa as ações do governo Lula para solução dos conflitos da terra?

Dep. Randolfe- Eu vejo que esse é o conflito que nós estamos nos deparando no governo. Eu estive nos Estados Unidos em 2003 a convite do governo americano junto com um outro companheiro, deputado estadual do PT do Pará, Airton Faleiros. No momento que visitamos as organizações do governo americano, o principal reclame do Airton Faleiros era sobre a situação das chamadas terras do meio onde irmã Dorothy acabou sendo vítima. Falando da ação de madeireiros na exploração indevida do mogno naquela região.
A luta que irmã Dorothy estava travando, a pauta de desenvolvimento que ela estava propondo para aquela região nós estamos debatendo há mais de dez anos. O governo, através do Ministério do Meio Ambiente já tinha uma ação proposta para lá e a ação só não era implementada porque o governo tinha risco de entrar em conflito com os interesses de grandes grupos madeireiros, em especial com os interesses do agrobusiness, dos esquemas da soja. As medidas que acabaram sendo adotadas depois da morte da irmã Dorothy eram medidas que são contrárias às políticas da monocultura naquela região.
A reforma agrária é um aspecto, eu não tenho dúvida, que nós avançamos muito pouco. O MST, João Pedro Stedile já falava isso. O número de assentamentos realizados em 2003 não corresponde a vinte por cento sequer do que havia sido prometido para ser realizado em quatro anos.
Não tem como fazer omelete sem quebrar ovos. Não dá para o governo dizer que vai valorizar o agrobusiness, a monocultura que é concentradora de renda e ao mesmo tempo dizer que vai realizar a reforma agrária. Algum interesse vai ter que ser contraditado aí. A bancada ruralista vai ter que abrir mão um pouquinho para os que sempre perderam começarem a ganhar alguma coisa.

MC - O governo Lula está cedendo demais em nome da governabilidade?

Dep. Randolfe - Coalizão com os setores conservadores é algo tão frágil para nós que a maior prova disso foi a eleição da Câmara agora. A divisão do PT favoreceu muito a derrota do candidato petista à presidência da Câmara. Mas, foi mostrada uma verdade, que não se pode confiar na palavra, nos acertos, nos compromissos desses setores. Grenhaugh não foi eleito pela figura de esquerda que ele representa. A imagem do Grenhaugh é a imagem de um lutador social de esquerda. A nossa elite é muito arcaica, ainda tem a cabeça no século dezoito. Boa parte da nossa elite ainda é concentradora de renda, ainda é agrária, ainda é dos torrões coronelísticos do Nordeste. A maior prova é o retrato do presidente da Câmara, um dos mais notórios representantes dos redutos coronelísticos do Nordeste.

MC - A soja volta à cena do debate no Amapá com toda força. O secretário estadual de meio ambiente está fazendo uma defesa fervorosa da monocultura da soja. Qual sua opinião sobre esse fato?

Dep. Randolfe - Tenho o maior carinho e respeito pelo atual secretário de meio ambiente, mas acho um absurdo um secretário de meio ambiente falar isso. É um setor do governo do qual não se podia esperar esse tipo de declaração, por saber quais as conseqüências da soja para o nosso cerrado, por ter estudos, aí vou passar um pouco para o campo econômico, do caráter concentrador de renda da monocultura e por saber das conseqüências ambientais.
Até algum setor do governo do estado, como a indústria e comércio, defender isso, não acho defensável, mas é justificável. Agora, a secretaria do meio ambiente defender a idéia do plantio da soja aqui é algo que considero no mínimo precipitado.
A soja traz uma série de conseqüências, que nós ainda não sabemos quais serão, para os nossos ecossistemas, para a nossa biodiversidade. Não sabemos quais as conseqüências da transgenia, nunca tivemos experiência nesse sentido. Nós não sabemos a conseqüência de dizimar espécies que nós sem conhecemos no nosso cerrado para a produção de monocultura.

MC - Entre os municípios administrados pelo PT no Amapá chama atenção a situação de Serra do Navio, com a prefeita Francimar Santos. O município passa por um novo movimento migratório, mais uma vez em função da atividade de grandes projetos de extração de riquezas. O que a gestão petista pode enfrentar naquele município daqui para frente?

Dep. Randolfe - O maior desafio do PT vai ser reconstruir um ideal de cidade porque ao longo das últimas administrações, após a saída da ICOMI, era possível sentir no povo a perda da perspectiva de viver lá. Muita gente falava em sair, dizia que não tinha mais horizonte, mais alternativas. O desafio é recuperar o projeto de que ali é um local bom pra se viver, um local que pode ter um modelo de desenvolvimento diferente do modelo que o fundou. A Serra, assim como o Amapá, não pode viver de arrotos de desenvolvimento.
Nos anos quarenta aparece uma multinacional querendo investir naquela região, cria-se uma euforia, vai gerar empregos, trinta anos depois miséria, caos social e a riqueza natural retirada. Cinqüenta anos depois vem um outro projeto, representado pela Sólida Siderúrgica, dizendo que vai produzir carvão e gerar não sei quantos empregos. Querem criar novamente uma euforia e num prazo menor, talvez em dez ou quinze anos vai embora e deixa dano ambiental e problema social para nós resolvermos.
Tanto Serra do Navio como o Amapá não podem viver de momentos fugazes, de promessas de desenvolvimento que na verdade só acabam enriquecendo alguns poucos. Foi assim com a Icomi, foi isso que representou o projeto Jarí, foi isso que representou a Novo Astro, é isso que representa o projeto da Sólida agora e é isso que representa a monocultura da soja.

MC - A produção de ferro guza deixou conseqüências graves no Haiti com um rastro de pobreza e sérios danos ao meio ambiente. No momento em que o país é administrado pelo PT, a América Latina respira ares de esquerda, o Amapá corre o risco de seguir o caminho do Haiti, por exemplo?

Dep. Randolfe - Acaba correndo até mais riscos, porque como nós temos a cobertura de um governo de esquerda, isso pode dar ou transparecer alguma legitimidade para a instalação desses projetos. Acho que nenhum projeto pode ser implantado no Amapá sem debate com a sociedade, sem debate sobre as conseqüências.
Eu não sou contra a instalação de nenhum desses projetos aqui, mas não pode ser euforicamente comemorado e referenciado pelo governo estadual como a resolução dos problemas do Amapá. Os grandes projetos têm que ser debatidos pela sociedade. Tem que ter contrapartida desses projetos.
Porque ao retirar matéria-prima daqui nós também não a beneficiamos até o produto final? Temos que debater alternativas de desenvolvimento. Nós não podemos passar à História como grandes fornecedores de matéria-prima e o nosso povo continue vivendo com as dificuldades que vive.

MC - Após dois mandatos como deputado estadual o senhor se sente preparado para exercer um mandato executivo?

Dep. Randolfe - Não tenho dúvida disso. Estou convicto disso. As experiências que tive durante o governo Capiberibe, na militância social da esquerda e no parlamento nos dão condições de assumirmos um mandato executivo. Mais do que eu, sempre acreditei na construção coletiva. Nós temos um grupo de companheiros e companheiras militantes que têm tido uma experiência fantástica na implementação de políticas públicas de inclusão social da maioria.
Eu acredito que nós podemos unir a esquerda amapaense na reconstrução do caminho do Amapá. Eu nunca acreditei que alguém sozinho pudesse fazer alguma coisa. Eu sempre acredito que o que nós temos de melhor na esquerda amapaense pode construir um caminho para o Amapá diferente do que é seguido hoje.

MC - O senhor pretende disputar a indicação do PT para o governo do estado em 2006?

Dep. Randolfe - Vou, sem dúvida. Irei à disputa das prévias. Estou procurando conversar com lideranças do PT e estou convencido de que nós poderemos sair vitoriosos das prévias internas do partido e depois, podemos mais do que isso, unir a esquerda.
Eu não quero ser o representante de mim mesmo. Quero ser candidato a governo porque quero ser representante de um projeto da esquerda, de retomada de um projeto dos setores populares amapaenses para voltar a governar o Amapá.

MC - Como a sua candidatura tem sido vista pelas demais forças internas do PT, uma vez que o senhor já disputou prévias para prefeito e as disputas internas do PT são evidentemente muito acirradas?

Dep. Randolfe - Já disputei prévias inclusive por duas vezes. E por duas vezes fui derrotado. Tenho iniciado o diálogo principalmente com os setores da chamada esquerda do partido, tenho tido recepção, mas ainda é muito preambular. Mas, também tenho conversado com outras lideranças da esquerda e tenho visto receptividade à idéia.
Eu vejo um desejo muito grande construir um programa para o Amapá. Tenho tido essa manifestação por parte de lideranças do PSB e também do PT. Então, o que nós vamos priorizar agora é construir um programa.

MC - Aliança com o PSB é prioridade?

Dep. Randolfe - Reconstruir a unidade da esquerda, no meu entender, tem que ser prioridade. Eu não vejo como nós caminharmos separados do PSB. Analisando a história das eleições no Amapá, de noventa pra cá, nós sempre vimos dois grandes blocos, um representante dos setores populares, da luta social, que se construiu como ideário de esquerda dos anos sessenta pra cá, e outro representante de uma parcela pequena da elite comercial, da elite que se encastelou no poder estatal. Esses dois setores, nas últimas eleições têm se enfrentado. Quando eles se dividiram em 94 nós conquistamos o governo, quando nós nos dividimos em 2002 eles retomaram o governo. Então, eu não vejo como nós reconstruirmos o caminho para o governo se não for unindo os setores da esquerda, estando junto com o PSB, com o PC do B e com o movimento popular.

MC - É possível a ida de seu grupo para o PSOL?

Dep. Randolfe - Não temos debatido isso. Nossa prioridade tem sido mudar os rumos do PT. Nós vamos esgotar todos os esforços possíveis para que o PT mude o rumo e conseqüentemente o PT não atrelado ao governo impulsione o nosso governo a mudar o rumo, em especial da política econômica, que considero tem sido continuidade da política econômica dos tristes anos de neoliberalismo.