“A Fortaleza de Macapá é parte do álbum de família da humanidade”

Maria Elisa Modesto Guimarães Costa

Presiidente do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan)

A presidente do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), a carioca Maria Elisa Costa, é o que os caboclos da Amazônia costumam rotular como sendo gente sem “pavulagem”. Apesar do cargo que ocupa e do pedigree que deveria ostentar, - é filha do arquiteto e intelectual Lúcio Costa, um dos fundadores do Iphan no final da década de 1930- Maria Elisa é sempre muito espontânea. Gestos expansivos, riso solto; fala e gesticula muito. Não tem papas na língua. Diz o que pensa mesmo quando o assunto envolve alguma crítica ao governo federal, seu atual patrão. Arquiteta como o pai (formou-se em 1958), diz que já “mexeu” com praticamente tudo na vida: arquitetura, planejamento e até cinema. “Eu não tenho carreira, tenho estrada”, brinca. No Amapá desde a última quinta-feira, onde veio conhecer as descobertas arqueológicas feitas pela equipe do professor Marcos Albuquerque da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) no entorno da Fortaleza de São José de Macapá, a presidente do Iphan ficou impressionada com a raridade e a grandiosidade das estruturas encontradas na área externa do Forte e com os trabalhos de restaruração. Na cidade histórica de Mazagão Velho que visitou junto com o governador Waldez Góes, se comprometeu a apoiar integralmente a proposta do governo de tombar o patrimônio histórico da cidade para preservação cultural. Depois de uma visita completa com a equipe amapaense que trabalha no projeto de urbanização e paisagismo da área externa da Fortaleza, Maria Elisa concedeu a seguinte entrevista onde fala da sua relação com o patrimônio histórico, de sua primeira experiência de governo e de suas impressões sobre o que viu no Amapá..

PERGUNTA: Como a senhora chegou ao Iphan?

MARIA ELISA COSTA - Sou arquiteta. Me formei em 1958. Já mexi um pouco com tudo. Arquitetura, administração, cinema...Nunca fui especialista de nada. Quando me perguntam sobre a minha carreira costumo dizer que não tenho isso, tenho mesmo é estrada e é isso que me habilita a estar no IPHAN. Não tenho experiência de governo mas minha relação com o patrimônio histórico vem do meu pai que ajudou a fundar o ISPHAN antigo. Para mim não é um dever vir conhecer um patrimônio como este aqui no Amapá, na verdade é fundamental. No Ministério da Cultura existe essa visão em relação a gente se apropriar da nossa história, porque você não constrói o futuro se você não fizer isso. Nossa intenção é fazer com o que se chama de patrimônio faça parte da vida cotidiana. Por isso é importante ver as coisas de perto. Sentir o potencial. O Amapá, por exemplo, não deve isolar seus atrativos culturais. Tem que juntar o forte, o Mazagão, a comida típica, a Pororoca. Buscar os caminhos através de conjuntos de coisas.

PERGUNTA- Qual a concepção de patrimônio histórico hoje defendida pelo governo Lula?

MARIA ELISA - Para que a preservação dê certo é preciso mais do que qualquer coisa da cumplicidade da população. Precisa também de parcerias, mas o número um é que a população compreenda que isso tudo é nosso. E isso tem ser repetido tanto quanto for necessário. Ao mesmo tempo é necessário que se dê vida aos espaços preservados. Se isso não acontece as pessoas não se apropriam. Então é preciso dar essa noção de que o patrimônio histórico é um bem nosso. O sujeito que picha ou destrói alguma coisa está destruindo sua própria casa. O patrimônio é a vida das cidades, a vida das pessoas. Tem que vitalizar porque senão morre de novo. Restaurar e estragar continuamente não adianta. Ou aquilo faz parte da vida das cidades ou então é teórico. Agora para fazer parte as pessoas têm que não só conhecer mas ter intimidade. Uma coisa de família, como a receita do doce da avó que você guarda com o maior carinho. Tem que ter um uso racional. É preciso que caia essa ficha na cabeça das pessoas.

PERGUNTA- A senhora costuma desvincular a palavra patrimonial da educação, por quê?

MARIA ELISA - É porque acho fundamental que a preservação do patrimônio seja ensinada desde o primário, como um aprendizado que faça parte do cotidiano. Por exemplo, se fazer brinquedos, ensinando o menino a construir como se fazia antes. A palavra patrimonial me parece pretensiosa, tem um ar de coisa impostada, como se você subisse num banquinho. Acho que se deve falar dessas coisas de uma maneira absolutamente acessível, mas isso é uma mania minha, inclusive as palavras educação patrimonial são reconhecidas internacionalmente, mas não gosto deste tom, não é assim que se ensina. Na realidade a verdadeira educação patrimonial tem que aproveitar a curiosidade da criança e leva-la a entender. Tinha que fazer parte da educação normal. Por exemplo, pegar meninos pequenos e trazer para dentro deste Forte e como é aqui dentro, mostrar como eram dados os tiros, eles iam adorar. Não tem que ter um capítulo separado chamado educação patrimonial. Ela tem que existir, mas quanto mais for inserida na educação normal, como complemento, melhor.

PERGUNTA - Num país em que a principal preocupação é combater a fome e a miséria, que lugar tem a cultura?

MARIA ELISA - Fico com as palavras do meu querido ministro Gilberto Gil que respondendo a um grupo de intelectuais que afirmavam que a cultura é extraordinária disse que a cultura tem que ser mesmo é ordinária. Acho que a cultura faz parte da cesta básica do brasileiro, como o feijão e o arroz. O que incomoda é quando você vê cultura como um adereço, um enfeite, um brinco. A cultura tem que ser vista como uma argamassa que liga e integra todas as atividades. Lúcio Costa dizia uma coisa muito importante: que o Brasil não tem vocação para a mediocridade. Não tenho dúvida disso. Do ponto de vista estritamente econômico a cultura rende. Acho que o governo deveria calcular qual é a porcentagem do PIB [Produto Interno Bruto] decorrente de atividades vinculadas à cultura. Isso iria longe. O que a cultura gera de empregos, de atividade econômica não é desprezível, mas na hora dos recursos destinados para a cultura vem uma gotinha.

PERGUNTA -Que impressões a senhora leva desse contato com tudo o que existe de patrimônio histórico e cultural no Amapá?

MARIA ELISA - Uma das missões que atribuo ao IPHAN é ajudar o Brasil a conhecer o Brasil. Passei os últimos cinco anos trabalhando para a Universidade Regional do Cariri (sul do Ceará), e descobri um pedaço do Brasil que se não fosse essa oportunidade de trabalho eu nunca iria saber que existia. É uma missão nossa no IPHAN inventar meios e modos de fazer o Brasil se conhecer. A realidade hoje é que a gente aceita caricaturas empobrecedoras das nossas coisas, e isso me dói. O Brasil é uma glória na diversidade de culturas, essa mistura que chega a me emocionar. A grande vontade que eu tenho é de contribuir para divulgar o que tem no Amapá. É completamente diferente quando você vem. Podia ter lido sobre aqui, mas quando você olha para a água do rio Amazonas que você entende que o tempo de todos é o tempo do rio, o rio é que manda... traz toda uma carga que quando você recebe ao vivo é completamente diferente. Então você transmite de outra forma.

PERGUNTA - A sociedade amapaense se ressente da falta de investimentos dos organismos federais que trabalham com o patrimônio histórico, principalmente na preservação da Fortaleza. Que apoio deveria ser dado?

MARIA ELISA - Essa mágoa, existe em todos os lugares. Apenas aqui acho mais compreensível, porque existe mesmo essa dificuldade do conhecimento. Todo mundo sabe o valor, mas o Brasil tem que se integrar, porque aqui tem riquezas, vamos tentar, para ver se a gente consegue ajudar. Essa Fortaleza é uma coisa fantástica, como o Marcos [Albuquerque] estava dizendo, como esta só a do Príncipe da Beira (Rondônia) no Brasil. É uma coisa muito impressionante, é uma história que tem que ser contada direito. Tem que passar a informação, não é por nada é que ás vezes não é por mal, nem por nada é por ignorância, desinformação... É muito restrita a informação que o Brasil tem do Brasil.

PERGUNTA - Agora que a senhora conhece a Fortaleza São José de Macapá que impressão leva desse patrimônio histórico brasileiro?

MARIA ELISA - A Fortaleza tem uma imagem das coisas construídas no passado que é como se pertencesse ao álbum de família da humanidade. Ela nos remete às nossas origens. Com que capricho ela foi construída, impecável... temos que reconhecer que não foi de improviso que foi feita aqui. Era a expectativa do desconhecido. Quando se fez isso se estava marcando uma terra nova. Um gesto de muita coragem, muito mais até do que toda o empreendimento das navegações portuguesas. A melhor providência para se olhar as coisas do passado é como se você mergulhasse num filme de época. Passa para trás e faz de conta que é presente. Naquela época fazer um forte aqui era muito mais complexo do que ir para a lua hoje. Agora estamos cheios de computadores. Naquela época eles tinham apenas o céu e as estrelas e não sabiam o que tinha do outro lado do mar. É impressionante você pensar nisso. Fiquei muito impressionada com tudo isso que é a Fortaleza São José de Macapá. São os rastros da nossa história que a gente tem que se apropriar dela. Devemos ter o dever e o prazer. É uma coisa que mexe realmente com a nossa cabeça...É maravilhoso.

Entrevista concedida a Gilberto Ubaiara (jornalista e licenciado em História), e Eliane Cantuária (jornalista e acadêmica de Direito), embos do Departamento Central de Notícias (DCN) da Secom